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INTRODUZINDO AS JOVENS NOS SEUS CONTEXTOS PRIMÁRIOS

1. Apresentação das raparigas entrevistadas

2.5. Os homens e o controle da vida das mulheres

Apesar de, em várias das famílias destas jovens, os homens não serem o ganha-pão, ou não viverem no agregado, o controle que exercem ou exerceram na vida das mulheres, quer na geração das avós, quer na das mães, quer nalguns casos na geração das jovens e das irmãs, é algo que aparece saliente nas experiências relatadas. Isto acontece enquanto namorados, maridos ou companheiros. Como já se referiu, várias avós e mães tiveram que criar sozinhas os seus filhos e até netos. Apesar da estrutura familiar parecer, em muitos casos, organizar-se de forma diferente (padrastos, relações não registadas...), a figura parental parece ter muita influência na trajectória destas mulheres, referenciada como a mão dos castigos, punições, constrangimentos e restrições. As raparigas que vivem com o pai têm experienciado um maior controle das suas vidas por parte deste.

Fernanda: Além de gostar dele, não tenho sido muito carinhosa para o meu pai, como costumam ser os filhos,

porque ele não entende certas coisas. Sempre que lhe digo: - "olha pai, vou sair com os meus colegas, vou até à Ribeira". Ele fica logo revoltado. Eu até compreendo, ou é, porque não teve uma boa infância e não quer que a gente tenha (...), ou é por ser mais velho, ou é porque tem medo (...). Hoje em dia, uma rapariga quer sair à noite, e ele não compreende. Eu converso mais com a minha mãe, mas quando ela diz que sim, o meu pai fica logo chateado.

Este depoimento manifesta, também, uma tentativa de compreensão pelos argumentos do pai (idade, medo, não ter tido oportunidades na infância), ainda que acompanhada de revolta. Mas esses mesmos argumentos não se aplicam aos filhos rapazes, pois, como refere a Fernanda, com o irmão não se comporta da mesma maneira: "a ele, não se importa que saia".

Por sua vez, a Sónia fala não só dos conflitos entre o pai e a mãe, mas também dos constrangimentos que lhe são impostos a si e à sua irmã, e da influência que isso teve na maternidade e no casamento precoce desta. Muitas vezes, maternidade e casamento precoces aparecem associados ao quadro do controle da vida das raparigas e como tentativas de se libertarem desse controle, antecipando sentimentos de liberdade que, muitas vezes, as conduzem a situações não muito fáceis. Contudo, parece permanecer, simultaneamente com os queixumes, um certo endeusamento da figura masculina:

Sónia: Às vezes, se não fosse assim tanto... Ele podia ser mais carinhoso do que o que é. O meu pai

separou-se da minha mãe e a minha irmã foi junto com ela. Por um lado, acho que a minha irmã também queria ver-se livre: ela foi junto com a minha mãe, porque o meu pai não lhe dava liberdade. O meu pai era uma pessoa que se a gente quisesse sair, ia com pouca responsabilidade e com medo. Ela já namorava com ele, só que o meu pai não apoiava. Achava que ela ainda era muito novinha, que não era tempo para namorar e dizia que a gente só podia namorar a partir dos 17, e com autorização. A gente: "está bem!!" A minha irmã quis ser mais... Pronto, ela queria namorar à vontade, não queria tomar conta das minhas irmãs e, então, encarou aquilo como a pedir que queria sair à vontade dela. Então, a única coisa para se agarrar, para sair de casa, foi uma relação com um rapaz que gostasse. Então, ela gostou daquele rapaz, e aquele rapaz gostou dela, prontos.

A decisão da irmã de sair de casa, para além dos conflitos com o pai, parece estar ligada à sua recusa em relação ao trabalho doméstico e cuidado dos irmãos, impostos pelo pai.

Contudo, quando as raparigas mais velhas vão para o trabalho pago, parece que o trabalho doméstico e o cuidado dos irmãos são transferidos para as irmãs seguintes (ver também Gaskell, 1 992).

Quando os pais não impedem totalmente as saídas, uma outra forma de controlar a vida das raparigas parece ser obrigá-las a sair acompanhadas dos irmãos mais novos.

Sónia: Então, a minha irmã não queria nada aquilo, queria fazer uma coisa só. O meu pai não nos dava a

liberdade que gente queria, tínhamos que levar as irmãs sempre connosco. Foi uma maneira de ela sair, despistar-se da vida que levava. A minha irmã é que fazia a vida de casa, antes de ser eu. Eu trabalhava e ela fazia a vida de casa.

Este controle é imposto apenas às raparigas. A Sónia tem um irmão e este não tem, nem restrições nas saídas, nem responsabilidades familiares, pelo facto de "ser homem", o que vai moldando noções presentes e futuras de masculinidade, mas também de feminilidade.

Sónia: O meu irmão é homem: levanta-se à hora que quer, come quando quer, entra em casa às horas que

quer. O meu pai não diz nada e, quando sou eu, o caso já muda de história. Acho que um homem faz o que quer da vida dele (...). Faz da vida dele o quer, porque não tem responsabilidade pelos filhos, não é ele que calça, não é ele que veste, nem é ele que prepara a roupa.

Como temos vindo a realçar, frequentemente, são os homens que saem de casa e as mulheres ficam com as responsabilidades familiares. Contudo, no caso da Sónia, a dominância masculina exerce-se contra as mulheres, usando o património familiar para impor o abandono da casa.

Na teorização de tradição marxista, a família monogâmica estaria relacionada com a transmissão da propriedade privada (herança) assim como com a função de reprodução social. A questão da propriedade nesta família é usada para expulsar a mulher da casa. Neste caso, conta-se com o suporte das filhas mais velhas que vão aguentar as principais responsabilidades familiares: trabalho doméstico, compras, cuidar dos irmãos, restringindo as suas possibilidades e horizontes, nomeadamente a entrada no trabalho assalariado e o lazer. Esta situação é vivida e reflectida numa complexa ambivalência entre a compreensão da situação do pai e a da mãe e o seu lugar como rapariga, como o relato nos mostra:

Sónia: Desde que a minha mãe se separou do meu pai, vivo com o meu pai. Ficamos com o meu pai. Teve

que ser. Agora vivemos quatro. A minha mãe não pôde escolher, porque a casa é do meu pai. A casa é da minha avó, foi a minha avó que a comprou, está em nome dela. É da mãe do meu pai, portanto a minha mãe é que saiu. Claro, que é o meu pai que me diz para fazer a vida de casa, porque não tem quem faça e, por outro lado, sou eu que quero.

A mãe desta jovem, face ao quadro de vida familiar que a atinge, vive numa situação ambivalente, quer quanto às responsabilidades para com os seus filhos, quer quanto ao exercício do trabalho assalariado: por um lado, recorre à situação de "baixa", para poder acompanhar e "andar à volta dos filhos" e, por outro, entende que cabe, agora, ao pai a vez de assumir a responsabilidade familiar8. De facto, a luta pela independência por parte da mãe, tem custado o

8 Tive oportunidade de conversar com a mãe desta jovem na rua, junto à casa onde vivem os seus

preço de ter que ser ela a abandonar a casa e deixar os filhos. As decisões não são tomadas em função de quem deve ficar com os filhos a cargo, antes são tomadas pela força da propriedade da habitação. São as escolhas possíveis num quadro de grandes dependências.

Sónia: A minha mãe está pelo Fundo de Desemprego e vem para lá para a minha rua. Vai lá todos dias, de

manhã até à noite, para estar com a gente. Não entra lá em casa. A casa é dos meus avós. Ela nunca encarou com os meus avós. Numa parte, os meus avós têm culpa, porque se a família não se metesse, também isto não chegava ao ponto que chegou. É a mesma coisa que se casar e viver com os sogros e juntar-se com as mães. É o que dá!.

As interpretações correntes sobre a família (amor, harmonia e trabalho) e o sobre o ideal de mulher (conforto e aconchego do marido e dos filhos, vivendo todos do sustento do "ganha-pão") levam a que, em caso de separação, seja atribuída à mulher uma grande dose de responsabilidade/"irresponsabilidade", por querer divertir-se depois de casada. Embora estes sentimentos estejam presentes no relato da Sónia, também não existe uma total aceitação da ideologia de género, apesar do desconforto da situação:

Sónia: O meu pai sempre gostou muito da minha mãe, andou sempre atrás, dela, andou sempre a pedir para

ela vir para casa. E a minha mãe tem qualquer coisa contra o meu pai. O meu pai pô-la fora de casa, mas ela também queria sair de casa. A minha mãe tem 37 anos. Quando teve o primeiro filho tinha 19 anos. Fui eu a primeira. Ela não queria ter responsabilidades, queria sair, queria-se divertir, porque tinha os meus irmãos pequenos. A minha mãe teve 10. Teve abortos, teve muitos filhos... Mas a minha mãe também, se fosse uma mulher coisa, tomava as pastilhas a horas e a tempo. Se ela e o meu pai tomassem mais um bocadinho de responsabilidade, acho que ela não dava tantos filhos como deu. Não se divorciam, isto é sempre assim, ficam 6 meses depois tornam, ficam bem. Os meus pais casaram-se sem gostar um do outro. Já andam nesta vida há 18 anos. Sempre a separar. Acho que, se não gostam um do outro, que se separem duma vez só. Já se juntaram e separaram tantas vezes! O tempo em que eles estiveram mais separados, foi este último. Não foi este último foi o outro. Estiveram p'ra aí quase 9 meses separados. Se não chegam a acordo um e outro, é melhor a separação (...).

No caso do pai da Teresa, para além da situação de abandono e mentira de que a mãe foi alvo quando engravidou, parece ter havido dificuldades de responsabilização do seu pai na assunção da paternidade, o que provocou muito sofrimento e gastos por parte da mãe. Quando isto acontece, as raparigas

é a vez do pai de cuidar dos filhos, pois estou saturada de trabalhar e ele a gastar o dinheiro que ganha. Agora preciso de descansar. É a vez dele assumir as suas responsabilidades" (registo do diário de campo).

parecem não mostrar interesse em se relacionarem com o pai e consideram que quem as ajudou a criar é que foi o seu verdadeiro pai. O valor da dita consanguinidade é, como temos vindo a desenvolver, posto em causa e não cegamente defendido:

Teresa: Nunca senti distinção nenhuma, tanto que eu nem o considero meu padrasto, considero-o meu pai. 0

meu verdadeiro pai, nunca conheci, mas também não quero nada dele. Já tive curiosidade em o conhecer, mas nunca tive vontade de o ir ver. Andaram em tribunal por minha causa, porque ele queria ficar comigo. Ele também era lá para aqueles lados, como a minha mãe. Quando eu nasci, a minha mãe tinha vinte anos. O meu pai era solteiro. Ela gostava dele, só que ela sofreu muito, porque ele mentiu-lhe. Ele nunca deu nada à minha mãe, mas eu também, tinha tudo! Nem eu quero nada dele. A minha mãe sofreu, numa certa parte, porque quando ela esteve para me ter, ele disse que ia para a Venuzuela, e não foi nada. Foi para S. João da Madeira. A minha mãe quando soube, deixou-o ficar. Depois, ele andou em tribunal, porque queria ficar comigo. Ela andava do Porto para Vila Real, para cima e para baixo [por causa disso]. Andou assim, durante muito tempo.

No que diz respeito à mãe da Fátima, era extremamente vigiada e alvo de controle "durante 24 horas" e, tanto a mãe como a sua avó, foram expulsas de casa "em desgraça", pelo avô. Esta situação obrigou-as a ir viver para casa de uma amiga casada, cujo marido parece ter-se "aproveitado" também da vulnerabilidade destas mulheres. Isto pode ser visto como um processo que vai ajudando a constituir as condições que empurram algumas mulheres para a prostituição, entendida num contexto de exploração da sexualidade feminina. Esta história talvez possa explicar em parte o encaminhamento da sua mãe para a prostituição e podemos constatar ainda quanto esta jovem se sente marcada por esta trajectória familiar, fortemente tecida na dominação masculina e num contexto de privação e dependência económica:

Fátima: O meu avô materno não queria que a minha mãe casasse com o meu pai, não queria que o meu pai

nos desse o nome de pai, não queria que a minha mãe engravidasse do meu irmão ... não queria que a minha mãe conhecesse o meu pai. Eu só sei que o meu avô chegou a ameaçar o meu pai: se ele me desse o nome de pai que o matava. A minha mãe nunca chegou a casar com ele, sob as ameaças do meu avô, porque ele nunca quis que a minha mãe namorasse para o meu pai. Quando a minha mãe ficou grávida de mim eles namoravam, mas o meu avô nunca quis que o meu pai casasse com a minha mãe. Não sei o que é que ele tinha contra o meu pai, porque ele nunca gostou dele. E, então, ele vigiava a minha mãe 2 4 horas por dia. Lembro-me de contarem que ele ia sempre vigiar a minha mãe. Diz o meu tio, a minha vizinha, a minha avó também e, mesmo o meu avô, deixavam escapar assim alguma coisinha. A minha mãe também em certas conversas também deixa escapar... E eu sou assim como aqueles computadores que capta tudo, e vou |untando assim as pecinhas umas às outras. E cheguei a saber, não sei se isso é verdade ou não, mas algumas das

más línguas e assim algumas pessoas, dizem que o meu irmão não é filho do meu pai. E eu sempre disse que isso que não era verdade, porque o meu irmão tem o nome do meu pai. O meu avô, uma vez, expulsou a minha mãe e a minha avó de casa, pô-las na rua. E a minha mãe andava com o meu pai nessa altura, ela tinha 19 anos e ele também. O meu pai andava na tropa, mas tinha vindo de folga e, então, no dia em que o meu avô as expulsou, a minha avó foi pedir ajuda a uma amiga e essa amiga era casada e o marido dessa amiga andava, como é que eu hei-de explicar, a atirar-se à minha mãe, queria ter alguma coisa com a minha mãe, e a minha mãe sempre a negar-se. E só se sabe que, depois da minha mãe ter vindo dessa casa, veio grávida. É por isso que as más línguas dizem, ou é do meu pai, ou é do outro senhor. A minha mãe diz que nunca teve nada com ele. Mas, quando as más línguas dizem alguma coisa é porque em parte é verdade, mesmo que seja 99% de mentira, em parte é verdade.

Em suma: mesmo nas situações em que a família tradicional funciona com uma certa estabilidade e é um espaço para apoios recíprocos, é salientada por parte das jovens uma maior distância no relacionamento com os pais (masculinos) e um maior controlo parental. Exerce-se quer na exigência do desempenho das tarefas familiares por parte das mulheres, quer sobretudo nas restrições ao seu lazer, nomeadamente quando envolve saídas. Isto não significa que não haja também um certo consentimento por parte das mães e alguma aceitação mesmo por parte das raparigas. Para poderem ganhar o direito a sair, têm que antes realizar o trabalho doméstico, não só para libertarem as mães da sobrecarga que enfrentam, mas também para ganhar um apoio maior delas. Quanto aos irmãos rapazes, estes não têm tantas ou nenhumas restrições. A idade para os rapazes parece ser o único passaporte necessário para ganhar o direito ao lazer dentro ou fora de casa.

No caso dos agregados familiares onde existem maiores problemas no relacionamento com as figuras masculinas, quer no caso das gerações das jovens, quer na das mães, o que parece ficar mais saliente nos depoimentos é uma relação parental baseado numa forte vigilância, controle e restrições de lazer: namoros, violência para com as mães ou para com as filhas. Esta situação levou ao abandono da casa, ou à expulsão nalguns casos, e empurrou à maternidade e/ou casamento precoce e, eventualmente, à prostituição, fenómenos que podem ser compreendidos num quadro de fragilidades e dependências (físicas, incluindo a violência sexual, emocionais e económicas). São tentativas de "independência", dentro de soluções de grande dependência (McRobbie,1991).