Um primeiro olhar sobre a classe social da qual são oriundos os fundadores da Pastoral Afro-Brasileira – que pretende compreender as irmandades religiosas negras, as congadas, os APNs, o GRENI (Grupo de Religiosos e Religiosas Negros(as) e Indígenas) da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e o Instituto Mariama de Padres, Bispos e Diáconos Negros do Brasil (IMA) – nos leva à constatação de que alguns tiveram uma infância pobre e trabalhadora, como expuseram três dos nossos entrevistados, por exemplo, dizendo que tiveram que trabalhar cedo
[...] por necessidade, para ajudar em casa, porque antes de entrar no escritó- rio eu era engraxate na rua, então como engraxate eu tinha essa habilidade e meu ponto de engraxar era bom. Então sábado e domingo engraxava; esse dinheiro que levava para casa para ajudar aos meus pais. E depois trabalhava nesse escritório e ajudava na minha casa. (Pe. Jurandyr Azevedo Araújo)
O segundo entrevistado evidencia o privilégio de ter sido o único na sua família que começou a trabalhar com 16 anos:
[...] meus irmãos todos começaram com 10, 11, 12, 13 anos, ainda na roça. Aí, já em São Paulo, quando nós chegamos, um irmão foi trabalhar em açou- gue com 14 anos, outro foi trabalhar em granja, já com 15 anos; e na zona rural meus irmãos mais velhos começavam com 7, 8 anos, eu comecei com 16 anos pra ajudar minha família. (Pe. Gilberto)
E, mesmo Pe. Luiz Fernando – que em princípio não evidenciou a sua neces- sidade de trabalhar para contribuir na renda familiar, dizendo que o seu trabalho quando criança era apenas pra conhecimento do mundo do trabalho – reconhe- ceu tal necessidade ao detalhar o tipo de vendagem que fazia: “Eu tive um início desse trabalho de adolescente; é pra se vender... naquele tempo a gente chamava de suco; geladinho, hoje. Era um pouco isso.” (Pe. Luiz Fernando de Oliveira)
A nossa observação nos fez constatar que esse lugar social reclama uma busca pela ascensão social desde cedo, como revelou um deles ao dizer da sua
[...] vontade de cada vez mais ter algo mais, da questão da profissionaliza- ção; então, paralelo ao segundo grau eu ainda fazia SENAI. Quando eu saí pro trabalho já tinha uma profissão definida, já era eletricista. (Frei Terêncio)
Inclusive, revelando que encarava essa profissão de eletricista como uma fase de transição. Disse ele: “você estudando, você imaginaria algo mais. No meu caso, eu gostaria de chegar à universidade, e fui.” (Frei Terêncio) Este desejo foi compartilhado por Jurandir, que tinha a mesma percepção de que ascensão só se dá mediante o estudo, e foi exatamente isso que ele fez se lançando,
[...] no ginásio e durante o Ensino Médio, num escritório de contabilidade onde lá aprendi datilografia e fui ensinar datilografia; e também trabalhei em contabilidade nesse mesmo escritório. Depois, no meio do ano, surgiu a bolsa de estudos e eu fui para Niterói fazer o estudo científico – hoje o ensi- no médio. (Pe. Jurandyr Azevedo Araújo)
Este sonho também foi perseguido por Luiz Fernando, da mesma classe so- cial, chegando este a exprimir: “[...] então, eu confesso que só tive um patamar de uma profissão em ascensão.” (Pe. Luiz Fernando de Oliveira) No entanto, para um outro, tal profissionalização nem sequer existiu, ficando este aquém da competi- tividade do mercado de trabalho pela qualificação da sua mão de obra, pois “não cheguei a ser formado em nenhuma profissão. Trabalhava no comércio estoquista, numa grande loja de malharia.” (Pe. Gilberto)
Assim, à exceção de Alex, ex-líder da Pastoral Afro, que sempre estudou em colégios privados desde a sua infância, vê-se que a busca pela ascensão social motivou a conquista do saber, uma vez que todos os líderes deste movimento tinham consciência de que apenas alcançando um nível intelectual mais elevado poderiam sair do estado de pobreza em que nasceram. O que, aliás, já havia sido apontado por Foucault, quando vincula o saber ao poder e vice-versa. (MACHA- DO, 2004, p. XIX) Inclusive, nota-se nas atitudes e bandeiras levantadas por estes líderes um incentivo aos estudos, o que não se percebe tanto por parte de outros setores da mesma igreja. Por exemplo, a rede de solidariedade que se estabeleceu entre paróquias em prol do acesso de estudantes pobres às instituições de ensino superior, através da criação dos cursinhos pré-vestibulares em alguns bairros da periferia de Salvador e em todo o Brasil, indica uma tomada de consciência deste
setor da Igreja Católica não só quanto à situação de pobreza em si, mas, sobretudo ao que a provoca e, por conseguinte, o que poderá reduzir o seu nível de incidên- cia entre as pessoas.
Que a Pastoral Afro deseja e luta para aumentar o contingente de negros no nível superior de ensino, isso é inegável. Entretanto, a causa negra não pode estar reduzida à ação, tampouco o nível intelectual desse grupo é que irá garantir a institucionalidade dessa pastoral, uma vez que o público desta, ou seja, as pessoas às quais a Pastoral Afro se dirige são negras e pobres. Há que se garimpar o papel da razão nesses meios, isto é, há que se reconhecer as formas, a linguagem do povo no que tem de igualmente racional. Do contrário se estará querendo pensar a inteligência dos negros sob as mesmas categorias dos brancos. Aqui trazemos a experiência vivida na Igreja do Rosário dos Pretos em Salvador, onde se percebe um senso comunitário coeso nos seus membros refletido nas ações coletivas em torno das festas patronais pela inteligente administração dos parcos recursos fi- nanceiros.
Se a busca de superação do destino social a que foram relegados marca a trajetória dos membros fundadores da Pastoral Afro-Brasileira, este empreendi- mento é feito para diminuir as distâncias sociorraciais tanto no interno da insti- tuição Igreja Católica no Brasil quanto fora dos seus muros. Entretanto, não se procura apenas diminuir tais distâncias – incorrendo assim numa conotação pura- mente sociológica, segundo o discurso contraideológico da Igreja Católica – como, sobretudo, servir-se da Metodologia/Pedagogia do Oprimido, que muito inspirou a Teologia da Libertação nos anos 1970 e 1980, em cuja base se instaura um pro- cesso de luta onde os oprimidos procuram responder à sua
[...] vocação negada, mas também afirmada na própria nega- ção. Vocação negada na injustiça, na exploração, na opressão, na violência dos opressores. Mas afirmada no anseio de liber- dade, de justiça, de luta dos oprimidos, pela recuperação de sua humanidade roubada. (FREIRE, 1987, p. 16)
Tudo isso para estabelecer relação de fraternidade racial sob a alegação/ motivação de aplicar-se o princípio teológico da promoção da igualdade entre os irmãos.