CAPÍTULO I “O ESCRAVO, SOB A VONTADE DO SENHOR”
1.2 O PODER DA LEI: O IDEÁRIO JURISTA DO IMPÉRIO DO BRASIL
A partir de 1820, em Portugal, o Antigo Regime cedeu lugar ao Liberalismo com o movimento constitucionalista em terras lusitanas. Iniciou-se, conforme Neves (2000), o movimento pela promoção do “... poder do espírito público em oposição ao individualismo monárquico.”26.
No Brasil, em 1823, ao dissolver os trabalhos da Constituinte, D. Pedro I mandou apreciar seu projeto nas Câmaras Municipais, e, consequentemente, aprová-lo. Confirmavam-se as Câmaras Municipais como instância política e de representação do Império, com o retorno à forma de representação do Antigo Regime Absolutista português.
O novo Império do Brasil que se imaginava liberal dava voz a órgãos de legitimação do poder antigo de Portugal. Durante o primeiro quartel do século XIX ocorreram a interação e o confronto entre o velho e o novo na questão da construção do Direito Nacional27.
O projeto de Nação que aparecia era baseado na construção do Estado Nacional com um pretenso ideário liberal, mas com a herança portuguesa que se prendia às relações sociais implícitas nos códigos costumeiros daquela sociedade.
26
NEVES, Lúcia Maria Bastos. Por Detrás dos Panos: atitudes Antiescravistas e a
Independência do Brasil. In SILVA, Maria Beatriz Nizza (org.). Brasil: Colonização e Escravidão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. Pp.373 e 374.
27
LOPES, José Reinaldo de Lima. Iluminismo e Jusnaturalismo no ideário dos juristas da
primeira metade do século XIX. In: JANCSÓ, István (org.). Brasil Formação do Estado e da Nação. São Paulo: Ed. Hucitec, 2003, p.195.
26
A formação do moderno Estado Nacional tinha em seu projeto uma representação de como a sociedade seria organizada. No Brasil pós- independência, o Estado Nacional foi refeito com a reconstrução do Direito28.
Em sua época, Joaquim Nabuco comentou que o primeiro projeto de Constituição, anterior a 1824, previa um artigo (de José Bonifácio) em que se estabelecia uma emancipação lenta, educação religiosa e industrial dos negros.
Entretanto, a própria constituição do Império (1824) não contemplava a questão da escravidão, a não ser pelo seu artigo 94 revogado, em que aparecia o liberto como cidadão, mas sem direitos políticos. Assinalava, sim, com o nefasto artigo 179, que dispunha sobre os direitos individuais do proprietário29.
Os debates políticos refletiam a intenção de que a questão da abolição não alienasse os senhores, mas representasse o escravo até o ponto de “ficar livre” para encobrir a vergonha do País, que era, internacionalmente, a escravidão africana.
Houve a criação de um ordenamento legislado do Direito Nacional e do Português, existindo a incompatibilidade, na primeira Constituição – 1824, entre o direito natural (com o jusnaturalismo e a liberdade de comércio) e o Estado liberal.
No confronto entre o novo direito e o antigo direito, surgiu o conflito jurídico que é típico das Revoluções Burguesas do século XIX: o direito novo expressava a “igualdade perante a Lei” e o direito pré-liberal, direito antigo, expressava “as diferenças e as desigualdades”. O poder centralizado foi trocado pelo representativo (de soberania nacional) e a tradição foi negada na Lei: trocou-se o costume pela Lei30.
Seguindo o pensamento jurídico do século XIX e as formas de movimentos da cultura (a separação de poderes, o sistema que representa a soberania popular, a centralização e o monopólio das fontes do direito, a
28
Elisa Reis, apud LOPES In: JANCSÓ (2003) (org.). Idem, p.297.
29
NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. Petrópolis: Vozes, 1988, p.56.
30
27
polícia, a codificação do direito), foram três os movimentos que animavam os juristas construtores do Estado Nacional: o constitucionalismo, a ilustração e o direito natural moderno.
Os juristas construtores do pensamento jurídico refizeram o direito para um direito nacional e até liberal. O direito moderno opõe-se ao direito comum, tardo-medieval e tem um conjunto de normas (lei) e um comando ou ordem do soberano (de caráter geral); é o sistema integrado e hierarquizado dentro de princípios universais que está acima dos costumes, até mesmo revogando- os31.
A partir da economia tipo mercantil e escravista, com a grande empresa agroexportadora produzindo em larga escala, foi criada, em torno do latifúndio escravista, uma organização autônoma com grande isolamento econômico em relação a uma sociedade mais ampla. As relações sociais internas das grandes fazendas cafeicultoras eram determinadas e dominadas pelo senhor, que tinha poderes quase absolutos sobre os seus familiares, agregados e escravos32.
No interior (longe das grandes cidades) e nas grandes propriedades agroexportadoras, o direito costumeiro prevaleceu entre senhores que se apoiavam na honra pessoal e de “... modo geral, as relações sociais regravam- se pelo sistema moral da troca de favores.”33.
Nos primeiros anos de nação, existiu o “direito herdado do regime pré liberal, colonial ou de Reino Unido”. No constitucionalismo brasileiro não houve processo revolucionário popular, mas o Direito público apareceu como continuação do Antigo Regime Absolutista português com funções e competências “... de administrar a vida do poder.”34.
Ideário constitucional no século XIX foi assim fundado: a Carta de 1824 com o regime de direitos individuais à propriedade (art.179); o governo monárquico hereditário não parlamentar; um corpo legislativo com assembléia geral (escolhido de forma indireta); um senado vitalício (escolha do Imperador);
31
Idem, p.199.
32
KOERNER, Andrei. Judiciário e Cidadania Na Construção Da República Brasileira. São Paulo: Hucitec, 1998, pp.48 e 49.
33
Idem, p.49.
34
28
poder judicial (que não foi amplamente democrático ou liberal!); existia, ainda, a liberdade de comércio, de profissões e de expressão.
A utilização pelo senhor, quando assim fosse necessário, do direito positivo (leis escritas, elaboradas pelo Governo) e do direito costumeiro (leis não-escritas, mas costumeiramente acionadas pela sociedade), proporcionava condições de convivência ao cativo com o engendramento de intrincadas redes de alianças, tecidas pelos escravos com outros escravos e, também, com homens livres e senhores da sociedade do século XIX.
Tais alianças entre cativos, libertos e livres estariam em diferentes níveis (da senzala, da casa grande, de vizinhos e da rua) trazendo proximidade e possibilidade para as relações sociais que colocaram os cativos em contato com a prática da liberdade.
Pode-se dizer que, muito provavelmente, esta convivência social foi uma das experiências essenciais do cativo no trânsito da escravidão à liberdade35.
Nesta perspectiva, o interessante é que entre a lei escrita (positiva, adotada pela Justiça Imperial) e a costumeira (não-escrita, adotada pela sociedade de modo cotidiano), a segunda foi mais praticada, principalmente longe das grandes cidades36, porque “... No interior, a lei era exercida pelos poderosos, (...), indóceis às leis, habituados a fazerem justiça por suas próprias mãos...”37.
Em uma análise dos Testamentos de 1842, conforme Tabela 2, verifica-se que, do total de dezesseis escravos arrolados no ano em questão, apenas um deles foi contemplado com a sua Carta de Liberdade Condicional38.
35
CASTRO, Hebe Maria Mattos de. Das Cores do Silêncio. Os Significados da Liberdade no
Sudeste Escravista – Brasil Século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995. P.196. 36
CUNHA, Manuela Carneiro da. Antropologia do Brasil. São Paulo: Brasiliense 2ª edição, 1987. P.131.
37
TOLLENARE, 1956: 194, Apud CUNHA (1987), op. cit., p.131.
38
FONTE: Livro de Registros de Testamentos – Nº 04 – (1842-1844), Cartório do 2º Ofício. Divisão de Museus, Patrimônio e Arquivo Histórico de Taubaté, SP.
29
TABELA 2
Descrição39 das contemplações de escravos em testamentos da cidade de Taubaté, no ano de 1842.
ANO ESCRAVOS DADOS GERAIS (idade, profissão, doação...) PROPRIETÁRIO
1842 Anna Nada consta (NC) Theresa Maria da Conceição
1842 Manoel Jornaleiro Idem
1842 Domingos Jornaleiro Idem
1842 Maria Criollinha Idem
1842 Manoel NC Padre José de Abreu Guimarains
e Castro 1842 Pedro NC Idem 1842 João NC Idem 1842 Vicente NC Idem 1842 Matheos NC Idem 1842 Antonio NC Idem
1842 Maria Doada a Mariana Antônia (esposa do proprietário)
Idem
1842 Florinda Doada a Joaquina (filha do proprietário) Idem
1842 Benedito Mulato, doado à afilhada Francisca Theresa Anna Maria de Jesus
1842 Maria Carta de Liberdade Condicional (revogada), doada à afilhada Francisca Theresa
Idem
1842 Maria NC Maria Madalena do Espírito Santo
1842 Anna NC Maria Joaquina de Jesus
FONTE: Livro de Registros de Testamentos – Nº 04 – (1842-1844), Cartório do 2º Ofício. Divisão de Museus, Patrimônio e Arquivo Histórico de Taubaté, SP.
39
Os termos aqui utilizados foram transcritos conforme sua grafia original existente nos documentos da época.
30
Este foi o caso da Escrava Maria40 que, em testamento de sua senhora, datado de 26 de setembro de 1842, recebeu a liberdade condicional e, no mesmo documento, foi revogada sua Carta de Alforria.41
Nas palavras de sua senhora, transcritas do Livro de Registros de Testamentos nº04 (1842-1844), “(...) a mesma escrava deixou de servirme bem e mesmo me abandonado em meo estado de velhice sinão faria merecedora daquele beneficio (...)”42
Qual o motivo da atitude desta senhora? A doação e a revogação da alforria foram colocadas em um mesmo testamento, mas não há uma explicação para a tal revogação, já que a testadora só declarou que a fez em favor de sua afilhada Francisca Theresa, como sua última vontade.
Talvez a escrava trabalhasse na rua (escrava de ganho)43 e daí o abandono a sua senhora, que era bem pobre, conforme o seu testamento, no qual deixou apenas poucas imagens de santos à sua afilhada (além da escrava Maria). (IMAGEM 2)
IMAGEM 2
Fonte: Christiano Júnior, José
Sítio: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/
Escrava Vendedora Ambulante, ca. 1865 albúmen e cartão de visita. Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro, RJ)
40
Propriedade de Anna Maria de Jesus que concedeu liberdade condicional à Maria. Idem, ibid.
41
Idem.
42
Livro de Registros de Testamentos nº04 (1842-1844), folha 16v. Cartório do 2º Ofício. Divisão de Museus, Patrimônio e Arquivo Histórico de Taubaté – SP.
43
Escravo de ganho trabalhava com vendas de quitutes ou outros alimentos na rua, devendo seus ganhos ao senhor.
31
Não se sabe exatamente as intenções da senhora de Maria, o que leva a diferentes interpretações do ocorrido: primeiro, a senhora poderia usar do testamento de sua última vontade para controlar a escrava, que provavelmente não lia ou escrevia e deveria confiar no que sua senhora relatava sobre o conteúdo do testamento, ou talvez a senhora tenha suprimido a parte da revogação ao comentar o conteúdo com a escrava. Segundo, existia entre os escravos de ganho um “certo” tipo de autonomia e alternância entre os trabalhos vigiados em casa e de “... relativa soltura do vender na rua...” situação que proporcionava a construção de teias de relacionamentos e oportunidades de convivência variadas aos escravos44.
Estes conflitos entre os serviços realizados por um mesmo escravo somados a sua experiência social provocavam tensões nas relações entre senhores e seus cativos.
Os outros quinze escravos citados em 1842, no total de 94%, não obtiveram quaisquer tipos de liberdade, remuneração em dinheiro ou outra doação que existisse45; foram apenas arrolados, nos testamentos, como mercadorias humanas ou bens semoventes. (GRÁFICO 1.2)
Foram eles: Anna, Manoel jornaleiro, Domingos jornaleiro, Maria crioulinha, Manoel, Pedro, João, Vicente, Matheos, Antonio, Maria (legada à esposa do proprietário), Florinda (doada à filha do proprietário), Benedito e Maria (legados à afilhada da proprietária), Maria e Anna.
44
DIAS, op.cit., pp.125 e 157.
45
Livro de Registros de Testamentos nº04 (1842-1844), folha 16v. Cartório do 2º Ofício. Divisão de Museus, Patrimônio e Arquivo Histórico de Taubaté, SP.
32 GRÁFICO 1.2 6% 94%
CONTEMPLAÇÕES DE ESCRAVOS
COM DOAÇÃO
SEM DOAÇÃO
FONTE: Livro de Registros de Testamentos – nº 04 – (1842-1844), Cartório do 2º Ofício. Divisão de Museus, Patrimônio e Arquivo Histórico de Taubaté, SP.
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