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4. Contexto de pesquisa

4.1. A assessoria pedagógica em análise

4.1.3. Os eventos de letramento da assessoria: proposta de uma tipologia

Como apontado anteriormente, muitos assessores eram formados em Letras, porque existia uma assessoria específica para uma das obras da Editora, na qual se encaixava também o meu trabalho como assessora. Este sempre esteve relacionado às obras didáticas dos autores de Língua Portuguesa William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, que está entre as mais adotadas em diversos segmentos e áreas (Literatura, Gramática, Produção de Textos, ensinos fundamental e médio) para os quais escrevem. Tal fato era um diferencial na Editora, pois se tratava dos únicos autores que tinham uma assessoria exclusiva para seus livros, os chamados “assessores PL73”, que podiam se dedicar a estudar de maneira mais aprofundada a metodologia e as teorias que dão base aos livros desses autores74.

Havia, além dos assessores PL, os assessores generalistas (pedagogos que atendiam professores do primeiro ciclo do Ensino Fundamental 1 e tratavam de questões da área da Educação, em geral), os assessores especialistas (com formação em História, Matemática e Língua Estrangeira, que atendiam às questões de suas áreas específicas) e os assessores de tecnologia (que davam suporte e palestras às escolas

73 A sigla PL, conforme já mencionado, refere-se à coleção Português: linguagens, principal

obra dos autores, que abrange toda a educação básica, desde o 1º ano do EFI até o 3º ano do EM.

74 Um dos meus interesses específicos na formação via assessoria pedagógica era a relativa

afinidade e uma possível aproximação teórica e metodológica entre minhas concepções e a abordagem assumida por esses autores em suas propostas nos LDs.

sobre novas tecnologias nas obras que utilizam tais ferramentas). Ao longo de 2014, meu último ano na Editora, houve um esforço para se eliminarem tais especificidades da assessoria, a fim de que todos os assessores cumprissem a função de dar apoio pedagógico geral para a escola, sem o aprofundamento em uma área de conhecimento, ou disciplina escolar específica. Em outras palavras, pode-se considerar que todos se aproximariam, nesse caso, do perfil do assessor generalista.

Tendo em vista esse perfil mais geral dos assessores, ratifico que o contexto de assessoria pedagógica analisado nesta pesquisa corresponde não a toda a Editora, mas exclusivamente ao trabalho por mim realizado nas filiais sediadas nas cidades de São Paulo e Ribeirão Preto, que abrangem todas as cidades do estado paulista, e algumas do Estado de Minas, mais especificamente da região Sul e do Triângulo Mineiro.

Como nunca houve um documento oficial que delimitasse as atribuições dos assessores, posso apontar, com base em minha experiência de mais de quatro anos, que a função de assessora pedagógica demandava, entre outras atividades, as seguintes: (i) atender os pedidos gerais das escolas que solicitavam o serviço; (ii) preparar materiais (coletânea de questões, provas de concurso, conteúdo de catálogos, entre outros) para as escolas e para a Editora; (iii) auxiliar as escolas adotantes no desenvolvimento de projetos pedagógicos; (iv) conversar com professores sobre algum tópico da área de linguagem, em geral, ou do livro; (v) apresentar a estrutura e metodologia das obras; (vi) apresentar os sites das coleções; (vii) realizar palestras e/ou aulas expositivas para professores, coordenadores, diretores. Além de tais atribuições, demandadas pelas atividades do trabalho, também havia, por parte dos coordenadores, a expectativa de que eu investisse em minha formação para estar atualizada em relação às teorias que fundamentam as obras com as quais trabalhava.

Orientando-me por essas atividades, proponho a seguir uma categorização que tem por objetivo caracterizar as diferentes modalidades de assessoria, isto é, a natureza dos diferentes trabalhos passíveis de serem realizados como assessoria pedagógica de editora nas escolas e/ou órgãos públicos ligados à Educação. Conforme exposto no capítulo 2, assumo que os encontros de assessoria pedagógica podem ser considerados uma prática de letramento do professor no/para o local de trabalho, a qual se concretiza em eventos de letramento distintos e específicos. Assim, o critério utilizado para a definição dessas categorias foram os tipos de evento de letramento mobilizados nas atividades realizadas pelo assessor. Proponho as seguintes categorias:

a. Assessoria palestra: era o tipo mais disseminado pela Editora, oferecido às instituições pelos divulgadores. Consistia em um uma fala direcionada a professores e/ou coordenadores, com duração média de 2 horas, que partia de um tema escolhido no “Portfólio da assessoria” (vide anexo 475) ou combinado previamente com o assessor. Poderia dar início a um trabalho contínuo realizado em conjunto com a escola ou o órgão público envolvido (em geral, Secretarias de Educação e Diretorias de Ensino) e, nesse caso, as atividades poderiam ser estendidas, para além da palestra, a seminários pedagógicos ou cursos organizados conjuntamente, com um ou mais encontros.

b. Assessoria visita: consistia em visitas não agendadas a escolas públicas, privadas ou órgãos públicos para falar sobre as propostas do serviço de assessoria. Seu principal objetivo era dar a conhecer o serviço e reforçar que ele estava disponível; em geral, eram momentos bem rápidos, de menos de 30 minutos, mas havia casos que rendiam algumas horas, dependendo do interesse da instituição visitada e do andamento da conversa.

c. Assessoria apresentação da obra: consistia em uma apresentação feita pelo assessor sobre a metodologia e a abordagem das obras a pedido de escolas que estavam analisando ou que pretendiam adotar os livros, a fim de responder às dúvidas dos professores, coordenadores e/ou gestores especificamente sobre os livros e o serviço de assessoria.

d. Assessoria solenidade: consistia em eventos nas escolas ou na própria Editora, tais como feiras de livro, apresentações de alunos, feiras culturais, reuniões de pais, almoços, jantares, palestras, entre outros. Nesses eventos, os assessores cumpriam funções diversas: desde um contato social com os membros da escola, passando pela participação em bancas de concursos de alunos, até uma fala em reunião de pais sobre a proposta do livro adotado pela escola.

e. Assessoria colóquio: consistia em uma conversa menos formal (agendada ou não previamente) entre os envolvidos e poderia acontecer em duas situações: (i) conversas com coordenadores, diretores, professores de escolas públicas,

75 O portfólio trazido no anexo 4 foi montado em conjunto pela equipe de assessores, que

sugeriram novos temas, ou trouxeram temas que já tinham desenvolvido porque tinham sido solicitados anteriormente. Tem como finalidade principal apresentar a assessoria pedagógica, trazendo alguns dos temas que podem ser trabalhados nos encontros. Elaborado pela coordenação da assessoria, afirma que não se trata simplesmente de apresentar obras da Editora, mas sim de discutir temas relevantes da área de Estudos da Linguagem (no caso dessa assessoria, especificamente), muitos deles com origem em conceitos teóricos, tais como gêneros, letramento, leitura, produção textual, etc.

privadas ou órgãos públicos, a partir das quais se pretendia iniciar um trabalho contínuo com a escola; ou (ii) conversas com professores adotantes para discutir questões referentes à obra, especialmente em anos de reformulação dos livros. f. Assessoria projeto: consistia em acompanhamentos de projetos em escolas

públicas, privadas ou órgãos públicos, o que implicava um trabalho realizado ao longo de determinado tempo e o agendamento de dois ou mais encontros com determinada frequência a fim de discutir alguma demanda da escola.

g. Assessoria produção de materiais: consistia na produção de materiais (catálogos, cadernos, revistas) para a Editora, os quais eram distribuídos nas escolas.

Essas categorias podem ser subdivididas segundo o seu objetivo geral, que pode ser apenas divulgação dos livros e do nome da Editora, ou visar também à formação dos participantes. Também se subdividem segundo a origem da iniciativa, que podia partir da Editora, das escolas ou de órgãos públicos, poderia ser variável ou poderia ser também uma proposta pensada conjuntamente. Além disso, também podem ser refinadas segundo os elementos enumerados por Hamilton (2010) e discutidos no capítulo 2, conforme mostro na tabela 11, a seguir.

Como exposto na tabela 11, todas as modalidades de assessoria tinham o objetivo de divulgar, seja as obras, seja o nome da Editora, seja o próprio serviço da assessoria. O objetivo de formação se restringia às modalidades palestra, iniciada pela Editora ou pela Editora em parceria com outras instituições, apresentação da obra, projeto e produção de material.

A origem das iniciativas, por sua vez, era em sua maioria variável: uma mesma modalidade de assessoria, como a palestra, poderia ser de iniciativa da Editora (quando um divulgador solicitava à direção ou coordenação de uma escola permissão para realizar um encontro com a assessoria pedagógica), poderia partir da própria escola (que solicitava ao divulgador um encontro com um assessor), ou, ainda, poderia surgir de uma ideia conjunta de divulgador/assessor e coordenadores, diretores ou professores. Em outras situações, a demanda é necessariamente unilateral, como nos casos das assessorias visita e produção de material, sempre iniciativa da Editora; e nos casos das assessorias de apresentação de obra, nas quais a demanda era das escolas interessadas em conhecer o material.

As demais colunas partem dos elementos básicos de um evento de letramento enumerados por Hamilton (2000): participantes, atividades, ambientes e artefatos. Assim, procurei descrever, nas últimas quatro colunas da tabela 11, cada tipo de evento de letramento da assessoria pedagógica segundo seus elementos básicos (HAMILTON, 2000).

A tabela 12, por sua vez, quantifica as diferentes modalidades de assessoria que realizei ao longo de 2 anos, entre maio de 2011 e junho de 201376:

Tabela 12 - Assessorias realizadas entre 2011 e 2013

76 Números extraídos dos registros feitos na minha agenda, contando que estive afastada entre

outubro de 2012 e março de 2013.

Modalidade Quantidade %

Assessoria palestra 104 31%

Assessoria visita 180 54%

Assessoria apresentação da obra 7 2%

Assessoria solenidade 11 3,3%

Assessoria colóquio 24 7,2%

Assessoria projeto 5 1,5%

Assessoria produção de material 3 1%

Vale observar, sobre os números da tabela, que há uma predominância de assessorias de tipo visita (54% do total), o que se explica pela maneira como essas visitas eram organizadas, separando-se as escolas adotantes por região e organizando um roteiro que possibilitava visitar aproximadamente entre 5 e 8 escolas em um único dia. Segue as visitas, em quantidade, a assessoria palestra (31%), que pode ser um evento de assessoria realizado em uma única escola, organizado em parceria com Secretarias de Educação ou Diretorias de Ensino, e participam do evento professores de mais de uma escola, em muitos casos até mesmo de cidades diversas, o que torna esta última mais abrangente.

Excetuando-se as visitas, a assessoria palestra compõe grande parcela do trabalho da assessoria, equivalentes a mais da metade (67,5%) das atividades. Para a presente análise, foi feito um recorte de 23 assessorias palestra realizadas ao longo desses dois anos77, direcionadas a professores de diferentes segmentos de ensino (Ensino Fundamental I, Ensino Fundamental II e Ensino Médio), em escolas particulares e órgãos públicos de 17 diferentes cidades do Estado de São Paulo, destacadas em vermelho no mapa que segue:

77 As informações desta seção foram obtidas por meio da análise de uma amostragem de fichas

de avaliação preenchidas por professores em eventos de assessoria palestra, sobre as quais falarei mais detalhadamente nas análises do capítulo 6.

Figura 21 - Cidades em que foram realizadas as assessorias selecionadas78 Os gráficos a seguir retratam o perfil do público dessas assessorias:

Figura 22 - Segmentos atendidos

78 São elas: São Paulo, Campinas, Ourinhos, São José do Rio Preto, Mogi-Mirim, José

Bonifácio, Guapiaçu, Cruzeiro, Hortolândia, Americana, Itanhaém, Indaiatuba, Itapecerica da Serra, Sorocaba, São Caetano do Sul, Biritiba-Mirim, Sertãozinho.

Contextos das 23 assessorias:

3

9

11 20

Escolas particulares adotantes Parcerias com órgãos públicos Secretarias de Educação Diretorias de Ensino

Figura 23 - Instituições em que se realizaram as assessorias

Embora o público-alvo e as especificidades das instituições nas quais se realizaram as assessorias não estejam na base das categorizações elencadas anteriormente, vale observar a variedade de lugares nos quais foi aberto espaço para a realização de encontros de assessoria pedagógica. Como mostram os gráficos das figuras 22 e 23, quinze eventos foram demandas de assessorias para professores do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio e oito foram direcionadas a professores do primeiro ciclo do ensino fundamental. Quanto às instituições que demandaram as assessorias, vinte foram solicitadas por órgãos públicos para professores e/ou coordenadores das escolas públicas sob sua jurisdição (entre eles, onze Diretorias de Ensino e nove Secretarias de Educação) e três foram solicitadas por escolas particulares.

Quanto aos tópicos discutidos nas modalidades em questão, os encontros abordaram uma variedade de vinte temas, encomendados pelos solicitantes ou escolhidos em acordo entre mim e o responsável (coordenador da escola, Professor Coordenador do Núcleo Pedagógico, no Estado, Assessor Técnico, no caso de algumas cidades, entre outros). Vale observar que nem todos são temas presentes no Portfólio previamente organizado, isto é, há casos em que o tema foi pedido pelos interessados tendo em vista sua necessidade específica e a palestra foi montada especialmente para esse público. São eles:

1. Português: Linguagens e o trabalho com a gramática no texto 2. A gramática na perspectiva discursiva

3. Produção e avaliação de textos na escola

4. Gêneros e ensino: uma proposta sociodiscursiva 5. O trabalho com produção de textos na escola no EFI

6. O conceito de gênero e suas implicações para o trabalho com produção de textos no Ensino Fundamental I

7. A proposta da coleção Português: Linguagens EFI

8. O ensino de Produção de Textos: “da era da composição a era dos gêneros”

9. O texto literário nas escolas

10. Avaliação em Língua Portuguesa: um convite à reflexão 11. O trabalho com produção de textos no EFI

12. O trabalho com a Gramática no EFI 13. Alfabetização e letramento

14. A formação de leitores

15. Produção textual na escola, gêneros e prática social

16. Coesão e coerência no processamento do texto: leitura na Prova Brasil 17. Leitura e multimodalidade: texto verbal e não verbal na construção de

sentidos

18. Leitura e produção de textos na escola e na vida

19. Linguagens na diversidade: a aproximação das práticas escolares e cotidianas dos jovens por meio da crônica e de textos multimodais 20. Correção (revisão) de textos

É possível perceber que os temas das assessorias são temas com frequência abordados em cursos de formação continuada de professores, ou mesmo em palestras feitas por professores especialistas em áreas afins, quando convidados ou contratados por instituições universitárias, escolas ou órgãos governamentais. Nesse contexto, cabe pensar: por que a demanda recai sobre a Editora? Entre outras possibilidades, talvez pelo fato de a Editora atender de modo mais satisfatório à necessidade imediata colocada em termos de datas, locais, quantidade de público, solicitação temática específica, etc., uma vez que vê na instituição seu cliente e tem como alguns de seus objetivos agradá-lo, torná-lo fiel a seu produto, convencê-lo da superioridade de seus materiais e serviços. E, novamente, ressalto que se trata de um fator que indicia um

fortalecimento de professores e coordenadores, uma vez que a relação comercial faz com que haja um esforço a fim de que estes sejam atendidos conforme suas próprias exigências.

4.2 Funções da assessoria e do assessor no contexto da pesquisa: representações