CAPÍTULO 3 IMPERADORES DO SAMBA
3.3. Organização interna
3.3.2. Os destaques
No carnaval de Porto Alegre, alguns personagens do desfile são denominados
destaques. Eles se diferenciam dos demais componentes por apresentar uma performance
coreográfica particular no contexto do ritual que envolve dança e fantasia. São eles: 1ª e 2ª Porta-Estandarte, 1° e 2°casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, o casal de passistas, além do grupo de Pandeiristas e Cabrochas. Nos ensaios, vestem camisetas que trazem escrito Destaque nas costas informando seu papel social que também pode ser lembrado de outras formas, como por exemplo, quando uma cabrocha exibe orgulhosa sua carteira da Escola onde está escrito em letras vermelhas: Destaque.
Os destaques da dança são figuras centrais no desfile. Como são pontuados na competição, são alvo de intenso controle por parte da direção da Escola, recebem gratuitamente suas fantasias101, conhecem com antecedência seu figurino e podem discutí-lo com o figurinista visando alguma modificação funcional. São contratados pela Escola, embora isto não signifique necessariamente um retorno econômico para o destaque, mas apenas prestígio social por pertencer ao grupo. O valor deste pagamento não é comentado mas geralmente pode ser convertido em produtos eletrodomésticos102 ou, no caso de ser feito em dinheiro, dividido em parcelas. A “nova” passista, que desfilou pela primeira vez com a Imperadores no carnaval de 1994, disse nada ter recebido de pagamento, morando perto da quadra sequer teve auxílio transporte, apenas recebeu gratuitamente sua fantasia. Em sua maioria são Imperadores, mas a ligação afetiva com a escola não é regra. O mestre-sala Alexandre e a porta-bandeira Isabel se dizem Imperadores, também o passista masculino (Gudi), a primeira porta-estandarte Tiquita e os meninos pandeiristas. Os restantes não definem claramente sua fidelidade a uma Escola em especial, mas já tiveram passagem por outras Escolas de Samba.
Houve uma certa mobilidade, durante o trabalho de pesquisa, entre os destaques da Imperadores do Samba. Para o carnaval de 1994 uma nova passista foi escolhida por concurso e, para tal, o divulgador anunciava no microfone: “precisamos de
uma passista do seio do povo, que esteja frequentando a quadra, meninas que são boas de pé". Quem a selecionou foi o passista masculino: "eu quero uma guria bonita, porque ensinar a dançar eu ensino". Se não por concurso, os destaques são “convidados” a
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Exceção para as cabrochas que pagam sua própria fantasia.
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Televisores e, principalmente, vídeos-cassetes são produtos de alto valor de troca por serviços prestados. É importante atentar para o valor aferido pelo grupo aos aparelhos de vídeo, afinal, quem desfila só poderá ver o desfile, e se ver, através das fitas de vídeo-cassete.
trabalhar na Escola. Neste caso, o fato da Escola tê-los convidado é insistentemente assinalado pelo destaque o recebe pois é uma forma de afirmarem que seu “trabalho é
reconhecido”. Outra mudança ocorreu com a primeira Porta-Bandeira que, após alguns
anos de afastamento devido a desentendimentos com a diretoria, retornou à Escola sob a aprovação de todos.
O destaque é reconhecido pela comunidade como uma figura de extrema importância, a ele devendo respeito e aplauso. Sempre que um destaque de outra Escola de Samba visita a quadra da Imperadores do Samba é convidado a dançar na roda de ensaios. Por outro lado, a falta de “reconhecimento” ao trabalho do destaque é motivo, muitas vezes, de troca de Escola de Samba.
Entre os destaques há o que se poderia chamar de “segundo escalão”, ou seja, são jovens destaques que estão aprendendo seu ofício ou mesmo veteranos que já perderam seu melhor condicionamento físico ou não apresentam mais “inovações” na performance. A troca de destaques entre as Escolas dá margem à insatisfação deste “segundo escalão”, pois são aproveitados apenas temporariamente até que a Escola contrate um novo destaque prestigiado pela comunidade. Um Mestre-Sala contratado provisoriamente desabafava: "o brabo é cada dia numa escola e no fim em nenhuma.
Outros personagens do desfile, entretanto, também recebem a denominação de destaques. São os componentes que desfilam sobre carros alegóricos e que também podem ser chamados "destaque de carro". Se destacam por portar fantasias luxuosas ou por possuírem “corpo bonito”, portanto, seu lugar no desfile será em cima dos carros alegóricos. Para Cavalcanti:
"O destaque de escola de samba é o lugar assumido da vaidade e do desejo de exibição, da busca ou afirmação
de prestígio social temperados pelo amor ao carnaval"(1993,203).
Os que se destacam pela fantasia luxuosa geralmente não são escolhidos mas, ao contrário, se oferecem para desfilar como “destaque”, pois possuem condições econômicas para arcar com o alto custo da fantasia. Alguns desfilam porque são homenageados pela Escola, entretanto estas homenagens acabamse restringindo ao poder econômico do homenageado que deverá pagar sua própria fantasia. No carnaval de 1996, por exemplo, um carro alegórico trazia três destaques principais, três “esposas” de figuras importantes da Escola: a do presidente, do Mestre de Bateria, e de um antigo carnavalesco que participa da Imperadores. A Escola acaba escolhendo os que se destacam pelo corpo jovem e bonito e que, geralmente, desfilam com pequenas fantasias. Em ambos os casos os custos com o desfile correrão por conta dos próprios componentes. Além dos destaques de carro e dos destaques, propriamente ditos, algumas pessoas são consideradas merecedoras de destaque embora não sejam assim frequentemente denominadas. A Associação oferece troféus-destaque a puxador, mestre de bateria, compositor, figurinista, carnavalesco, entre outros103. Via de regra estas pessoas se reconhecem, e são reconhecidas pelo grupo, enquanto profissionais do carnaval, no sentido em que estão “acima das ligações afetivas com essa ou aquela escola e requer um conhecimento específico”(Cavalcanti, 1984:15).
Quando Mestre Neri Caveira fala sobre sua vinda para assumir a bateria da Imperadores, observou que foi a Escola que o procurou ,"o Betinho veio falar comigo
...me chamou prá vir pro Imperadores". A busca de “reconhecimento” caminha lado a
lado com a questão financeira, no caso do Mestre Neri, mesmo sua Escola anterior querendo "botar um dinheiro na minha mão" não o convenceu a ficar, pois apesar de não terem sido campeões, "ninguém falou que a bateria foi nota 10".
A Escola ainda preserva que seus destaques sejam Imperadores, acreditando que o vínculo afetivo somado ao profissional é o ideal. Há uma identificação dos carnavalescos da cidade, de determinados profissionais ou destaques com algumas Escolas de Samba, é o caso do puxador Medina com a Imperadores do Samba, do puxador Jajá e Bambas da Orgia, da porta-bandeira Isabel com a Imperadores do Samba, etc. A postura desses "profissionais" sempre é de cordialidade com as diversas Escolas de Samba, não entram na guerra competitiva pois a circulação desses artistas entre as
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Escolas pode levá-los futuramente a elas. Quanto ao contrato dos profissionais o Mestre afirma "eu não tenho contrato no papel, é só palavra ...basta, comigo sempre foi assim,
esta semana mesmo Betinho reajustou ...não precisa papel". A troca de Escolas de
Samba ao longo da trajetória profissional dos compositores, carnavalesco, puxador ou destaques pode ser observada entre as agremiações desta cidade, entretanto, a rotatividade que se estabelece não é intensa.