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Os diferentes planos e processos da política: as contribuições da antropologia

Como discutido até aqui, o processo da reforma psiquiátrica brasileira é complexo, composto de planos, atravessamentos e configu-

rações. Para realizar uma análise crítica que contemplasse seus diferentes planos, foi preciso percorrer alguns tempos e espaços que compõem o contexto da política pública de saúde mental.

Tais planos foram contemplados em diferentes tempos e espaços. O trabalho de campo foi desenvolvido durante nove meses na cidade de Joinville-SC, escolhida como o “local” de onde seria possível analisar o processo “nacional” de reforma psiquiátrica brasileira. Entretanto, também foi realizada uma pequena incursão etnográfica na cidade de Barbacena-MG e visitas aos serviços de saúde mental das cidades de Torino, Trieste e Gorizia, na Itália.

Em um dos planos, que talvez possa ser denominado institucional, participei das Conferências de Saúde Mental realizadas no ano de 2010 em algumas cidades de Santa Catarina bem como do Grupo de Desinstitucionalização do Colegiado de Políticas Públicas e Atenção Psicossocial da Secretaria de Saúde do Estado de Santa Catarina, de 2008 a 2010, que se constituíram como espaços institucionais mais amplos. Além disso, frequentei serviços de saúde mental, um grupo de autoajuda mútua e um núcleo da luta antimanicomial, que também podem ser considerados espaços institucionais, porém num plano diferente.

Outro plano está constituído pelas experiências singulares que acompanhei com as interlocutoras e interlocutores em suas rotinas ordinárias e extraordinárias, em seus percursos pelas cidades, em visitas que fiz a suas casas, nas caminhadas que fizemos juntos, enfim, nas atividades que compartilhamos ao longo do trabalho de campo da pesquisa. Tais planos estão interligados, conectam-se de distintas maneiras e se mostram relevantes pelos deslocamentos e perspectivas que permitem vislumbrar a complexidade das reformas colocadas em curso no país.

Esses planos estão em relação e ganham sentido nas práticas que são conjugadas de diferentes maneiras pelos sujeitos. Como sugeriu Marcus (1995), os locais, ou os sítios, para usar a expressão do autor, fazem parte de uma complexa rede tramada pela confluência de práticas, de processos, conexões e justaposições que conformam as dinâmicas locais e rompem com a dicotomia entre o local e o global, uma vez que estes estão imbricados.

Nesse sentido, a pesquisa poderia ser descrita como um estudo multissituado, levando em consideração os argumentos de Marcus (1995) de que as pesquisas que visam analisar mudanças culturais ultrapassam fronteiras e lugares e colocam o etnógrafo em movimento. Ele, o etnógrafo, deve perceber e percorrer linhas, trajetos e estabelecer conexões entre os diferentes “sítios”, espaços aos quais tem acesso. Para o autor:

Pesquisas multissituadas são desenvolvidas em torno de cadeias, padrões, fios condutores, conjunções ou justaposições de locais nos quais o etnógrafo estabelece alguma forma de presença literal, física, com uma lógica explícita e postulada de associação ou conexão entre lugares que, de fato, define o argumento da

etnografia.4 (MARCUS, 1995, p. 105).

No entanto, como argumentou Sônia Maluf (2011) sobre as pes- quisas de campo que envolvem sujeitos, elas não são apenas multissituadas pois “combinam planos e platôs diferenciados”, que a autora chama de “platôs etnográficos”. Além dos lugares (sítios) percorridos pelo pesquisador, importam também os atravessamentos, os fluxos, os agenciamentos que podem ser colocados em conexão. Para Maluf,

Se as experiências contemporâneas não são capturadas na circunscrição da aldeia, ou de várias aldeias, são os fluxos, os vários planos de realidade aos quais os sujeitos estão expostos, os diferentes agenciamentos (centrais e periféricos) que se cruzam e confrontam, que implicam nessa outra perspectiva metodológica de reconhecer essas diferenças e rastreá-las, de imaginar que esses diferentes planos podem eventualmente ter alguma autorresolução (como os platôs de Deleuze) ou se dispor como partes que contêm em si mesmas essa multiplicidade do todo. (MALUF, 2011, p. 10).

O desafio dessa estratégia metodológica foi conseguir inicialmente perceber tais planos e, logo, construir uma análise e uma narrativa que permitissem conectar as perspectivas, situações, experiências e as diferentes configurações que as constituem. A fim de enfrentar o desafio e construir uma análise que possibilitasse uma articulação dos dados, também tomei como referência o conceito de platô, como entendido por Deleuze e Guattari (2007).

Os autores chamam de platô “toda multiplicidade conectável com outras hastes subterrâneas superficiais de maneira a formar e estender um rizoma” (DELEUZE; GUATTARI, 2007, p. 33). A ideia de trabalhar com tal conceito foi agenciar, colocar em conexão os enunciados (que conformam os discursos) emergentes em determinados tempos e

4 “Multi sited research is designed around chains, paths, threads, conjunctions or

justapostions of locations in wich the etnographer establishes some forms of literal, physical presence, with an explicit, posited logic of association or connection among sites that in fact defines the argument of the etnography” (MARCUS, 1995, p. 105).

espaços (regimes de enunciados/formações discursivas) nos quais pude estar, na tentativa de perceber as coisas pelo meio, rizomaticamente.

Cabe destacar a importância do trabalho etnográfico nesse processo, uma vez que foi a partir de seus pressupostos que consegui me aproximar das experiências dos sujeitos, estabelecer um diálogo horizontal entre os discursos “nativo” e “científico” e dar a ele uma qualidade perspectiva, no sentido de perceber que existiam outros pontos de vista que não olhavam necessariamente para o mesmo processo, mas também construíam outros processos.

Considerando o impacto social e político da pesquisa, bem como a contribuição para as políticas públicas, entre outros aspectos, destaco também a relevância dos sujeitos da pesquisa para a análise crítica realizada e para as discussões aqui apresentadas.

Tensionamentos da política de saúde mental