Mesmo sendo difundido como um sistema operacional (S.O) seguro e de excelente performance técnica, o GNU/Linux, ao alongo dos seus primeiros anos de desenvolvimento, também era considerado um software que exigia, por parte dos usuários, um nível de conhecimento técnico mais sofisticado para o seu funcionamento (Aguiar, 2009). Por ter sido desenvolvido “por hackers” e “para hackers”, o GNU/Linux utilizava um sistema de interface gráfica (ícones, janelas, fontes, etc.) menos intuitivo e com padrões simbólicos menos acessíveis às pessoas sem formação técnica - ao contrário de algumas versões de desktop de código fechado como, por exemplo, as primeiras versões do sistema operacional Windows e o Mac OS X. Esses softwares, de natureza comercial, são desenvolvidos por grandes corporações de Tecnologia da Informação (T.I.) que sempre priorizam bons padrões de interface gráfica para usuários finais com o intuito de ampliar ao máximo a inserção entre o grande público.
Assim, para que o GNU/Linux se tornasse em um S.O. mais acessível aos usuários finais, era necessário o desenvolvimento de um sistema de desktop que garantisse a existência de um ambiente gráfico de interface digital, com ícones e janelas, entre outros aplicativos, que tivessem duas características fundamentais:
seguissem os princípios de liberdade tecnológica definidas e adotadas pelo projeto GNU; e, ao mesmo tempo, que possibilitassem que um usuário comum pudesse interagir e acessar suas funcionalidades de forma simples e intuitiva (Aguiar, 2009). Por volta de 1996, o primeiro projeto que surge para tentar suprir essa lacuna foi denominado de K – desktop Environment (mais conhecido pela sigla “KDE”). No entanto, o fundador desse projeto, Matthias Ettrich, optou por utilizar uma tecnologia até então de código fechado – o software Qt toolkit da empresa TrollTech - em seus pacotes oficiais.
Com isso, o projeto do desktop KDE causou muitas discordâncias nos bastidores das comunidades de software livre devido ao fato desse sistema não seguir, na sua integralidade, os princípios de abertura e liberdade da filosofia GNU. Na visão de Rocha (2007), é nesse contexto controverso em relação ao KDE (e na consequente ausência de alternativas totalmente livres para ambientes desktop), que o projeto GNOME surge como uma solução para o projeto GNU/Linux. Mais especificamente, em 1997, dois hackers mexicanos – Federico Mena e Miguel de Icaza – se articularam para desenvolver um projeto de desktop que não apenas fornecesse um sistema aberto de interface gráfica mais inteligível para o uso, mas que também seguisse de forma integral os princípios de liberdade tecnológica e colaboração associados ao sistema operacional GNU/Linux. Este projeto foi publicamente anunciado41 e denominado de GNU – Network Object Model Environment – mais conhecido e difundido pela sigla GNOME. Essa iniciativa de Federico Mena e Miguel de Icaza contou com o apoio e colaboração crescente de hackers de vários países.
Além disso, no ano seguinte após o lançamento da sua primeira versão, o projeto GNOME passa também a ter o apoio de desenvolvedores de softwares que eram pagos por empresas de tecnologia, a exemplo da Red Hat e a Eazel. De acordo com o que relata Icaza (2002), esse apoio dos desenvolvedores pagos por empresas e a participação de vários hackers espalhados pela rede possibilitou que o projeto GNOME lançasse a sua versão (1.0) em 1998.
Contudo, como acontece na maioria dos projetos de desenvolvimento de software livre, nessa época, a comunidade GNOME adotou o mexicano Miguel de
41O e-mail do anuncio de lançamento do projeto GNOME, enviado por Miguel de Icaza, pode ser conferido no link abaixo: http://lwn.net/2001/0816/a/gnome.php3
Icaza – um dos fundadores do projeto – como seu “ditador benevolente vitalício” (Benevolent Dictator for Life – BDFL)42. Segundo German (2005), este modelo centralizado na figura do criador acabou não funcionando bem no GNOME devido ao seu rápido crescimento como um projeto aberto que envolvia cada vez mais colaboradores. Situação essa que se tornou mais grave em 1999, quando Miguel de Icaza criou a empresa Helix Code para atuar na área de serviços utilizando as aplicações do GNOME, nessa época.
Assim, dada a ampliação contínua do Projeto e as restrições do seu fundador para participar ativamente, em agosto de 2000 a Fundação GNOME foi registrada no Estado da Califórnia nos EUA e anunciada publicamente no mesmo ano na Linux World Expo. Além de apoiar a comunidade e o projeto na manutenção dos seus objetivos, essa organização formal passa então a ser a interface institucional do projeto com as empresas e as demais organizações formais dispostas a interagir com o projeto. Para assumir essas funções, ela é gerida por um quadro de sete diretores (Board of Directors) que são eleitos, anualmente, pelos membros da comunidade que optaram por participar da Fundação.
Além da Diretoria, a Fundação conta ainda, dentro do seu ambiente de governança, com um quadro de organizações parceiras (Advisory Board), composto tanto por organizações sem fins lucrativos, como também por empresas que apoiam o projeto, mas não têm nenhum poder deliberativo dentro da fundação. Todas essas organizações assumem apenas o papel de conselheiras que, além de sugestões, apresentam suas expectativas em relação ao projeto. Além disso, as empresas que fazem parte do Advisory Board pagam uma taxa de manutenção anual da Fundação para se manterem como parte desse quadro. Atualmente, fazem parte desse quadro as empresas Collabora, Google, IBM, Igalia, Intel, Red Hat e SUSE. Além delas, compõe esse quadro as seguintes organizações sem fins lucrativos: o projeto Debian; a Linux Foundation; a Mozilla Foundation; a Private Internet Access; a Sugar Labs; The Document Foundation; e a Free Software Foundation, criadora do projeto GNU.
42“BDFL” é uma atribuição informal do meio hacker, que é, normalmente, concedido a um membro fundador de uma comunidade de software livre pelo seu mérito em ter criado aquele projeto específico – a exemplo de Linus Torvalds na comunidade do Linux e de Richard Stallman com o Projeto GNU. Na realidade, esse mérito garante ao hacker fundador de um projeto o poder de representatividade externa e de “voz final” ou “voto de minerva” dentro de discussões não consensuais numa comunidade on-line dessa natureza.
Com base nesse arranjo institucional, o Projeto GNOME pode ser compreendido então como uma organização autônoma, mas com alto grau de complexidade. Afinal, de um lado é possível perceber uma comunidade online de pessoas de diferentes formas de engajamento e competências que colaboram de forma espontânea e voluntária; e de outro, existe dentro desse ecossistema organizacional uma instituição formal, com um estatuto jurídico de fundação, com papéis bem definidos e documentados. Apesar da Fundação GNOME demonstra ser uma célula instucionalizada de apoio a comunidade de hackers, ambas as faces desse projeto, a formal e a comunitária, demonstram trabalhar de forma integrada e harmônica com o objetivo de garantir que a finalidade do projeto GNOME seja alcançada e ampliada cada vez mais.