Ao analisar a relação dos escravos com o mundo dos impressos do século XIX, em suas mais recentes pesquisas, Marialva Barbosa (2009) considera os processos de transição da oralidade à escrita e de transformações decorrentes da passagem de uma oralidade primária (ONG, 1982) para uma secundária e a entrada no mundo do letramento. Também Paul Zumthor (1993) reconhece da mesma maneira esta oralidade secundária e primária, mas ajunta uma terceira oralidade: a mista. Cada uma delas correspondendo a situações culturais dife- rentes. A primária seria aquela existente em sociedades sem qualquer contato com a escrita. Mas outros tipos de oralidade coexistem dentro do grupo social com a escrita. Dá o nome de oralidade mista, quando a influência do escrito é externa, parcial; a segunda se constitui a partir da escritura no entorno, debili- tando os valores da voz no uso e no imaginário. Já a oralidade mista precede a existência de uma cultura escrita; a oralidade segunda de uma cultura erudita (em que toda a expressão está mais ou menos condicionada pelo escrito).
O projeto de pesquisa de Marialva engloba, ainda, reflexões sobre modos de comunicação orais, escritos, letrados, impressos, no mundo comunicacional
de misturas do século XIX e questões relativas aos processos cognitivos exis- tentes em sociedades e culturas de oralidade primária e das transformações que ocorrem a partir da introdução da escrita/impressão. No projeto, ela coloca importantes questões: “Os escravos eram leitores de primeira, segunda e terceira natureza e, sobretudo, eram sujeitos imersos em novos modos de comunicação. É necessário tentar reconstruir os contextos dessas leituras e escrituras. Como aprendiam a ler e a escrever? Por que aprendiam a ler e a escrever? Qual era o significado de saber ler e escrever nessa sociedade? Será que a leitura e a escrita não eram meramente vistas como mais uma habilidade? O que era saber escre- ver nesta sociedade? Saber escrever textos complexos ou apenas assinar o nome? O que era saber ler nessa mesma sociedade? Conseguir decifrar signos isolados ou saber formular um sentido a partir da leitura?” (BARBOSA, 2011).
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