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Os factos interruptivos e suspensivos do prazo prescricional

No documento Prescrio da obrigao tributria (2. edio) (páginas 140-143)

– O problema da aplicação no tempo da lei nova quando esta dispõe sobre as causas interruptivas e suspensivas da prescrição.

PRESCRIÇÃO DA OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA 7 Notas Práticas Acerca do Regime de Prescrição das Contribuições e Quotizações para a Segurança Social

4. Os factos interruptivos e suspensivos do prazo prescricional

Sem descurar as suas anteriores redações, desde a entrada em vigor do artigo 63.º, n.º 2, da Lei n.º 17/2000, de 8 de Agosto [cuja redação permanece intocável no actual artigo 187.º, n.º 2, do Código Contributivo] que se dispõe o seguinte:

“O prazo de prescrição interrompe-se pela ocorrência de (1) qualquer diligência administrativa

realizada, da qual tenha sido dado (2) conhecimento ao responsável pelo pagamento, (3) conducente à liquidação ou à cobrança da dívida e pela apresentação de requerimento de procedimento extrajudicial de conciliação”8.

Daqui decorre que a diligência levada a cabo pela Segurança Social deve assumir (1) natureza

administrativa e não judicial/processual [v.g. no âmbito de um procedimento administrativo

ou do processo de execução fiscal] (2) visar a cobrança voluntária ou coerciva do tributo parafiscal (3) e ser notificada ao seu destinatário, através de carta registada com aviso de recepção [artigo 38.º, n.º 1, do CPPT aqui aplicável por via do disposto no artigo 3.º, alínea a), do Código Contributivo].

Para este efeito, qualquer que seja o tipo de diligência em questão, não se exigirá que da sua notificação conste o concreto montante que se encontra em dívida ou em liquidação, uma vez 6 Considerando que o termo inicial corresponde à data em que a Lei Nova - Lei n.º 17/2000, de 8 de Agosto entrou em vigor – 4 de Fevereiro de 2001 -, que o termo final do prazo de prescrição ocorre em 04.02.2006 e que este, correspondendo a um sábado, transferir-se-á para o primeiro dia útil seguinte, ou seja, até às 23h59m de 06.02.2006 [artigo 279.º, als. c) e e), do Código Civil].

7 Cfr. Acórdão do TCA-Sul, de 4 de Fevereiro de 2016, proferido no processo n.º 07214/13.

8 Isto, sem olvidar que os únicos factos que interrompem a prescrição da obrigação tributária são aqueles a que é reconhecido efeito interruptivo pela lei vigente no momento em que ocorrerem [artigo 12.º, n.º 2, do Código Civil], conforme se decidiu no acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 13 de Maio de 2009, proferido no processo n.º 0240/09.

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que a Lei se conforma com o conhecimento por parte do responsável pelo pagamento da mera intenção em liquidar ou cobrar o tributo em questão9.

No entanto, o ónus da prova de existência de factos interruptivos e/ou suspensivos do prazo prescricional, enquanto circunstância impeditiva da prescrição, recai naturalmente sobre a entidade exequente, neste caso, o Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social [artigo 344.º, n.º 2, do Código Civil]10.

A este título, com natural aptidão a produzir este efeito interruptivo, cuja eficácia aqui se deve ter por meramente instantânea [artigo 326.º, n.º 1, do Código Civil], adiantam-se assim, entre outras, os seguintes exemplos de diligências [administrativas] praticadas no âmbito de procedimentos administrativos ou do processo de execução fiscal, todas com vista à liquidação ou cobrança voluntária ou coerciva do tributo:

– Notificação de valores em dívida levada a cabo pelo Instituto de Segurança Social ou pela respetiva Secção de Processo Executivo do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social; – Notificação do responsável subsidiário para exercício do seu direito de audição prévia à efetivação da reversão do processo de execução fiscal11;

– Notificação da realização de penhora12;

– Notificação para junção de documentação no âmbito do processo de averiguações; – Notificação de despacho proferido sobre o pedido de pagamento em prestações; – Notificação para pagamento voluntário prévia à instauração de processo crime; – Requerimento de procedimento extrajudicial de conciliação13;

– Notificação da decisão de verificação e graduação de créditos;

– Assinatura do mapa de apuramento de remunerações, no decurso de uma acção inspetiva ou de um processo de averiguações14;

– Notificação da fixação da base de incidência contributiva [artigos 163.º, n.º 5 e 164.º, n.º 1, do Código Contributivo];

9 Cfr. Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 10.12.2008, proferido no processo n.º 0623/08.

10 Cfr. Acórdão do Pleno do Supremo Tribunal Administrativo, de 12.11.2014, proferido no processo n.º 0406/14. 11 Cfr. entre outros, os acórdãos do Supremo Tribunal Administrativo, de 12.10.2016, P. 0984/16, de 29.01.2014, P. 1941/13, de 08.09.2010, P. 0438/10, de 11.03.2009, P. 050/09, de 28.11.2007, P. 0729/07, de 07.10.2009, P. 0549/09, todos acessíveis em www.dgsi.pt.

12 Cfr. Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 14.07.2010, proferido no processo n.º 0550/10. 13 Cfr. Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 22.03.2011, proferido no processo n.º 0165/11. 14 Cfr. Acórdão do TCA-Norte, de 14.06.2017, proferido no processo n.º 00247/10.1BEVIS.

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– Realização de pagamento por conta da dívida exequenda por parte do Técnico Oficial de Contas do sujeito passivo.

A contrario, devem considerar-se desprovidas de qualquer eficácia interruptiva do prazo

prescricional, designadamente, as seguintes diligências:

– Telefonema efetuado por funcionário da administração tributária ao contribuinte devedor15;

– Convocatória para uma reunião realizada no âmbito de um plano de análise e actualização dos dados registados na Segurança Social16;

– Instauração do processo de execução fiscal17;

– Requerimento de reconhecimento da existência de dívida18;

– Notificação do acto de enquadramento [artigo 144.º, n.º 4, do Código Contributivo]19;

Neste contexto, sem prejuízo de não ser este o local indicado para o aprofundar da sua análise, considera-se que a natureza especial do artigo 187.º, n.º 2, do Código Contributivo afasta, desde logo, a aplicação do artigo 49.º, n.º 1, da Lei Geral Tributária no âmbito do regime de prescrição das contribuições e quotizações para a Segurança Social [artigo 7.º, n.º 3, do Código Civil].

Deste modo, exceptuado o caso do acto de citação para o processo de execução fiscal20, todos

os demais aí previstos [a reclamação, o recurso hierárquico, a impugnação e o pedido de revisão oficiosa da liquidação do tributo] não possuem qualquer aptidão a produzir o efeito interruptivo do prazo de prescrição das dívidas provenientes de contribuições e quotizações para a Segurança Social.

15 Cfr. acórdão do TCA-Sul, de 21.04.2009, proferido no processo n.º 02938/09.

16 Cfr. acórdão do TCA-Norte, de 03.05.2012, proferido no processo n.º 00568/10.3BEBRG.

17 Cfr. acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 26.09.2007, proferido no processo n.º 0458/07. 18 Cfr. acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 22.03.2011, proferido no processo n.º 0165/11.

19 Considerando que este se trata de um acto administrativo que visa tão só enquadrar determinada situação de facto relativa a um trabalhador num regime de Segurança Social e não, como aqui se exige, exprimir a vontade da entidade credora em apurar ou cobrar determinada quantia.

20 O qual tem vindo a ser considerado, para este efeito, com uma diligência administrativa tendente à cobrança do referido tributo e, por isso, dotado de eficácia interruptiva do prazo de prescrição das contribuições para a Segurança Social [cfr., entre outros, o acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 29.04.2009, proferido no processo n.º 0190/09 e de 23.11.2016, proferido no processo n.º 01121/16 e do TCA-Norte, de 16.02.2017, proferido no processo n.º 00758/06, todos acessíveis em www.dgsi.pt].

No entanto e, salvo o devido respeito, esta asserção não deixa de se afigurar algo incongruente em face daquele que vem sendo o actual entendimento jurisprudencial sobre a matéria em questão. Por um lado, na medida em que é hoje pacífico que, no âmbito do processo de execução fiscal, o órgão de execução fiscal pratica, quer actos administrativos em matéria tributária [v.g. a decisão dos procedimentos de pagamento em prestações, dação em pagamento ou de constituição de garantia], quer actos de natureza eminentemente processual ou judicial [v.g. a penhora, a citação, a verificação e graduação de créditos]. Por outro lado, porque, segundo a jurisprudência do STA, um dos exemplos paradigmáticos destes actos de natureza processual, é precisamente a citação para o processo de execução fiscal [cf. entre outros, o Acórdão do Pleno da SCT, de 07 de Junho de 2017, proferido no processo n.º 0557/14, acessível em www.dgsi.pt].

Ora, se assim é, se a citação constitui efetivamente um acto de natureza processual, como pode, para este efeito, ser considerada, ao invés, uma diligência administrativa?

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Questão diversa será, contudo, a de saber qual a eficácia [instantânea ou duradoura] a atribuir ao efeito interruptivo da citação para o processo de execução fiscal, mas essa análise, enfim, terá inelutavelmente de ser relegada para outra ocasião21.

Em todo o caso, a expressão “qualquer diligência administrativa” neste âmbito utilizada pelo artigo 187.º, n.º 2, do Código Contributivo não deixa margens para dúvidas, os factos interruptivos que preencham esse conceito relativamente indeterminado, uma vez verificados, provocam a interrupção do prazo prescricional, de forma instantânea [artigo 326.º, n.º 1, do Código Civil] e sucessiva [interrompendo-se tantas vezes quanto os factos interruptivos que venham a ocorrer].

Nessa medida, deverá considerar-se aqui inaplicável o disposto no artigo 49.º, n.º 3.º da LGT segundo o qual “a interrupção tem lugar uma única vez, com o facto que se verificar em

primeiro lugar”22.

No que diz respeito aos factos suspensivos do prazo prescricional das dívidas provenientes de contribuições e quotizações para a Segurança Social, estes passam, em especial, pelo período durante o qual se mantém o plano de pagamento em prestações [artigo 189.º, n.º 2, do Código Contributivo] e, em geral, pelos demais previstos no artigo 49.º, n.ºs 4 e 5 da LGT [aqui aplicável por via do artigo 187.º, n.º 3, do Código Contributivo]23.

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