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3.3 OS ESTUDOS FEMINISTAS, A JUSTIÇA E O DIREITO

É a partir do desenvolvimento de uma teoria política feminista, ainda que extremamente diversa em suas premissas e conclusões, que se passa a prestar atenção ao fato de que as diversas racionalidades, então presentes no debate político acerca da justiça, mobilizavam (ainda que inconscientemente) o conceito de justiça de uma forma total e tradicionalmente masculina, porque: (I) centrado numa neutralidade relativamente ao gênero; (II) focado numa distinção público/privado; (III) ignora composições pautadas numa ética referenciada pelo cuidado (Kymlicka, 1990). As teorias mais tradicionais sobre a justiça estão centradas na superação das desigualdades relacionadas especialmente à distribuição de riqueza e renda, omitindo-se em face da desigualdade relacionada à distribuição de benefícios. Não há realmente como pensar em uma Teoria da Justiça sem ter em conta o impacto e as consequências que uma determinada forma de organização familiar tem na vida das mulheres e na ordenação social como um todo. A necessidade de criar os filhos e a desigual distribuição do trabalho doméstico faz com que muitas mulheres abdiquem da carreira ou optem por empregos de meio período, o que, ao final, lhes diminui a remuneração, fazendo com que, de uma forma geral, os homens ganhem mais e alcancem os melhores postos. Não há como se pensar “o justo” ignorando esse fato. Os estudos feministas permitiram perceber que o código que corresponde às expectativas morais acerca da justiça e dos julgamentos é um código masculino transferido, de forma idealizada, para os sistemas legais (Smart, 1989). Conceitos que dominam o direito, como racionalidade, objetividade e neutralidade são conceitos masculinos. Os procedimentos de imputação normativa típicos do direito também respondem a uma lógica que é masculina. O direito, tal como se apresenta, é sexista porque usualmente acaba por reforçar, através de suas normas, e também da

jurisprudência, a manutenção das mulheres em uma posição de desvantagem (Smart

apud Espinosa, 2002, p.42).

Essa reflexão levará parte das feministas a questionar a oportunidade do engajamento feminista na defesa da utilização do direito como estratégia adequada na defesa dos interesses das mulheres. A retórica dos direitos humanos é vista como problemática do ponto de vista da política feminista, porque a forma como a lei vem sendo interpretada, em parte pelos próprios trabalhos feministas, acaba por reforçar o poder da lei como um discurso hábil a desqualificar outras formas de conhecimento das mulheres (Smart, 1989), cujas experiências são desprezadas.

Na base de toda a teoria crítica aos sistemas de justiça (criminal e civil), lastreados em julgamentos morais tomados como forma universal de justiça, encontra-se o trabalho de Carol Gilligan, In a Different Voice, publicado em 1982. Gilligan constatou que as mulheres apresentavam um padrão de moralidade diferenciado dos homens ao resolver dilemas morais, relativizando o sistema de direitos e a forma abstrata, racionalizada, universalizante e impessoal com que, tipicamente, os homens resolviam os mesmos conflitos. As mulheres levavam em conta os contextos específicos das situações conflitivas e as consequências da forma de resolução na vida das pessoas implicadas no conflito e na sua própria. O ideal de justiça, na vivência das mulheres, aparece marcada pela “busca da equidade e pela reciprocidade complementária e não pela atribuição de direitos ou pela procura pela igualdade” (Parent e Digneffe apud Espinoza, 2002, p.44). Nesse sentido:

Enquanto que uma ética de justiça provém da premissa da igualdade – que toda gente deve ser tratada da mesma maneira - uma ética de preocupação com os outros se assenta na premissa da não violência – que ninguém seja magoado. Na representação feita na maturidade, ambas as perspectivas convergem na compreensão de que, tal como a desigualdade afecta de forma diversa ambas as partes numa relação desigual, também a violência é destrutiva para todas as pessoas envolvidas. Este diálogo entre justiça e atenção para com os outros proporciona não só uma melhor compreensão das relações entre os sexos mas também dá origem a uma representação mais complexa das relações adultas no trabalho e na família (Gilligan, 1997, p.270)

Smart (1989, p. 74) fornece alguns exemplos de questões que passam a ser pensadas a partir da reflexão iniciada por In a different voice: é possível reexaminar o sistema de justiça criminal a fim de avaliar se a presença de uma ética masculina inerente aos julgamentos é prejudicial e injusta no trato das mulheres? As sanções penais (assentadas sob a égide do masculino) não seriam extremamente cruéis quando aplicadas às mulheres, considerando que o sistema foi pensado por homens levando em conta a punição de homens? Evidentemente, também pode-se desenvolver argumentos questionando a viabilidade das sanções penais para homens e mulheres, reivindicando-se, no Direito, procedimentos adequados também à ética do cuidado.

Nos casos de violência doméstica contra a mulher, por exemplo, é possível pensar na possibilidade de ajustar os procedimentos de forma a compor os conflitos com base numa ética do cuidado. O trabalho de Gilligan fornece pistas para pensar por que tantas mulheres, vítimas de violência, optam pelo não acionamento do sistema de justiça criminal na administração dessa espécie de conflito. O comum desejo de não punir o agressor, para, antes, resolver a situação com o mínimo de danos, preservando inclusive os laços ainda existentes, pode ser pensado como uma expressão da ética do cuidado identificada por Gilligan. O perdão, que faz parte dessa perspectiva, não é uma possibilidade quando os conflitos têm sua administração deslocada para o sistema de direito criminal, em que sobrepõe-se a obrigação de punir.

Pode-se, a partir das inúmeras reflexões que a teoria feminista proporciona, se pensar em uma justiça mais feminina81, pautada por uma ética do cuidado e da

responsabilidade, que nos aproxime mais da cooperação, da responsabilidade pelo outro, de uma justiça informal, assentada nas relações entre os indivíduos (Parent e Digneffe apud Espinoza, 2002, p.44).

A ética da justiça (igual consideração de interesses) pode ser acrescida pela ética do cuidado (ninguém deve ser machucado). Esse é, aliás, o entendimento da própria Carol Gilligan, que não propõe a substituição da ética da justiça pela ética do

81 Talvez algumas recentes experiências de justiça restaurativa possam se aproximar dessa ideia de

cuidado, mas sua complementação (Smart ,1989, p. 74). De fato, a teoria de Gilligan expande a descrição de moralidade ao chamar a atenção para a aplicação de diferentes princípios na resolução de conflitos concretos (inseridos em um contexto específico), nos quais a decisão moral afeta pessoas conhecidas, identificáveis. Sua maior contribuição reside na redefinição do que deve ser levado em conta na descrição de uma moral ideal. Estudos mais recentes sugerem, inclusive, que a concepção de moralidade alargada pela ética do cuidado é muito menos vinculada a gênero do que Gilligan supôs inicialmente (Brabeck, 1993, p. 47-48).

As teorias da justiça, focadas em estratégias de desenvolvimento moral que permitam o estabelecimento de “comunidades justas”, são compatíveis com a ética do cuidado. Mais que isso, a percepção da existência de uma razão moral lastreada no cuidado, apta a enfrentar conflitos reais, colocados em face de pessoas concretas (com diferentes histórias de vida, identidades, valores culturais, etc...) abre campo para se repensar a forma como o Direito normalmente administra a resolução dos conflitos que lhe são colocados.

Uma adequada concepção de moralidade, por sua vez, é fundamental para assegurar a igual consideração de interesses e, consequentemente, uma sociedade justa. Repensar a moralidade, ampliando a percepção da nosso usual conceito de justiça é um primeiro passo para que se possa questionar as atuais estratégias de intermediação de conflitos assentadas na lógica da punição.

Não posso deixar de pensar que a defesa dos direitos das mulheres por meio do direito criminal acaba por impor uma certa forma de dominação, posto que a estrutura desse direito, caracterizado pela obrigação de punir, é fundamentalmente patriarcal. Com relação às situações que foram criminalizadas e em face das quais o processamento da ação penal é automático, não há qualquer possibilidade de composição, impondo-se na intermediação do conflito uma dinâmica violenta que não corresponde necessariamente ao desejo, às experiências e aos valores das mulheres. Muitos são os desafios para que se garanta os interesses das mulheres. Ao movimento feminista incumbe a elaboração de estratégias para que, em meio à fragmentação e às diferenças, possam ser encontradas convergências capazes de garantir que as mulheres obtenham ganhos políticos e que possam viver livres de qualquer forma de opressão. À teoria feminista, por seu turno, incumbe a tarefa de

pensar a opressão nas suas múltiplas manifestações, contribuindo para a emancipação das mulheres, a partir do reconhecimento da importância dos recortes de gênero e do engajamento ético da teoria social feminista. É de se esperar que as pesquisadoras feministas estejam, elas próprias, inseridas no contexto social estudado, mantendo uma proximidade crítica com relação ao seu objeto de estudo e que, além da pesquisa, sejam partícipes do movimento, a fim de integrar teoria e prática (Parent, 1998, p.38 -41).

4 O DEBATE FEMINISTA SOBRE A INTERVENÇÃO PUNITIVA NOS CASOS