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No início dos anos de 1990, o governo do estado da Bahia iniciou a formulação de projetos para solicitação de financiamentos, os quais, no seu conjunto, passaram a compor o intitu- lado Programa Bahia Azul. No discurso oficial, o Programa foi concebido para “[...] mudar o quadro de degradação ambiental” da Bahia de Todos os Santos, bem como dos centros urbanos do seu entorno. (BAHIA, 1995b) Foram previstas ações que envolveram um inves- timento de US$ 600 milhões. O Programa, previsto para ser concluído em cinco anos, foi iniciado em 1995 e concluído em agosto de 2004, com quatro anos de atraso. Pelos recursos envolvidos, a área contemplada e os componentes previstos, o Programa Bahia Azul se cons- tituiu no maior programa governamental em saneamento da Bahia, desde os anos de 1970 até agora.

Tabela 1 - Investimentos previstos pelo Programa Bahia Azul

Programa/Projeto Total em US$ (milhões) Saneamento ambiental da Baía de Todos os Santos – BTS 440

Modernização do setor de saneamento 140

Metropolitano 20

Total 600

Fonte: Bahia (1992, 2000a).

A ideia inicial de realizar uma intervenção de grande porte em Salvador no campo sanea- mento ambiental foi do grupo empresarial Construtora Norberto Odebrecht, que elaborou projeto, no início de 1990, e o enviou para análise do governo do estado. Após alguns ajustes, o projeto foi assumido pelo então governador Antônio Carlos Magalhães, em 1992. Depois de vários processos de negociação, em 1995, após aprovação pela Assembleia Legislativa do Estado da Bahia e do Senado Federal, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)

aprovou o financiamento do Programa de Saneamento Ambiental da Baía de Todos os Santos (BTS), no valor de US$ 264 milhões – 60% do valor total, orçado em US$ 440 milhões. (BID, 1995) Ainda em 1995, no governo Paulo Souto, o Programa passou a ser intitulado

Programa Bahia Azul, sendo a ele incorporada parte do então Projeto de Modernização do

Setor de Saneamento (PMSS) e do Projeto Metropolitano, ambos com financiamento do Banco Mundial (BIRD), elevando o valor total do Programa para 600 milhões de dólares, conforme apresentado na Tabela 1. (BAHIA, 1992, 1994; FÓRUM, 1997; SOUTO, 1995)

Objetivos do programa

Em 1995, o Governo do Estado divulgou para a sociedade o Programa Bahia Azul, como sendo

Um ambicioso programa de preservação ambiental que tem como principal meta melhorar a qualidade de vida de 2,5 milhões de pessoas4 que vivem na região, além de recuperar o equilíbrio ecológico da Baía de Todos os Santos, de extraordinário potencial econômico, especialmente do turismo[...]. (BAHIA, 1995b, p. 5)

No Anexo A, referente ao Contrato de Empréstimo n. 878-OC-BR entre o Governo do Estado da Bahia e o BID, são destacados três objetivos interrelacionados do Programa BTS: (1) despoluir a Baía de Todos os Santos e a área adjacente por meio de ações de saneamento e controle da poluição industrial; (2) melhorar a qualidade de vida da população que vive no entorno da Baía de Todos os Santos; e (3) reforçar as instituições governamentais locais que desempenham atividades que possam ter impacto positivo no meio ambiente da Baía. (BAHIA, 1996)

Em documento encontrado na home page do BID sobre o Programa BTS, eram desta- cados como objetivos:

a) melhorar a qualidade de vida de 2,7 milhões de habitantes, ampliando a coleta e destino adequado dos esgotos e resíduos sólidos, aumentando a cobertura dos sistemas de abas- tecimento de água e reduzindo a contaminação industrial; e

b) fortalecer as instituições governamentais locais cuja atividade pode impactar positiva- mente o meio ambiente da BTS. (BID, 2000)

4 Vale ressaltar que esse dado diverge em vários documentos. Alguns citam 3 milhões de habitantes (BAHIA, 1994), outros 2,7 milhões (BID, 2000) e outros 2,5 milhões. (BAHIA, 1995, 2000a) Segundo dados do IBGE, em 1991, a população total dos municípios envolvidos no Programa era de 2.312.602 habitantes. No entanto, todas estas populações referem-se à população total dos municípios e não à diretamente beneficiada pelo Programa. Esse dado é importante, para apurar o investimento per capita do empreendimento e a sua adequação aos bene- fícios gerados.

O BID relaciona como metas do Programa BTS:

a) aumentar a cobertura em esgotamento sanitário de Salvador de 26% para 82%;

b) proporcionar serviços de esgotamento sanitário para 70% dos domicílios de, pelo menos, oito municípios do entorno da BTS;

c) eliminar 95% das conexões domiciliares de esgotos aos sistemas de drenagem das águas pluviais;

d) eliminar os pontos de águas servidas nas praias da Região Metropolitana de Salvador; e) aumentar a cobertura do abastecimento de água dos municípios participantes de 57%,

em alguns casos, para até 80%;

f) reduzir o volume diário de descargas industriais na BTS em 91% para a Demanda Química de Oxigênio (DQO), em 82% para Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), em 90% para o volume de amônia e em 95% para o volume de resíduos de petróleo; g) aumentar de 44% para 66% o percentual de domicílios com contadores de água no

Estado;

h) proporcionar equipamentos e capacitação para a manutenção dos sistemas de abasteci- mento e esgotamento sanitário implantados;

i) dotar a Secretaria da Fazenda de equipamento e capacitação de pessoal para melhorar a sua gestão no recolhimento de impostos;

j) ampliar a coleta de resíduos sólidos em cinco municípios de 50% para 90% e assegurar a disposição final em aterros sanitários;

k) aplicar um programa de educação ambiental junto ao setor empresarial, à população escolar primária e de adultos e à população em geral, abordando aspectos da poluição industrial, a importância do esgotamento sanitário etc. (BID, 2000)

Em 2000, data prevista para o término das obras do Programa Bahia Azul, a então Secretaria de Infraestrutura do Estado da Bahia divulgou folheto explicativo sobre o Programa (BAHIA, 2000a), onde alguns elementos foram introduzidos em função da mudança cambial de 1999, que implicou em maior disponibilidade de recursos em reais (R$), a saber:

a) A cobertura da população de Salvador com esgotamento sanitário, antes prevista para “aproximadamente 80%” (BAHIA, 1995a), passa a ser prevista para “acima de 80%”5

(BAHIA, 2000a);

b) Aos componentes originais é acrescentado o de Restauração da Pavimentação de Logradouros sob a justificativa de que havia necessidade de recompor o pavimento além da vala reaterrada, de forma a “garantir a sua qualidade”. (BAHIA, 2000a)

c) Projeto Novos Alagados.

d) Pró-Subaé: recuperação ambiental da bacia do Subaé.

Do exposto, pode-se inferir que a concepção do Programa Bahia Azul foi inicialmente justificada com o mote principal da preservação ambiental, com vistas a recuperar a ativi- dade turística da região. Posteriormente, os argumentos da promoção da saúde pública e da melhoria da qualidade de vida passam a ser agregados. Contudo, é importante ressaltar que o primeiro documento analisado (BAHIA, 1992) destinava-se à apresentação do Programa

BTS ao BID e, sendo assim, continha um discurso que objetivava sensibilizar a instituição por meio de uma proposta de cunho ambiental, ação colocada como prioritária pelas IFI desde o início da década de 1990. Os outros dois documentos (BAHIA, 1995a, 2000a) refe- rem-se a informes publicitários do Programa, elaborados pelo Governo e, portanto, apre- sentavam um discurso que envolvia os benefícios previstos para a população, de forma a sensibilizá-la quanto à necessidade de implementá-lo. De qualquer forma, percebe-se que, ao longo do tempo, o discurso passa a ser bem mais elaborado, contemplando a vertente ambiental e da qualidade de vida.