APÊNDICE A – HISTÓRICO DA ANÁLISE 258 APÊNICE B – ELEMENTOS DA ANÁLISE
2 QUESTÕES PARADIGMÁTICAS NA GESTÃO DE CRISES
2.2 AS CRISES ORGANIZACIONAIS: DEFINIÇÃO E CLASSIFICAÇÃO
2.2.1 Os estudos baseados no Paradigma Funcionalista
Para as pesquisas com viés funcionalista, a crise organizacional é um evento de baixa probabilidade e grandes impactos, que ameaça a viabilidade da organização e é caracterizada por ambigüidade de causas, efeitos e meios de resolução, assim como por uma crença de que as
decisões devem ser tomadas rapidamente (PEARSON e CLAIR, 1998). Os pesquisadores então buscavam reduzir estas ambigüidades, por meio da identificação de características inerentes às crises organizacionais. Algumas destas características são:
a. a informação passa a fluir com muita velocidade e em períodos esporádicos (SMART e VERTINSKY, 1977; STAW et al., 1981);
b. uma grande quantidade e variedade de stakeholders ficam envolvidos (ACQUIER et al., 2008; PEARSON et al., 1997; PEARSON e MITROFF, 1993);
c. o tempo é curto e limitado para a adoção de respostas (BILLINGS et al., 1980; QUARANTELLI, 1988);
d. embora existam pressões por causa do tempo, a tomada de decisão não pode ser sacrificada em prol da velocidade de resolução (PEARSON e CLAIR, 1998; SMART e VERTINSKY, 1977; SOMMER e PEARSON, 2007);
e. as crises surpreendem as organizações (HERMANN, 1963; SMART e VERTINSKY, 1977); e
f. as crises colocam em risco os objetivos principais da organização (FINK, 1986; PAUCHANT e MITROFF, 1992). De acordo com Boin (2004), a abordagem baseada na identificação da crise por meio de características objetivas é denominada de perspectiva operacional (BOIN, 2004).
2.2.1.1 Os tipos de crise
Existem tipos diferentes de crises que podem atingir uma organização. Esta variedade demonstra a quantidade de vulnerabilidades existentes nas organizações (PEARSON e CLAIR, 1998). De acordo com as suas semelhanças, as crises podem ser agrupadas em grandes famílias, conforme evidencia a Figura 02.
Figura 02 – Principais Tipos de Crises Organizacionais.
Fonte: Adaptado de Mitroff (2004).
Esta pesquisa irá se concentrar no estudo de crises decorrentes da queda de sistemas críticos de infraestrutura. As sociedades modernas estão organizadas a partir do funcionamento de algumas redes de sistemas críticos de infraestrutura, que oferecem serviços públicos, melhoram a qualidade de vida, estimulam empresas e promovem o desenvolvimento econômico (BOIN e MCCONNELL, 2007). Os sistemas críticos de infraestrutura envolvem o fornecimento de água, energia elétrica, sistemas de transportes, tecnologia da informação, canais de comunicação, entre outros. A crescente dependência das sociedades frente aos sistemas críticos de infraestrutura demonstra uma grande vulnerabilidade para a ocorrência de crises a partir de possíveis falhas de fornecimento nestes sistemas (OECD, 2003). Tais falhas podem ser causadas por desastres naturais (enchentes, terremotos, furacões, etc.), colapso nos sistemas de fornecimento (quebra da estrutura de fornecimento, falha de equipamentos, etc.), erro humano, ou até por atos de terrorismo (OECD, 2003).
2.2.1.2 As fases distintas de uma crise
Sendo possível traçar a crise por meio de um continuum temporal, ela teria, pelo menos, quatro grandes fases:
I. Período de incubação, ou Fase de Aviso (FINK, 1986; TURNER, 1976);
II. Período crítico ou Fase Aguda (FINK, 1986; STEIN, 2004);
III. Estágio crônico ou Período de Seqüelas (FINK, 1986; GARLAND, 1998); e
Econômica Informacional Física (perda de estrutura física) Recursos Humanos Greves de Funcionários Perda de informação confidencial Quebra de equipamentos Perda de executivos Queda brusca no valor de estoque Utilização de informação falsa Destruição de fábricas Perda de pessoal Flutuação no preço de matérias-primas Manipulação de arquivos de computador Escassez de matéria-prima Aumento de faltas Declínio de faturamento Vazamento de informações sobre clientes Perda de facilidades internas Aumento de atos de vandalismo Crise no mercado financeiro Contrabando de projetos/Pirataria Incêndios Acidentais Violência no ambiente de trabalho
Atos Psicopáticos Reputacional Queda de Sistemas Críticos de Infraestrutura Desastres Naturais Sequestro/Extorsão Fofoca/Piadas/Rumores Falta de Energia (Blackout) Terremotos
Sabotagem de produtos Calúnia/Difamação Queda de acessos à internet Incêndios Naturais Manutenção de reféns Danos à reputação corporativa Bloqueio nos sistemas de transporte Enchentes
Terrorismo Manipulação de logos/marcas Falta de abastecimento de água Furacões/Tufões/Tornados Principais Tipos de Crise Organizacional
IV. Fase de Resolução (FINK, 1986).
A figura 03 ilustra o ciclo de fases distintas que compõem uma crise organizacional, de acordo com os estudos baseados no Paradigma Funcionalista.
Figura 03 – As fases distintas de uma crise organizacional.
Fonte: Fink (1986).
O Período de Incubação, também conhecido como Estágio Pré- crise (SHRIVASTAVA, 1987), corresponde ao período em que a organização encontra-se em seu estado ordinário, com todas as rotinas normais em funcionamento, estruturada no seu formato original e sem que nenhum tipo de ameaça ou perigo tenha sido identificado. Entretanto, é neste período que estão se formando pequenos problemas que, quando evoluírem e se acumularem, irão formar o evento desencadeador da crise organizacional (FINK, 1986; SHRIVASTAVA, 1987; TURNER, 1976). Este período também é conhecido como Fase de Aviso (FINK, 1986), já que os problemas que se formarem demonstrarão pequenos sinais, ou avisos, que poderão ser identificados pelos gestores e servir de base para a identificação da crise que está se formando. Por esta razão, a palavra de ordem neste período será “reconhecer”. Os gestores devem reconhecer os sinais para intervir na crise proativamente, evitando que a crise atinja a Fase Aguda (FINK, 1986; MITROFF, 2004).
O Período Crítico da crise surge quando o estado ordinário de uma organização é rompido por algum tipo de evento. Este evento, conhecido como “Evento Precipitador” (TURNER, 1976) ou o “Evento Desencadeador” (SHRIVASTAVA, 1987), pode ter origem em causas
naturais (ex.: enchentes), cognitivas (ex.: resistência das lideranças), organizacionais (ex.: comunicações ineficientes na organização) ou políticas (ex.: interesses de determinado grupo de stakeholders) (BAZERMAN e WATKINS, 2004). De acordo com Fink (1986), este é o ponto de não retorno de uma crise porque, caso os sinais não tenham sido reconhecidos e a crise tenha atingido a Fase Aguda, algum prejuízo já foi causado. Normalmente, é o Período Crítico que as pessoas têm em mente quando mencionam uma crise organizacional (FINK, 1986), uma vez que é nesta fase que as maiores dificuldades impostas pela crise se tornam conhecidas.
Também chamado de Período de Seqüelas ou Fase de Limpeza (FINK, 1986), o Estágio Crônico constitui uma etapa de auto-análise e recuperação. Esta fase pode durar muitos anos e corresponde ao período em que são implementadas as decisões de resposta à crise que foram tomadas na Fase Aguda. De acordo com Fink (1986), a existência de planos de resposta a crises em uma organização pode reduzir o tempo de ocorrência do Período Crônico (FINK, 1986; GARLAND, 1998). A última fase de uma crise organizacional corresponde à Fase de Resolução. Esta etapa deve ser o objetivo de toda organização que enfrenta uma crise, já que se inicia quando todos os óbices e dificuldades gerados pela crise foram resolvidos e a organização encontrou novamente o equilíbrio (FINK, 1986).
Dependendo das variáveis existentes, a crise pode evoluir do Período de Incubação para a Fase Aguda em poucos dias, ou então pode durar anos. Contudo, o importante é compreender que todas as crises passam por estas quatro fases. Em alguns casos, a transição entre os períodos é lenta, em outros casos, será mais rápida, porém todas as crises completarão o ciclo das quatro fases. Além disso, após a Fase de Recuperação de uma crise, a organização inicia novamente o Período de Incubação, que irá gerar outra crise organizacional (FINK, 1986).
As principais teorias para definir e classificar uma crise organizacional, desenvolvidas a partir dos posicionamentos ontológicos e epistemológicos do Paradigma Funcionalista (BURRELL e MORGAN, 1979), foram apresentadas nesta seção. Ressalta-se que esta abordagem apresenta uma perspectiva operacional (BOIN, 2004) e privilegia a natureza objetiva da crise organizacional, definindo-a como um fenômeno que existe por si só, de maneira independente à percepção dos gestores. Durante muitos anos, esta abordagem dominou o estudo e a pesquisa sobre crises organizacionais, influenciando a criação de ferramentas de gestão de crise por várias décadas (LAGADEC, 2009).