3. DESIGN DE PRODUTOS ESSENCIAIS EM CONTEXTOS DE CRISE
3.1. OS CONTEXTOS DE CRISE
3.1.1. OS DESASTRES NATURAIS
Quando um grande terramoto abalou o Nepal, aldeias inteiras foram destruídas, matando mais de 9 mil pessoas e destruindo mais de 500 mil casas. Ficam sem teto e sem esperança e muitas são deslocadas dos seus países por conflitos e perseguições. Em 2014 eram quase 60 milhões, se-gundo dados da agência do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR Lisboa, 2016). Como refere Tim Mckeough no seu artigo How Designers Are Addressing War and Natural Disasters para o site da Architectural Digest, “este foi o maior ataque desde a Segunda Guerra Mundial” (Mckeough, 2015), por essa razão muitos arquitetos e designers colaboram no desenvolvimento de produtos com esse propósito.
Um desastre natural é uma catástrofe que ocorre quando um evento físico perigoso (tal como uma erupção vulcânica, um terramoto, um desabamento, um furacão, ou algum dos outros fenómenos naturais) faz estragos extensivos à propriedade, faz um grande número vítimas, ou ambos. Em áreas onde não há nenhum interesse humano, os fenómenos naturais não resultam em desastres naturais.
Orientar o risco de catástrofe natural, por exemplo, afigura-se, num primeiro relance, um objetivo paradoxal: catástrofe é sinónimo de fatalidade, de destino inexorável. Como refere Carla Amado
Gomes no seu livro Direito(s) das Catástrofes Naturais, “o termo catástrofe sugere, à partida, uma terrível inevitabilidade, sempre fugidia à [domesticação] que a gestão do risco sugere” (Gomes, 2012, p. 1). Os fatores que enfraquecem a construção de uma operacionalidade mais célere são a diversidade na concorrência de causas, a extensão de efeitos e a magnitude das perdas. Esta ges-tão do risco de catástrofe natural começou por ser uma dimensão com caráter de emergência hu-manitária que rapidamente evoluiu para um contexto socioeconómico. Carla Gomes, afirma ainda que os métodos de prevenção se inspiraram nos princípios do Direito Internacional do Ambiente, servindo de apoio aos princípios de gestão do risco, tanto natural como industrial. O princípio da cooperação, presente nas Estratégias de Yokohama e de Hyogo, é fundamental neste domínio (Gomes, 2012, p. 2).
Após a análise do relatório das Nações Unidas, Yokohama Review Strategy and Plan of Action for a Safer World18(United Nations, 2005), considerou-se importante para o desenvolvimento deste pro-jeto, uma observação mais atenta sobre a atuação em contextos de crise, nomeadamente nas ca-tástrofes naturais. Embora, este documento tenha sido realizado entre 1994 e 2005, aborda ques-tões úteis que ainda hoje se observam.
“O Yokohama Review foi um processo analítico que abrange o período de 1994 ao presente. O docu-mento resultante reflete o estado atual de conscientização e realizações, limitações e restrições e apre-senta observações consolidadas sobre redução global de risco de desastres.”
(United Nations, 2005, p. 2)
A Mensagem de Yokohama e os Princípios da Estratégia de Yokohama sugerem a essência da estratégia e o seu Plano de Ação para um Mundo Mais Seguro. Tinha já sido verificado ao longo do capítulo 2 que o progresso relativo às questões sociais e o desenvolvimento económico estará con-denado se não se iniciarem planos para minimizar o risco de desastres. As catástrofes serão mais recorrentes e porão em causa o desenvolvimento dos países a todos os níveis. Após a adoção desta estratégia de Yokohama, “houve cerca de 7.100 desastres resultantes de riscos naturais em todo o mundo. Mataram mais de 300 mil pessoas e causaram mais de 800 bilhões em perdas” (United Nations, 2005, p. 5). Desde 1991, mais de 200 milhões de pessoas foram afetadas anualmente por desastres naturais. Dois terços dos desastres registados foram inundações e tempestades, inclu-indo casos de precipitação forte, inundações extraordinárias e tempestades sem precedentes distri-buídas em cada um dos cinco continentes.
Como se verifica na figura 15, retirada do site da United Nations Office for Disaster Risk Reduction19,
organização pertencente às Nações Unidas, no período de 1995 a 2015 confirma-se um aumento considerável de desastres naturais. Embora no decorrer deste trabalho, não exista uma pesquisa muito minuciosa quanto às causas de tais desastres, não sendo esse o principal propósito, é de
18 TL (tradução livre do autor): Estratégia de revisão de Yokohama e plano de ação para um mundo mais seguro.
salientar que após a leitura atenta do documento sobre a ação prevista na estratégia de Yokohama (United Nations, 2005), confirma-se que muitos deles acontecem principalmente em países mais desenvolvidos. Contudo, nos menos desenvolvidos ocorre numa percentagem algo elevada devido à carência de recursos tecnológicos e humanos. Por um lado, a prevenção é urgente, mas por outro lado, o risco destes desastres acontecerem com mais frequência deve-se também à poluição que assola todo o planeta.
Continua a ser crucial dar o devido relevo a diversos setores da economia e do desenvolvimento da ação previstos na Estratégia de Yokohama, com o objetivo de desenvolver uma cultura de preven-ção para reduzir “a vulnerabilidade física, social, económica e ambiental e os impactos de riscos através do aperfeiçoamento das capacidades nacionais e particularmente locais” (United Nations, 2005, p. 6). A redução do risco está a aumentar, muito por causa das estruturas políticas e dos mecanismos de implementação, mas também pelos diversos meios de comunicação e de divulga-ção que funcionam como um alerta. Mais atendivulga-ção está a ser dada à vulnerabilidade, dentro da comunidade internacional de desenvolvimento e existe de facto, uma antecipação de possíveis con-sequências de risco.
Figura 15 - Os desastres naturais são cada vez mais frequentes, 1995-2015. Fonte: in UNISDR – United Na-tions Office for Disaster Risk Reduction (United NaNa-tions , 2000).
A nível internacional, são muitas as organizações que se propuseram a colaborar, muitas delas analisadas e abordadas neste projeto, a saber: Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO); Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD); Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente PNUMA; Organização das Nações Unidas para a Educação; a Ciência e a Cultura (UNESCO); Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF); Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA); Programa Mundial de Alimentos (PAM); Organização Mundial de Saúde (OMS); Organização Meteorológica Mundial (OMM); Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Também a nível nacional,
muitas organizações caminham neste sentido, nomeadamente, a Autoridade Nacional da Proteção Civil (ProCiv), a Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), a agência ACNUR Lisboa, entre outras. Como se verifica no mesmo documento analisado, quando se questionam os desafios que deverão ocorrer, “as limitações de recursos são frequentemente citadas como impedimentos para iniciar ou realizar programas de redução de riscos de desastres com visão avançada” (United Nations, 2005, p. 8). Confirma-se assim que poucos recursos são alocados através de orçamentos de desenvolvi-mento para reduzir os riscos. Por consequência, as estratégias utilizadas com fundos nacionais ou internacionais para essa gestão carecem de se apoiar numa questão prioritária de princípio. Contudo, continua a ser necessária uma maior consciencialização sobre as dimensões sociais e económicas da vulnerabilidade, uma vez que, os novos riscos emergentes são uma constante. Se, por um lado, muitos países afirmam essa necessidade, apresentando insatisfação perante as capa-cidades das políticas de desenvolvimento, por outro lado, sabe-se que os recursos humanos, técni-cos e materiais são escassos. As ações de prevenção do risco beneficiam o meio ambiente e a comunidade envolvida com um caráter motivacional positivo. A recolha de dados e a sua análise por parte de diversas organizações são um passo imprescindível para melhorar a prevenção e re-duzir o risco de catástrofes. A preocupação ambiental é, neste projeto, como se verifica, um fator de importância extrema. Os esforços despendidos por todos os intervenientes têm sido proveitosos, já que, abordam todos os tipos de “identificação e gestão de riscos relacionados às ações de pré-planificação e de pós-incidente” (United Nations, 2005, p. 10). Crê-se que algumas emergências naturais do momento, ambientais ou tecnológicas, são induzidas pelo homem, embora se verifique que muitas destas acontecem em países mais pobres e menores em termos de desenvolvimento, que carecem de recursos humanos, técnicos e materiais.
O fator mais importante é a prevenção. A divulgação a nível nacional para a redução do risco de desastres naturais e serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais desempenham papéis funda-mentais para estimular esse processo. “O alerta precoce deve ser incorporado como um elemento essencial das políticas e planos de desenvolvimento nacionais” (United Nations, 2005, p. 11). Mas há outras questões pertinentes que em muito reduzem o risco de catástrofe. A educação, por exem-plo é um deles. Ao longo dos últimos 20 anos, avançaram-se e desenvolveram-se pesquisas relaci-onadas com os riscos, comprovando a importância da educação para criar uma cultura de redução de desastres, mudando atitudes e comportamentos a longo prazo, contudo, ainda “existe um fosso entre o crescente reconhecimento da importância do ensino sobre os riscos de desastres e, na verdade, fazê-lo” (United Nations, 2005, p. 11).
Assim como a educação, a sensibilização pública também é imprescindível para a redução de ris-cos. A experiência dos últimos 20 anos, demonstra que a consciencialização pública é essencial para motivar as populações mais vulneráveis a ser mais ativa na redução de risco, estimulando as comunidades a assumirem mais responsabilidades para sua própria proteção. Comprovam-se as-sim, as boas práticas de desenvolvimento social e económico que alguns países insistem em man-ter. No entanto, existem outros que ainda carecem de mecanismos sociais e económicos específicos que protejam os segmentos mais vulneráveis ou desfavorecidos da população. “Com poucos pro-gramas institucionalizados de segurança social, pessoas pobres e marginalizadas, os países em
desenvolvimento tiveram pouco recurso em tempos de crise, além de depender do apoio das rela-ções familiares ou da assistência mútua baseada na comunidade” (United Nations, 2005, p. 15). A tecnologia avançada transmite um valor inquestionável para a redução de catástrofes. À medida que as ferramentas melhoraram, os custos diminuíram e o acesso local aumentou, o seu uso au-mentou em grande escala. Já é possível uma deteção remota devido aos sistemas de informação geográfica, às observações através do espaço e às tecnologias de informação e de comunicação. Nestes anos de muita pesquisa, verificou-se uma melhoria nas previsões do clima severo. Assim, os países e as organizações tecnicamente sofisticados, devem incentivar a aplicação ampla desses recursos nos países mais desenvolvidos e nas comunidades mais afetadas por esses desastres. De um modo geral, a informação abordada na redução do risco de desastres é um recurso muito valioso. Junto com a educação em geral e a capacitação em todos os níveis, a gestão do conheci-mento e o desenvolviconheci-mento do capital social devem ser vistos como investiconheci-mentos prioritários em sustentabilidade, contudo a estratégia de Yokohama carece de uma revisão mais atual.
Em 2010, Portugal cumpre as recomendações das Nações Unidas e constitui formalmente a Plata-forma Nacional para a Redução do Risco de Catástrofes (PNRRC, 2010). O seu principal objetivo é o de implementar o plano de atividades daquela plataforma e de propor a realização de ações nos domínios do Quadro de Ação de Hyogo, onde foram definidas as linhas orientadores para a década 2005-2015. Esta plataforma é, como referido no site, “uma mais-valia enquanto ponto de conver-gência de entidades e parceiros cuja experiência e conhecimento técnico sejam de utilidade na capacidade para efetivamente lidar com a prevenção e mitigação de riscos de catástrofes e de eventos climáticos extremos” (PNRRC, 2010).