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MODERNIDADE E AMBIENTE

1.2.4 Ordem ambiental internacional

O conceito de ordem é empregado por Ribeiro (2001:16) para referir-se à “medida de regulação da ação humana, como norma que estabelece limites para a intervenção”. A expressão “ordem ambiental internacional” é por ele conceituada como a ordem que “restringe a ação humana no ambiente, seja ele natural ou não, em nível mundial”, ou, também, um “sistema planetário adequado à gestão de recursos vitais à existência humana”, tendo em conta sua escassez para prover toda a população mundial e as dificuldades para implementar “mudança do modo de vida de populações dominantes” ou, ainda, “como um subsistema - em construção - do sistema internacional (...) no qual os estados atuam, segundo seus interesses nacionais, procurando salvaguardar sua soberania (...)”.

As decisões desse subsistema são tomadas de tempos em tempos, como foi, por exemplo, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento - CNUMAD (ou RIO-92 ou Eco -92 como também é chamada no Brasil), realizada no Rio de Janeiro, para trabalhar a pauta que incluía assuntos como mudanças climáticas, proteção à diversidade biológica e às florestas e definição de um plano de ação para minimizar a degradação ambiental (Agenda XXI).

Da análise do trabalho do autor, constatamos que o primeiro tratado internacional entre Estados, deu-se com a Convenção para a Preservação de Animais, Pássaros e Peixes da África (1900). A partir de então, muitos outros foram realizados e, entre os principais,

nomeamos a Convenção para a Proteção de Pássaros Úteis à Agricultura (1902), I Congresso Internacional para a Proteção da Natureza (1923), Convenção para a Preservação da Flora e da Fauna em seu Estado Natural (1933) e, em plena Guerra Fria (1945-1989), o Tratado do Antártico (1959). Da Conferência de Estocolmo (1972) à Rio-92, os acordos internacionais foram formulados, com base na visão ambientalista e seus aspectos conservacionistas, bem como subsidiados pela ótica do conhecimento científico sobre os problemas ambientais.

Ainda no trabalho de Ribeiro (2001), verificamos que, na esfera da ONU, também são destacadas as seguintes reuniões, promovidas por um dos seus órgãos, a UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization): Conferência das Nações Unidas para a Conservação e Utilização dos Recursos (1949), Conferência da Biosfera (1968) e a Conferência de Ramsar (1971). A primeira foi realizada nos Estados Unidos e seu principal resultado foi o levantamento de um diagnóstico ambiental. A segunda teve lugar na França, destacando o enfoque cientificista em detrimento de temas sociais e políticos. A terceira foi sediada pelo Irã e, como resultado conclusivo, houve a predominância de interesses de cada parte; ora as partes mais frágeis obtinham vantagens, ora a vitória era obtida pelas potências hegemônicas.

As posturas, atitudes e decisões, tomadas nesses eventos, servem para reafirmar nosso ponto de vista de que essas instâncias parecem deliberar, sob a ótica da solução dos problemas, a partir do modelo de produção e de consumo vigente.

Constata-se outro aspecto relevante: o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA, originado na Conferência de Estocolmo e seu Programa Internacional de Educação Ambiental – PIEA, geraram conceitos como ‘produção limpa’, ‘eco-eficiência’ e ‘ecodesenvolvimento’, que vêm sendo assimilados e passaram a influenciar grande número de pessoas.

A adoção desses conceitos impulsionou os debates e propiciou a fixação de normas técnicas, em especial da Série ISO 14000, como também outros procedimentos existentes.

Aliás, mesmo agindo sob orientação do ambientalismo, as decisões no nível do PNUMA/PIEA, ocorrem de forma lenta. Foi preciso retomar os assuntos que motivaram os programas na Conferência de Belgrado (Carta de Belgrado), em 1975, na Iugoslávia, para, finalmente, na Conferência de Tbilisi, Geórgia (republica da antiga União Soviética), em 1977, cinco anos depois do evento que as criaram, reafirmar os objetivos e as estratégias a serem deliberadas.

Outro principio, conhecido como ‘quem polui paga’ ou ‘poluidor pagador’, por exemplo, também teve sua origem numa das rodadas da deliberação da ordem internacional, desta vez, em Estocolmo, na Suécia, 1972, ocasião em que se realizou a primeira CNUMAD.

Depois, este preceito passou a reger um conjunto de leis, padrões, proibições, regulamentações, taxas e licenças renováveis. Foram mecanismos e políticas que os setores produtivos e os governos adotaram, para ajudar o modelo de produção e consumo, aprimorar a eficiência econômica, isto é, uma produção com o uso de menos energia e matéria prima, como também menos impactos ao ambiente (Brandsma e Eppel, 1997).

Vale destacar que, os principais mecanismos e instrumentos deliberados pela ordem ambiental, já citada, na tentativa de resolver a problemática do ambiente são: o desenvolvimento sustentável, a educação ambiental, a Carta da Terra, o Protocolo de Kyoto, as normas série ISO, entre outros.

Diante desse quadro, supõe-se que as formas de produção, organização e uso do espaço geográfico, bem como o estabelecimento de relações sociais que atendam ao interesse de todos, só acontecerão, quando os atores que controlam o modelo de produção e consumo, em especial os gigantescos conglomerados empresariais e financeiros, sediados nos Estados Unidos, em países da União Européia e no Japão, assim o determinarem.

De outra maneira, também temos as organizações não governamentais que se preocupam com temas do ambiente. Nota-se que algumas são pequenas e representam grupos da população que trabalham em nível comunitário, outras são regionais, nacionais ou até mesmo internacionais. Segundo Feldmann (1992:67-69), a quase totalidade delas é mantida por contribuições dos seus associados e agem por meio de voluntários e são tidas como Organizações não Governamentais - ONG's e convivem com diferenças em termos de discurso, propósito, infra-estrutura, capacidade de mobilização social e de geração de produtos teóricos e técnicos, bem como poder de intervenção em esferas de tomadas de decisão, além do que

é uma ficção tratar as ONG's como força única de pressão, e mais ficcional ainda é assumir como pressuposto que haja unanimidade em torno dos objetivos de mudança ou que todas priorizem uma nova visão do uso dos recursos naturais ou tenham como horizonte um paradigma de sociedade (...) para além dos interesses das forças dominantes das gerações atuais, seja o maior referencial de organização das populações. (...) Deve-se admitir, sem preconceitos, o risco objetivo de virem as ONG's a se transformar em apêndices de governos ou organismos internacionais de negociação (...).

O aparato representado pela ordem ambiental internacional e em menor escala pelas ONG's, pelo menos em teoria, demonstram que no aspecto institucional existe

preocupação com o ambiente, mas, na prática, conforme observa Ribeiro (2001:35), “os países não estão tão dispostos a cooperar (...), mas sim aproveitar as novas oportunidades para obter vantagens”. Cumpre salientar que esta atitude também existe em Ribeirão Preto, contexto de nosso estudo, onde as soluções, mesmo pontuais, tais como, resolver tecnicamente um problema de contaminação do lençol d'água que abastece o município ou o comprometimento de moradias populares, decorrentes do despejo inadequado e criminoso de resíduo/lixo, depois de muitos anos ainda estão no papel.