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Os blogs

No documento Download/Open (páginas 75-77)

A tecnologia da rede permite aparentemente, uma navegação muito mais livre que a possibilitada pelos meios de comunicação com os quais convivemos durante todo o século XX. Oferece também a liberdade de publicação, antes restrita aos veículos da mídia. Nestas duas ações está a terceira característica que segundo Salaverria (2004, p.40) o jornalismo passa a integrar a partir da web: a interatividade. A possibilidade de escolher links e textos noticiosos que serão selecionados para leitura permite uma construção individualizada da notícia. As construções do discurso e da narrativa são feitos em tempo real pelo usuário que está diante da tela do computador e pode misturar diversos autores, separar trechos de alguns e compartilhar, escrever em fóruns de discussão. É neste contexto que entra a terceira característica destacada por Salaverria (2004, p.40) como definidoras do jornalismo na web: a interatividade.

Primo (2007) propõe dois tipos de interação:

Mútua, é caracterizada por relações interdependentes, processos de negociação, em que cada interagente participa da construção inventiva e cooperada do relacionamento, afetando-se mutuamente. E reativa, limitada por relações determinísticas de estimula e resposta. (PRIMO, 2007, p.57).

Pela perspectiva de Primo (2007), enquanto em uma interação (a mútua) é impossível prever o final, na outra (a reativa) há um limite que ao ser ultrapassado provoca um corte, uma ruptura que impede a continuidade dessa interação. Enquanto uma tem regras bem definidas (a reativa), na outra (a mútua) o desequilíbrio é a regra; as leis se alteram o tempo todo para que novos conceitos sejam estabelecidos em uma relação infinita. Em uma (reativa) o conflito representa o fim da ação, na outra (mútua) a ação ocorre a partir do conflito.

Muitos sites de notícias, principalmente os que estão relacionados a grandes grupos midiáticos que fizeram história no século XX, disponibilizam ao receptor diversos hiperlinks, mas não permitem que o usuário insira outros.

De fato, a criação de links na Web fica relegada, na maior parte das vezes, a quem tem acesso ao código e conhece HTML. Em outras palavras, normalmente a navegação em sites se dá através de links já predeterminados, sem que o internauta possa modificar a redação do texto (por exemplo,

incluindo, modificando ou apagando links): “Os surfistas, em geral, seguem trilhas de interesse, através de links reunidos de antemão por outras pessoas: designers, autores, editores e assim por diante. O surfista da Web depende da caridade alheia para seus elos de associação; o ‘desbravador de trilhas’ percorre os seus próprios”. (PRIMO, RECUERO & ARAÚJO, 2004, p.101). Esse formato, se considerada a perspectiva de Primo (2007), trata-se de uma interação reativa, pois as conexões continuam sendo definidas pelo autor do texto. Além disso, muitos portais ignoram que a principal característica da web é apontar para o conteúdo dos outros Gillmor, (2005, p.125) e, geralmente, oferecem links que direcionam o internauta para páginas inseridas em seus portais.

A interação mútua pode ser observada na construção de notícias no que foi chamado por jornalismo colaborativo, jornalismo cidadão ou jornalismo open source – em uma alusão ao movimento open source de software. O ato de publicar deixou de ser exclusividade de alguns profissionais ou veículos dos meios de comunicação. O formato no qual os meios de comunicação eram acostumados, “a serem alto falantes de suas próprias vozes” está morto. (SALAVERRIA, 2004, p.41)44. Os acontecimentos e fatos passaram a ser relatados por todos. Para Gillmor (2005, p.12), isso ficou evidente no 11 de setembro, quando uma rede colaborativa entre jornalistas e cidadãos trouxe detalhes à luz de leitores, ouvintes e telespectadores:

Desta vez, o primeiro esboço estava a ser escrito, em parte, por aqueles a quem as notícias se destinavam. Uma situação tornada possível – era inevitável – pelas novas ferramentas de comunicação disponíveis na Internet. Por entre o pavor daquelas horas e dias, surgiu uma nova forma de relatar os acontecimentos. Através do e-mal, das listas de correio electrónico, dos grupos de diálogo, dos jornais pessoais da Web – tudo fonte não habitual de notícias – conseguimos obter um conjunto de factos e circunstâncias que os grandes meios de comunicação americanos não queriam, ou não poderiam oferecer. (GILLMOR, 2005, p.12).

A tecnologia - a rede distribuída e os computadores - que passou a permitir que todos publicassem o que quisessem impulsionou a produção e o desenvolvimento de softwares como os blogs que oferecem uma ferramenta “amigável” que propicia ao cidadão comum a capacidade de publicação na web sem o conhecimento da linguagem HTML. Os blogs são sites desenhados a partir de uma estrutura cronológica de publicação. A mais nova postagem45

fica na parte superior da tela. Os artigos inseridos podem ser escritos por uma única pessoa, o

44 Tradução nossa do original: “los medios clásicos se han malacostumbrados a ser altavoces solo de su

própria voz”.

45 Postagem é o ato de inserir uma informação. Pode ser texto, vídeo ou áudio. O conteúdo “postado” é

autor do blog, ou por várias, dependendo do autor do espaço. Diferente dos portais que estão vinculados a mídia tradicional, segundo Gillmor (2005), a maioria dos blogs indica “hiperligação a outros locais da Web e a outros apontamentos e blogs. Muitos autorizam que os leitores comentem a afirmação original, permitindo, deste modo, a discussão entre os leitores”. (GILLMOR, 2005, p 45).

O blog pode ser considerado uma reação de leitores ao antigo formato assimétrico da mídia tradicional. Gillmor (2005, p.33) atribui a David Winer o desenvolvimento do primeiro programa que facilitaria amadores inserirem suas páginas na internet: o Manila. Segundo Gillmor (2005, p.33) um descontentamento com a imprensa e as escolhas do que deveria ou não ser publicado foi o que mobilizou Winer a criar o software e colocá-lo a disposição da comunidade com o intuito de “claudicar” o jornalismo tradicional. Outro blog que teria surgido pela insatisfação com a mídia tradicional, segundo Primo & Trässel (2006, p.52) é

H2otown, criado por uma dona de casa norte-americana que se mostrava descontente com o

jornal local. “Nos blogs e nos fóruns qualquer pessoa tem a possibilidade de difundir suas mensagens a públicos diversos”46. (SALAVERRIA, 2004, p. 42).

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