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CAPÍTULO II “O COTIDIANO ESCRAVO: ESPAÇO DE NEGOCIAÇÃO E

2.2 OS ESCRAVOS: ASSASSINOS, REBELDES E FUGITIVOS

A ação contra o escravismo foi grande por parte dos escravos. Por vezes não se conseguem evidências documentais que a comprovem mas, a importância das interpretações de suas vivências nestes mesmos documentos é fator fundamental na elaboração de quadros da vida escrava e das negociações, lutas, artimanhas e relações sociais a que se submetiam para conviverem no sistema ou, quem sabe, ultrapassarem as fronteiras da escravidão.

Os caminhos da liberdade foram marcados pela camuflagem das insurreições, principalmente durante a década de 1880, conforme PAPALI (2003), “... onde situações conflituosas eram geralmente escamoteadas através das brechas de uma política senhorial paternalista, observada nas relações cotidianas entre senhores e escravos.”38.

Os castigos aos escravos acusados de crimes poderiam passar ao âmbito particular de seus senhores, principalmente se estes castigos ameaçassem a integridade física de suas propriedades.

Os levantes de escravos poderiam representar uma fragilidade ao sistema, combatido severamente mesmo antes da década decisiva ao abolicionismo no Brasil, a de 1870.

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Em 4 de maio de 185239, na cidade de Taubaté, relatou nos autos o Promotor Público da Comarca Antônio José da Veiga Cabral: vindo ao seu conhecimento que pelas quatro horas da madrugada, do dia 5 de abril do mesmo ano, um escravo, do senhor Bento Vieira de Moura, de nome Joaquim Antônio Moçambique, de trinta anos de idade, bexigoso, sem barba, de tipo alto e espigado, com a perna direita mais curta ao ponto de não poder assentar o calcanhar, assassinou “barbaramente” ao seu feitor Flávio José dos Santos.

O ocorrido se deu na fazenda do referido Bento Vieira de Moura, denominada Paratigal, no distrito da Freguesia de São João de Caçapava. O corpo foi levado à vila de Santo Antônio de Paraibuna, onde foi realizado o exame de corpo de delito no morto por dois cidadãos não médicos nomeados para o serviço e na presença do escrivão; o médico não estava presente na cidade.

O auto do exame de corpo de delito determinou que a morte se deu por assassinato de vários ferimentos à faca que foram descritos com termos comuns e não médicos.

A partir da constatação do assassinato, expediu-se a intimação para a prisão do escravo Joaquim Antônio. Aconteceu que o senhor Bento Vieira disse ao delegado que o escravo fugiu assim que matou o feitor, aparecendo alguns dias mais tarde, também morto. Estava enforcado nas redondezas da fazenda.

O processo criminal não foi concluído; o réu, o escravo Joaquim Antônio fugiu e apareceu enforcado. Alguns anos depois, em 1872, a Justiça procurou dar continuidade ao grave processo sem solução, mas, com o senhor do réu também já falecido, o processo criminal foi encerrado.

Conforme o trabalho de Maria Helena Machado (1994), que comprovou altos índices de criminalidade na cidade de Taubaté do século XIX, é possível verificar os relacionamentos mantidos entre senhores, feitores e escravos na região. A autora observou que tais relações se fizeram necessárias para a

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manutenção do escravismo no final do século XIX, junto ao estratagema paternalista no funcionamento do sistema.

O escravo Joaquim Antônio deixou marcado pelo suposto assassinato de seu feitor que as relações entre eles eram tensas e “... que o conflito de interesses nunca esteve ausente nem das mais convictas possibilidades de negociação”40.

No Auto Sumário Crime, de 1º de outubro de 183641, mandou fazer o Juíz de Paz Suplente o Tenente João Moreira de Souza Almeida o exame de corpo de delito sobre o ferimento feito no cadáver do morto Domingos, escravo de Dona Catharina de Senne e Moura, da villa de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba. Mandou, também, inquerir as testemunhas no número de cinco (três presenciaram o crime e duas escutaram dizer) e, como numa orquestra afinada, disseram a mesma história à Justiça.

O ocorrido se deu conforme o relato no processo criminal da seguinte forma: em quinze de setembro aconteceu um levante de escravos na Fazenda da Dona Catharina de Moura42, entraram três ou quatro escravos da mesma senhora, sobre a madrugada, todos armados pela casa adentro, com o objetivo de matarem seu irmão e administrador Fernando de Moura.

Aconteceu um levante realmente?

Quais seríam os motivos de se identificar um levante?

A própria senhora disse nos autos que seu irmão e feitor, o réu Fernando de Moura, acabada a reza na madrugada, mandou que os escravos pegassem o escravo Domingos para o surrarem, quando este irrompeu sobre o feitor com um porrete.

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MACHADO (1994), apud PAPALI, 2003, p.67.

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Estabeleceu-se uma confusão, as ordens do feitor não foram cumpridas, os outros escravos ficaram na retaguarda enquanto o Domingos investia contra sua figura. Não apareceu a informação sobre o motivo para a ordem de prender e castigar o escravo Domingos, mas aparentemente suas atitudes desagradaram o feitor.

Os rebeldes deixaram quase morto, por uma pancada na cabeça, João Francisco de Sousa oficial de carapina43, que ali se achava, passando a ameaçar o dito administrador dentro de casa.

Não encontrando meios para escapar, Fernando de Moura disse-lhes em altas vozes que se retirassem, caso contrário, morreriam. Respondeu-lhe Domingos que ali se encontrava um homem e gritou pelos companheiros para que viessem ajudar com as foices. Percebeu que o escravo Domingos, vestindo um poncho onde escondia um porrete, lhe tiraria a vida.

Depois de tomar umas duas bordoadas, o réu Fernando de Moura, que se viu encurralado numa sala e não encontrando outra arma senão sua espingarda, em defesa da própria vida fez tiro ao mesmo escravo Domingos, que caiu morto. Os demais fugiram, todos, sem serem reconhecidos.

Por que foram relatadas apenas versões idênticas e beneficiadoras ao réu, homem branco e representante da “boa” sociedade? Poderia o réu apresentar ameaças físicas aos escravos da fazenda?

Em 25 de outubro de 1836, visto a decisão do Juri, o Juíz Manoel Alves Alvim absolveu o réu Fernando de Moura Rangel do crime, com baixa na culpa, e ordenou sua soltura, para que se fosse em paz da prisão.

Afinal, todas as testemunhas foram a seu favor, agiu em legítima defesa com arma de fogo contra o escravo Domingos, perigoso e armado de porrete.

Em Campos da Violência, Sílvia Hunold Lara (1988), debate a idéia da violência no regime escravista sobre dois pontos de vista, sendo um pela caracterização de uma escravidão branda e outro, por uma escravidão cruel44.

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LARA (1988), expõe o ponto comum de grande parte da bibliografia referente à questão da escravidão: é o aparecimento da violência, que foi negada pelo paternalismo ou suavizada pela crença da democracia racial, mas sempre apareceu como necessária (típica do sistema capitalista, que se apropriou do excedente do trabalho e mesmo do trabalhador como sua propriedade) ou como repressão das lutas e resistências dos escravos45.

Embora o estudo da referida autora se ambiente no período colonial brasileiro, serve como caminho para o entendimento da questão da violência na presente pesquisa. A autora inicia sua obra com a apresentação da conversa de dois homens: um letrado, advogado de Lisboa com tendências abolicionistas e humanistas, e outro um mineiro brasileiro e escravocrata; apresenta o viés de dois pontos polêmicos na escravidão, sobre a idéia de caracterização de uma escravidão branda ou de uma escravidão cruel. A sua forma branda passa pela idéia de escravos submissos e de senhores amigos sem a ocorrência de manifestações de rebeldia (demonstrada pela comparação de leis e de instituições), já a escravidão na sua forma cruel é proposta pela máxima exploração do escravo por um senhor severo que não permitiria os vícios e a indolência (demonstrada pela grande oferta de mão-de-obra escrava e de retorno a curto prazo do investimento).

A discussão a respeito da conversa entre o mineiro (escravista) e o advogado de Lisboa (de intenções humanísticas) mostra que a violência foi um ingrediente da ambiguidade do escravismo no Brasil, embora desumana, garantia obediência e mantinha certa tranquilidade aos senhores, a partir de castigos. Quando partia dos escravos, a violência tinha caráter de transgressão do poder senhorial.

A escravidão poderia ser vista desta forma, por alguns, à época; mas não se pode restringir os estudos à questão da humanidade (por parâmetros sociais e ideológicos do escravismo) e da violência (por parâmetros econômicos e

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LARA, Sílvia Hunold. Campos da Violência: escravos e senhores na Capitania do Rio de

Janeiro, 1750-1808. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 45 Idem, p.19.

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coloniais do escravismo) e entre a ideologia daqueles dois agentes da história (o português e o mineiro brasileiro).

De acordo com LARA (1988), estes dois níveis de entendimento para a questão não são suficientes para entendê-la:

(...) variam no tempo, dependem de agentes históricos em movimento, que se fazem e se refazem cotidianamente em sua vida material, em suas relações determinadas e nas experiências e consciências destas relações46.

A violência contra os escravos se deu até mesmo em crimes de roubo dos próprios escravos, situação em que poderia aparecer rapto ou sequestro, e chegou como processo criminal de roubo ou furto de escravo, como de qualquer outro bem, como era corriqueiro à época.

Em 7 de novembro de 184547, João da Costa Oliveira disse ao delegado que era morador de Taubaté e que, no dia 14 de setembro de 1845, desapareceu-lhe um escravo crioulo de nome Ignácio preto, o qual o suplicante procurou e, após muita busca e pesquisa, descobriu que fora roubado por Manoel Marques Vianna, homem ambulante e sem domicílio.

Depois de conservar o escravo por três dias em um rancho no mato, o tal Manoel Marques Vianna o conduziu à sua residência e o manteve sob prisão, quase sempre oculto debaixo de uma cama. Naqueles dias tentou vendê-lo para um cigano de nome Luiz, que se achava em marcha a um lugar de nome Contagem, sem sucesso. O senhor de Ignácio, escravo roubado, pediu providências com a prisão de Manoel Marques Vianna.

46 Idem, ibid, p.22.

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Determinados roubos de escravos estiveram relacionados a compradores que os levariam para outras regiões. Este foi o caso do preto Vicente que, interrogado em 2 de maio de 184648, sendo perguntado pelo Sub-Delegado se era forro ou cativo respondeu, sem delongas, que era cativo do senhor Capitão Domiciano da vila de São Luis do Paraitinga.

Vicente disse, ainda, que andava fugido há umas quatro semanas mais ou menos, na maior parte como cativo na casa de Manoel Moreira. Contou que vinha fugido com muita fome e que o preto Jeremias o cunduzira até a casa de seu senhor a título de o alimentar. O senhor Manoel Moreira o colocou em um quarto para não ser visto até que fosse vendido para um boiadeiro no seu retorno à cidade.

Preso na mesma data, o preto Jeremias de Nação Monjolo, disse ser solteiro e não saber sua idade, nem ler ou escrever, era escravo da senhora Clara Maria de Jesus. Por seu curador, foi nomeado o Alferes Francisco de Paula Oliveira que acompanhou o interrogatório:

(...) qual era o motivo de sua prisam = Respondeu que foi por causa de um rapas de nome Vicente = aonde encontrara com este preto que diz chamar Vicente = Respondeu que encontrara na estrada e perguntando que andava fazendo resondeu o dito Vicente que estava com fome e que o levava a casa de seu senhor moço Manoel Moreira e que deixando o preto em casa de seu senhor moço recolheuce para a casa de sua senhora e dahi a oito dias mas ou menos encontraram-se para ocasião em que foi preso e nada mais (...)49

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Foi preso, também, Manoel José Moreira que, em seu interrogatório, disse ter encontrado o preto Vicente com a informação de ser forro, quando lhe deu comida e lhe mandou embora.

Já a testemunha Joaquim Pereira do Nascimento (homem branco) relatou que foi dar busca de um escravo fugido de João Bonifácio da Moura na casa de Manoel Moreira.

Encontrou por lá sua mulher e um Francisco Rosa que lhe disseram que o Manoel Moreira não estava e que tinha um escravo fugido escondido. A testemunha encontrou com Manoel Moreira em sua roça no lado de Quiririm (em Caieiras) e perguntou sobre o preto fugido e disse que sua esposa era uma tola.

Foi preso à cadeia, voltaram à sua casa e a mulher acordou que, se o marido fosse solto, lhes mostraria o lugar onde ocultou o preto fugido. Quanto ao escravo Jeremias, disse saber que ele levara Vicente para casa de seu senhor moço e depois levaria mantimentos ou comida.

Outra testemunha, João Jacinto de Aguiar, assitiu a uma negociação entre Manoel Moreira e um boaiadeiro para a venda de um escravo por $700 mil réis: acertaram por $300 mil réis para fecharem na volta da viagem do boiadeiro.

O encerramento do processo se deu com as Conclusas de prisão dos réus. Em 3 de julho de 1846, a senhora de Jeremias, Clara Maria Rodrigues, pediu ao Juíz que soltasse seu escravo por estar privada de seus serviços por sete meses...50

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