às 10 horas da manhã, encerrava-se o júri do ano talvez o da década, por falta de grandes júris Mais
15. Revertir el proceso de desjudicialización de la violencia contra las mujeres y asegurar a las víctimas el acceso a un juez ordinario en aquellos
6.4 A PALAVRA FINAL: O IMPACTO DO POSICIONAMENTO DO STF NAS DEAMS
As decisões do STF, no julgamento conjunto de 9 de fevereiro de 2012 (ADC 19 e ADI 4424) afirmaram a constitucionalidade plena da LMP, operando controle de constitucionalidade concentrado, o que significa dizer que as decisões em questão passaram a valer erga omnis, fechando-se a possibilidade do controle difuso de constitucionalidade. A partir daí, todos os Juízos e Cortes não podem mais, em casos individuais, proferir decisões entendendo, por exemplo, que o processamento da ação penal depende da representação da ofendida. Esta decisão foi bastante festejada, especialmente junto às organizações do movimento feminista que participaram do Consórcio e aos órgãos governamentais que defendiam a aplicação da lei na sua integralidade, o que parecia reivindicar, de fato, um completo afastamento da lei 9099/95. A decisão em comento imprimiu uma outra dinâmica à atuação dos órgãos governamentais, que passaram a mobilizar esforços para ver cumpridos, no âmbito do sistema de justiça, os ditames da LMP, nos termos da sua última e definitiva interpretação.
Com a LMP, as DEAMs, que atuavam isoladamente, passam a fazer parte de uma rede de atenção especializada no atendimento às mulheres vítimas de violência
doméstica e novas atribuições, a exemplo do encaminhamento ao Juízo de pedido para a concessão de medidas protetivas de urgência, se somam àquelas tradicionalmente previstas para o funcionamento de uma unidade policial, conforme disposições encontradas em os artigos 10,11 e 12 da LMP. Em 2010, foi publicada uma revisão atualizada da Norma Técnica de Padronização das Delegacias Especializadas de Atendimento às Mulheres – DEAMs (2010) a fim de ajustar o funcionamento destas unidades ao marco normativo estabelecido pela LMP, que “instituiu uma nova política criminal” em atenção à recomendação da ONU para que Estados membros adotassem medidas, no campo criminal e de prevenção do crime, para conter a violência contra as mulheres” (SPM, 2010, p.11 e p.16).
Segundo este documento, as DEAMs têm um papel estratégico relacionado ao enfrentamento da violência doméstica, não podendo prescindir de seguir quatro diretrizes: profissionalização, prevenção, educação/cidadania e investigação. O documento sugere fluxos de atendimento em articulação com a Rede e propõe uma estrutura mínima baseada no número de habitantes da cidade, para que as DEAMs possam garantir um bom atendimento às mulheres, considerando especialmente que a LMP “aumentou sobremaneira o número de inquéritos policiais nas DEAMs” (SPM, 2010, p.52). O modelo de atendimento proposto deverá articular prevenção e repressão. A prevenção deverá se dar, segundo recomendações do documento, pelo apoio e divulgação de campanhas educativas, realização de oficinas, divulgação massiça de informações, bem como pela disponibilização do “ligue 180”, formatação de banco de dados relativo aos atendimentos prestados, integração com outras DEAMs, apoio psicológico aos profissionais que atuam na própria DEAM, dentre outras ações. A repressão deverá ser garantida pela instauração sistemática e obrigatória de inquéritos policiais, acurada produção de provas e outras atividades típicas da atividade de polícia judiciária.
O fluxograma apresentado (SPM, 2010, p.48) deixa claro que o que se espera da DEAM é, em primeiro lugar, o desenvolvimento das atividades policiais tradicionais, assim como a lavratura do boletim de ocorrência (ou do auto de prisão em flagrante), a instauração do inquérito policial, a produção de provas e a conclusão e envio dos autos ao Ministério Público para a propositura da ação penal. De forma incidente, a Autoridade Policial encaminhará pedido para concessão de medidas protetivas ou para a decretação de prisão preventiva nas hipóteses previstas em lei. Paralelamente,
a vítima deverá ser encaminhada aos serviços de atendimento da rede a exemplo de casas abrigo, centros de referência, CRAS, CREAS, etc..
O que se conclui do exame do documento em questão é que, após a LMP, espera-se que as DEAMs cumpram o papel de polícia judiciária de forma estrita, qualificando a prestação do serviço através de um acolhimento diferenciado, caracterizado por exemplo, por uma “escuta ativa”, concebida como uma “escuta atenta, profissional e observadora, de forma a propiciar o rompimento do silêncio, do isolamento destas mulheres e, em especial dos atos de violência aos quais estão submetidas” (SPM, 2010, p.30). É preciso notar que esta escuta é apresentada como uma forma de propiciar uma melhor compreensão dos fatos para o correto encaminhamento da intervenção penal, que é obrigatória. Se a mulher disser que deseja uma intervenção não punitiva, que a delegada apenas converse com o agressor, neste sentido, ela não será ser ouvida.
A questão é que as DEAMs criaram e institucionalizaram uma forma específica de atendimento, que pôde ser mantida até a decisão do STF, pois em todos os casos dependentes de representação, aí incluídas as lesões corporais leves, abria-se espaço para uma intervenção prévia e não punitiva. A nova política criminal instituída pela LMP ignorou por completo a experiência vivenciada nas DEAMs.
Com a reafirmação do processamento automático para as lesões leves a margem para a possibilidade de mediação ficou absolutamente estrita. Mais que isso, como já demonstra e antecipa a norma técnica de padronização das DEAMs, não há espaço ou previsão procedimental para que, nas situações de violência doméstica contra a mulher, possa haver qualquer composição. O fazer das DEAMs permaneceu invisível durante todo o debate público. As práticas mediadoras ali tradicionalmente desenvolvidas foram ignoradas durante todo o processo de elaboração da LMP e também depois, por ocasião da disputa judicial acerca da melhor interpretação para a norma . A decisão do STF, contudo, teve um impacto direto nas atividades desenvolvidas nas DEAMs e também na vida de todas as mulheres ali atendidas.
7 AS DELEGACIAS DA MULHER DEPOIS DA LEI MARIA DA PENHA: A