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3 A APLICAÇÃO DOS RECURSOS DA INTERNET PARA A PRÁTICA

4.5 CLP LIMITES E POSSIBILIDADES

4.5.4 Os caminhos da CLP

Com a aprovação da Lei 5.828/2001, fruto de sugestão de entidade da sociedade civil e conscientização da sociedade quanto à importância da comissão, o que será posteriormente abordada, o desafio passa a ser manter o canal de interação com a sociedade civil e tornar a comissão, processos e regras mais conhecidos, rápidos e amplos, de forma a estreitar relacionamentos com segmentos organizados da sociedade, fazendo chegar até eles informações sobre o funcionamento, estrutura e trabalho da CLP. Para tanto, a CLP conta com campanha de divulgação na TV Câmara, debates e seminários; convida entidades que façam uso da CLP para, em conjunto com os membros da comissão, avaliar os trabalhos dos seus

integrantes e identificar mecanismos que possam aumentar o entrosamento com essas entidades. Além de ampliar a captação de demandas e acelerar os trâmites das sugestões aprovadas.

A observação das pretensões e trabalhos da CLP permite avaliar os limites e possibilidades na sua atuação como intermediadora da relação entre sociedade civil e o Legislativo. Em relação às alternativas constitucionais dos mecanismos de captação das demandas da sociedade civil, descritas na Lei 9.709/98, é possível destacar como ponto positivo a simplicidade do processo para a apresentação de propostas, pois dispensa a coleta de assinaturas e a procura por um parlamentar interessado em apresentar o projeto.

A CLP é uma porta de entrada para propostas de entidades da sociedade civil. Tais entidades encaminham sugestões de projetos relacionados com sua área de atuação e que há anos vêm sendo discutidos e amadurecidos. Cabe à CLP adequar as sugestões apreciadas ou aprovadas e iniciar a tramitação deles. O processo de tramitação, no entanto, não é diferente dos processos legislativos. As sugestões aprovadas são transformadas em projetos e seguem para a Mesa da Câmara, de onde são distribuídos para as comissões de mérito, que deverão emitir seus pareceres.

O caráter das entidades, que podem iniciar o trâmite, é o registrado em cartório ou em órgão do Ministério do Trabalho, tais como: Organizações Não-Governamentais (ONGs); Associações e Órgãos de Classe; Sindicatos; Entidades da Sociedade Civil, exceto Partidos Políticos; Órgãos e Entidades de Administração Direta e Indireta, desde que tenham participação paritária da sociedade civil, podem participar das discussões e processos da CLP.

O processo tem início com a classificação, numeração e averiguação das sugestões pela CLP. As sugestões passam por uma adequação formal com vistas a assegurar as condições de redação técnica para a tramitação. Em seguida, a Presidência da Comissão indica um (a) relator (a) para elaborar parecer sobre a sugestão apresentada. Caso aprovada, a sugestão passará a tramitar como proposição legislativa da Comissão de Legislação Participativa e será distribuída à Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) para análise dos aspectos de constitucionalidade, juridicidade e técnica legislativa.

O Projeto de Lei de autoria da Comissão de Legislação Participativa depende de análise do Plenário da Câmara dos Deputados Federal, mesmo que já tenha sido aprovado pelas Comissões Temáticas constantes do despacho da Secretaria Geral da Mesa. Dessa forma, quando aprovado nas Comissões, é encaminhado à Mesa para ser incluído na Ordem do Dia do Plenário da Câmara dos Deputados Federal para discussão e votação. Se aprovada,

a proposição é remetida e segue os trâmites legais de qualquer proposição: no Senado Federal e na Presidência da Republica.

A Figura I apresenta o processo de tramitação de forma simplificada, demonstrando as etapas e como o processo percorre desde a sugestão e a passagem pelas duas casas legislativas e, caso seja aprovada, a etapa final na Presidência da República.

Figura 01: Processo de tramitação simplificada. Fonte: Cartilha da CLP, 2007.

Os princípios que acabaram se tornando a própria essência da CLP e que estão presentes no discurso entusiasmado inaugural dos trabalhos da Comissão, tanto do seu primeiro presidente quanto da primeira diretora, remontam à discussão teórica sobre sociedade civil e participação política. Por isso, é comum relacionar o marco inicial de tais ideais, aos anos de 1980, de ressurgimento da sociedade civil, quanto ao início da redemocratização no Brasil, que culmina com a Constituição de 1988, e é fundamental para garantir constitucionalmente os mecanismos e normas que regem o papel e direitos da sociedade civil perante o sistema político. Outro elemento de manifestação popular foi a

unificação dos vários segmentos sociais a articularem o movimento pela democratização com a campanha “Diretas Já”.

Apesar de esta reivindicação ter sido frustrada, setores organizados da sociedade mantiveram-se mobilizados e a Assembléia Constituinte, que veio logo a seguir, transformou-se em uma experiência de participação da sociedade no Legislativo jamais vista no Brasil. Durante os trabalhos da Constituinte houve a possibilidade de apresentação de emendas populares. Dentre as que foram aprovadas e incluídas no texto constitucional estava a que previa a participação dos cidadãos através de iniciativa popular, plebiscito e referendo. Apesar do grande avanço representado pela inclusão destes mecanismos na Constituição, eles não têm sido utilizados e não foram incorporados ao cotidiano político do país (BRAGA, 2005, p. 61).

Mesmo que a CLP cause entusiasmo em participantes e deputados, faz-se necessário um olhar mais isento dos ideais que constituem a Constituição de 88, os quais serviram de base para a criação dos mecanismos de participação da sociedade civil no sistema político brasileiro e, também, a CLP porque os canais disponíveis e a própria Comissão enfrentam a descrença e desgaste da imagem dos indivíduos que compõem o sistema político brasileiro. Desta forma transmite uma idéia negativa de que tais iniciativas não terão o apoio popular necessário para mudar o sistema político, além de os mecanismos enfraquecerem os princípios representativos.

A visão principal da crítica negativa dos instrumentos de democracia semidireta, em que a CLP está incluída, é resultado não apenas da imagem construída pelos indivíduos que atuam no sistema político brasileiro. Ultrapassam as imagens individuais e atinge toda a estrutura formal ou material de tal sistema e aponta para a falta de presença social consistente, em todos seus processos, agindo como mecanismo blindado, indutor e controlador, impetrando meios de freios e contrapesos, de visibilidade dos seus processos, na via do exercício da cidadania descrito na constituição como soberania popular.

A expectativa é que mecanismos, como a CLP, desempenhem papel fundamental no processo de construção da democracia participativa no Estado Brasileiro. Principalmente, quando é uma instância do parlamento, que em sistemas democráticos liberais são comumente vistos como arena onde se encontram os diversos interesses presentes na sociedade. Nela estão os conflitos entre esses interesses que deputados federais e senadores atuam no ordenamento institucional.

Nesse cenário de correlação de forças, os grupos organizados da sociedade disputam legitimamente, através da escolha de seus representantes, os destinos da sociedade, sejam por meio da formulação de políticas públicas ou da escolha dos valores que devem prevalecer na vida em sociedade. Assim, quanto mais democrático, mais o Parlamento funciona como estuário dos reclamos e das reivindicações da sociedade.

O Estado brasileiro será democrático na medida em que tenhamos uma população mais consciente do seu dever e do seu direito de exercício pleno da cidadania e da participação popular (BRAGA, 2005, p. 70-71).

No exercício legislativo de 2005, foi realizada a primeira sessão da CLP da Câmara dos Deputados com a participação de cerca de quarenta entidades representativas dos diversos segmentos da sociedade. O fato foi comemorado como um “início auspicioso para o Parlamento e para a sociedade brasileira”.

Em pouco mais de sete anos de existência, uma sugestão de Projeto de Lei recebida pela Comissão é aprovada e foi transformada em Lei. É o caso do Projeto de Lei 5.828/01, originado da Sugestão - SUG 01/01, da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), foi sancionado pelo Presidente Lula, em 19 de dezembro de 2006, e convertido na Lei 11.419/06. A Lei é considerada de impacto expressivo na sociedade brasileira, pois trata da informatização do processo judicial. O Projeto de Lei n° 5.828/2001, fruto da sugestão 01/200128, que “dispõe sobre a informatização do processo judicial e dá outras providências” percorreu todos os trâmites do processo legislativo no Congresso Nacional e foi sancionada.

Este Projeto de Lei, como foi colocado, dentro da Câmara, foi aprovado, sem emenda, o que de certa forma acelerou. Contudo, no ano posterior de 2002, o Projeto de Lei da Câmara (PLC), que corre apensado ao PLC nº 6.896/2002, sofreu substanciais modificações com o substitutivo ao PL nº 71/2002 do Senador Osmar Dias.

A Lei foi muito comemorada pelos juristas do Brasil. Outra expectativa que surgiu com base nesta lei é o comprometimento expresso do executivo federal para a adoção de programas de computador com código aberto - opensoucers e, portanto, auditáveis. Além do custo, geralmente mais barato que o software denominado proprietário, o que proporciona o desenvolvimento da infraestrutura pública brasileira para a criação de softwares. Outro elemento que pode ter favorecido a Lei sancionada foi o sorteio do relator na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal, em 28 de fevereiro 2003, o Senador Magno Malta, que, em discurso afirmou: “o momento é propício para que a sociedade cobre do legislativo a necessária agilidade, que resultará em economia de muitos milhões de reais para os cofres públicos”.

Embora se tenha expectativa sobre a lei e os eventos anteriormente citados, reforcem isso, algumas críticas podem ser lançadas sobre o tempo de tramitação, visto que um dos objetivos da CLP, bem como o da CDH, era reduzir a burocracia e a proposta demorou cinco anos para ser transformada em Lei. Este tempo que parece bastante extenso, segundo o

Anuário Estatístico de Atividade de 2006 da Câmara dos Deputados Federal, é relativamente curto se comparado a propostas que chegam a 14 anos em tramitações. Parte destes extensos processos deve-se ao fato do acúmulo de mais 11.176 projetos de lei e 577 projetos de lei complementar em tramitação. Uma situação que ultrapassa a competência da CLP.

Embora todo tempo despendido para que uma sugestão torne-se uma Lei por intermédio da CLP, seja justificado pelos caminhos de etapas de tramitações, números de processos acumulados, reuniões, debates e pareceres técnicos necessários, este, ainda, é ponto considerado como negativo e acaba conotando que a comissão não conseguiu efetivamente dar agilidade à tramitação dos projetos que apresenta como prevê no seu objetivo.

Se, por um lado, a CLP não alterar o longo processo legislativo, a Comissão mostra um caminho possível para que as demandas sociais sejam efetivadas, visto as dificuldades das alternativas previstas na Constituição Brasileira. Além do mais, o balanço das atividades já realizadas mostra que, de 2001 até maio de 2008, das 615 sugestões legislativas apresentadas, 140 foram aprovadas e transformadas em proposições, assumindo as formas de Projeto de Lei (98); Projeto de Lei Complementar (08); Emenda ao Orçamento (30); Indicação (9); Requerimento (15); Requerimento de Informação (1); Emenda ao Plano Plurianual (2) e Emenda a Projeto de Lei (4).

Devido ao curto período de atividade e ao fato de apenas um projeto aprovado no Congresso, em sete anos, é prematura uma definição ou certeza sobre o futuro impacto da CLP no Legislativo. Nos próximos anos, a expectativa é que haja um crescimento expressivo das atividades da Comissão, e principalmente se conseguir estabelecer-se como um canal de participação para a sociedade civil, conquistando a aprovação de projetos relevantes. Para tanto, é decisiva a presença das organizações da sociedade civil, reconhecendo a CLP como alternativa para defesa de seus projetos, assim como a presença de parlamentares na Comissão comprometidos com este projeto de participação.