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3 A APLICAÇÃO DOS RECURSOS DA INTERNET PARA A PRÁTICA

4.2 OS EXEMPLOS QUE INSPIRAM A CLP

4.3.2 Plebiscito

O mecanismo do plebiscito consiste numa “consulta prévia à opinião popular”, perante a qual, dependendo de seus resultados, “adotar-se-ão providências legislativas ficando reservadas dificuldades para sua diferenciação de referendos” (BONAVIDES 2003, p. 154).

Tal mecanismo é oriundo da antiga Roma, onde a plebe votava sobre determinado assunto por convocação do tribuno. Diferentemente do Brasil, em que o referendo e plebiscito encontram-se em fases processuais distintas e inversas de consulta, a qual valida ou não decisões implementadas pelo Congresso e este criando espaço para a aferição do sentimento popular.

O texto constitucional referente ao plebiscito deixa claro que deve ocorrer antes da medida ser adotada, o que fica consolidado pelo artigo 2° da Lei n° 9.709, de 1998, que

disciplinou os incisos da democracia semidireta, na forma do artigo 14 da Constituição Federal.

O plebiscito é convocado com anterioridade ao ato legislativo ou administrativo, cabendo ao povo, pelo voto, aprovar ou denegar o que lhe tenha sido submetido (§ 1°); O referendo é convocado com posterioridade a ato legislativo ou administrativo, cumprindo ao povo a respectiva ratificação ou rejeição (§ 2°).

O histórico da aplicação do mecanismo no Brasil é inaugurado pela Constituição Brasileira de 1937, que previu pela primeira vez o instituto. Este também poderia ser utilizado para a incorporação, subdivisão ou anexação de Estados entre si a critério do Presidente da República.

Vale ressaltar que o modo como o referendo estava regulado fortalecia demasiadamente os poderes do presidente da República, fator decorrente da centralização política almejada por Getúlio Vargas em seu governo. Assim, poderia ser utilizado pelo chefe do Poder Executivo, e somente por ele, caso um projeto de emenda constitucional de sua autoria fosse rejeitado pelo Congresso Nacional, ou se este aprovasse projeto de emenda constitucional apesar da discordância do Executivo. Em ambos os casos, o presidente da República estaria autorizado a solicitar um plebiscito nacional, a se realizar noventa dias após sua resolução, o qual transformaria em norma constitucional o que fora levado à consulta popular caso aprovado pelo povo. Essa mesma Constituição previa em seu art.187 um plebiscito de autolegitimação, que nunca se efetivou (AUAD, 2003, p. 16).

O primeiro plebiscito em âmbito federal foi realizado no Brasil em janeiro de 1963, para a manifestação popular acerca do sistema de governo22, já que o sistema parlamentarista havia sido instituído com o intuito de impedir o governo do então Presidente João Goulart, que possuía tendências socialistas, fato que assustava não só os militares como também os detentores do poder na época. Por meio de uma manobra política, João Goulart conseguiu conclamar o plebiscito com o objetivo de trazer de volta o sistema presidencialista ao Brasil, a fim de governar com mais liberdade. As urnas foram favoráveis à proposta e o presidencialismo foi vitorioso com 80% dos votos. Todavia, após apresentar suas “Reformas de Base”, o que despertou o medo do comunismo, o Presidente João Goulart foi deposto, em 1964, pelo chamado “Golpe Militar”.

Na Constituição de 1988, existe referência ao mecanismo do plebiscito em cinco artigos: o art. 14, I, prevê a soberania popular por meio de plebiscito; o art. 18 possibilita a incorporação, subdivisão e desmembramento de Estados entre si; o art. 18, § 4°, dispõe sobre

22 A escolha do sistema presidencialista ou parlamentarista, com base no art 3º da Constituição de 1967: “A criação de novos Estados e Territórios dependerá de lei complementar”.

a criação, incorporação, fusão e desmembramento de Municípios; o art. 49, XV, estabelece a competência exclusiva do Congresso Nacional para convocação de plebiscitos; e o art. 2° do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, o que possibilitou a realização de plebiscito para a escolha da forma e do sistema de governo em 07 de setembro de 1993. Somente com a Lei 9.709/98, de 18 de novembro de 1998, fica previsto que o plebiscito será convocado com anterioridade ao ato legislativo ou administrativo e que caberá ao povo aprovar ou denegar, pelo voto, o que lhe foi submetido.

O art. 3° da Lei 9.709/98 estabelece que, para questões de relevante interesse nacional, a convocação do plebiscito será feita pelo Congresso Nacional, mediante decreto legislativo, com proposta de, no mínimo, 1/3 dos integrantes de qualquer uma das Casas. Este fato retira do povo a possibilidade de decidir qual assunto considera relevante para ser discutido e consultado no âmbito nacional, visto que restringe ao Congresso Nacional a prerrogativa de deliberar o que deverá passar ou não pelo crivo popular.

O plebiscito no Brasil é estruturado de duas maneiras: a ampla e a orgânica. A ampla é relativa à questão de relevância nacional, de competência dos Poderes Legislativo ou Executivo23. A orgânica versa sobre a incorporação, subdivisão e desmembramento de Estados ou fusão, incorporação, criação e desmembramento de Municípios. Em relação aos Estados, é necessária, segundo o art. 4º da Lei 9.709/98, a aprovação da população diretamente interessada por meio de plebiscito, o qual deverá ser realizado em data e horário coincidentes em cada Estado, bem como a aprovação do Congresso Nacional, por meio de lei complementar, depois de ouvidas as respectivas Assembléias Legislativas. Já em relação aos Municípios, a Lei 9.709/98 prevê, em seu art. 5º, a convocação do plebiscito pela Assembléia Legislativa do Estado, em conformidade com a legislação federal e estadual.

O trâmite administrativo do presente mecanismo é de responsabilidade da Justiça Eleitoral, no que diz respeito à data, cédula de votação e instruções para realização, entre outros. Se o assunto a ser consultado constar de projeto de lei em tramitação ou de medida administrativa não efetuada ambos terão sua tramitação sustada até a apuração do resultado da consulta. O Tribunal Superior Eleitoral pode aprovar ou rejeitar o plebiscito por meio de maioria simples, de acordo com o resultado homologado.