TRANSIÇÃO DA ESCOLA PARA O TRABALHO?
3. Eixos conceptuais estruturantes neste estudo 3 1 Para analisar a escolarização
3.2. Para conceptualizar formação profissional e trabalho
Nesta parte, procuraremos explicitar os principais conceitos que atravessam o espaço da formação profissional para as raparigas da classe trabalhadora. Parte-se do pressuposto de que as políticas educativas neste domínio se constituem em grande medida na lógica do "espaço estrutural" do trabalho (que Santos, 1990, conceptualiza como "espaço da produção"). Conforme já desenvolvemos neste capítulo, concebemos este espaço como uma das mais importantes esferas de produção da desigualdade, dentro da teoria de segregação ocupacional, na esteira da teoria feminista dual aternativa de Walby (1986 e 1990).
No contexto português, as políticas de formação profissional destinadas aos jovens que abandonam a escola fornecem um bom exemplo da segregação explícita de que as raparigas são alvo na preparação para o
mercado de trabalho6 6. As políticas, nomeadamente as destinadas à
juventude, continuam a ter uma conotação masculina.
Um dos conceitos centrais para a analise das experiências das entrevistadas no contexto da formação profissional é o de ideologia de empregabilidade, desenvolvido por Gaskell (1992). Entendemos que a constituição de categorias na escola e o encaminhamento das jovens para a formação profissional, são feitos com base numa ideologia e ética do trabalho, em que as noções de género e de classe são tomadas como garantidas e inquestionáveis. É esta ideologia de empregabilidade que providencia a base da reprodução das relações sociais de classe e de género, da cultura do trabalho para homens e mulheres, assentando numa correspondência entre a formação de competências técnicas que estes cursos proporcionariam e a sua capacidade de proporcionar empregos. É também a noção de que é necessário "tornar este espaço da formação profissional relevante e útil para os/as estudantes (...) - "fazer deles/as empregáveis" [ibidem:^), através da produção de uma congruência entre a vida da formação e a vida do trabalho.
A noção da ideologia da empregabilidade é coadjuvada, no caso mais específico das raparigas, pelo "simbolismo cultural" de uma forma idealizada de feminilidade (Griffin,1989), que define o "trabalho ideal para a mulher", nomeadamente, nos escritórios, nas lojas, etc.. Esta ideologia actua através da constituição de imagens que afirmam as vantagens, atracção e interesse do trabalho de escritório "limpo", prestigiado e seguro e, simultaneamente, promove a ideia de um estatuto de mobilidade vertical, em direcção a ser uma mulher branca da classe média, polida, com "aparência e comportamento femininos" (ibidemA 12). Esta forma idealizada de "feminilidade empregável", define o que constitui bom emprego para as mulheres, o que tem desempenhado um papel importante na divisão entre o "trabalho de homens" e "trabalho de mulheres". Apresenta a noção de "trabalho de escritório" duma forma unitária, cobrindo várias situações posicionais, quer de homens, quer de mulheres, "vários salários, vários tipos de empregos, vários status e hierarquias e vários tipos de competências, que dependem do tamanho, estrutura e função da organização" (/0:113). O trabalho de escritório envolve: fazer café, sorrir ao chefe e/ou aos clientes, dactilografia, recepção, telefone, fotocópias, arquivo, facturação, contabilidade, operar nos terminais de computador (trabalho subalterno, rotineiro e monótono,geralmente atribuído às
Esta situação pode ser exemplificada por dados de 1991 acerca das acções de formação profissional, em que as mulheres apenas participaram em 3 0 % do total das acções, apesar da
taxa de feminização do desemprego no 3o trimestre de 1994 atingir mais fortemente o género
feminino - cerca de 5 0 % . Também o número de formandos aprovados pelas acções de formação profissional coordenadas pelo IEFP entre 1989 e 1992 as percentaqen são similares(CIDM,1994).
mulheres), e um trabalho mais prestigiado, de decisão, mando, concepção, programação e controle (atribuído aos homens). A forma unitária com que o termo é utilizado tenta obscurecer a diversidade e complexidade das diferenciações que contém e as suas implicações quer em termos de classe, quer de género, raça ou idade.
Para apreender a dinâmica do emprego feminino em Portugal, tal como refere Virgínia Ferreira, é importante compreender o trabalho de escritório, já que este é "um símbolo por excelência" da realidade laboral actual6 7.
Outros autores têm referido também que a pressão que as mulheres enfrentam para o trabalho de escritórios pode ser relacionada com o chamado mercado sexual e mercado do casamento e da maternidade. Por um lado, o mercado sexual tomaria valores da atractividade percebida das mulheres para os homens e, daí, os critérios de selecção para o trabalho de escritórios relacionar-se-iam mais com competências de comportamento e aparência, baseadas na idade (ser jovem) e no "mito da beleza" feminina (branca e polida), do que com as competências técnicas - "serviço sexy com um sorriso" (Griffin,1989). Assim, no estudo da transição das raparigas da escola para o trabalho, nomeadamente das da classe trabalhadora, a ideologia da empregabilidade articular-se-ia com as pressões a que estas raparigas estão sujeitas em termos sociais e económicos para "arranjar um homem" (Griffin,1989; Gaskell,1 992). Estas pressões influenciariam a entrada das mulheres no mercado de trabalho, porque esperariam encontrar um homem com estatuto alto, um colarinho branco. Também as pressões para arranjar um emprego afectam o processo de "arranjar um homem" (mais despesas, mais actividades de lazer com os potenciais namorados). Também por parte dos empregadores, segundo demonstra, por exemplo, um estudo efectuado por Hazel Dowing, citado por Griffin (1989), os critérios de selecção por parte dos patrões das empregadas de escritório englobam competências académicas,
Esta autora, no seu estudo sobre a Informatização e Feminização dos Escritórios em
Portugal (1992) argumenta que o sector dos escritórios, ao longo das "últimas quatro décadas,
tem sido a área que mais tem absorvido o crescimento de mão-se-obra feminina" para além de que "desde 1 9 8 1 , é o segundo mais mumeroso dos sectores de emprego feminino", depois do pessoal docente (Ferreira, 1992:213). Ainda segundo esta autora, em 1 9 8 1 , as mulheres ocupavam 4 3 , 4 % do total do sector dos escritórios, o que correspondia a cerca de 1 6 , 8 2 % do total da população activa feminina, quando em 1940, estes valores eram apenas de 1 2 , 4 2 % e 0 , 9 9 % respectivamente (ibidem). As tendências de feminização dos escritórios em Portugal, embora tenham aumentado, tal como em muitos outros países, são bastante inferiores à maior parte dos países mais avançados, que possuem taxas de feminização superiores a 5 0 % (em muitos países variam entre 60 a 8 0 % , excepção para a Alemanha e Holanda que situa também nos 50%) (/0:215). A particularidade desta situação poderá parcialmente ser vista, como adianta a mesma autora, no "estatuto social comparativamente superior à que detém em países mais desenvolvidos", assim como ao facto de "no nosso país a informatização tradicional não ter registado uma grande difusão e não ter dado lugar à criação de muitos postos de trabalho tipificados como femininos" (/5:237).
comerciais e de "personalidade certa", tendo esta última uma relevância particular. "Aprender a fazer o serviço com um sorriso" requeria uma forma particular de feminilidade de rapariga de classe média. Este lado não técnico, traduzido na ênfase na aparência e nas maneiras de "mulher ideal", era considerado crucial no trabalho de escritório para a "esmagadora maioria dos dirigentes e influenciava os seus critérios de selecção" (Griffin,1989:127). Griffin cita, ainda, um relatório de Alfred Marks Bureau intitulado Prejudice at Work: a report on the personal attitudes of employers to their secretaries, realizado a 6 5 0 dirigentes homens em 1975, em que definiam como atributos duma secretária ideal: 4 0 % preferiam uma secretária com um nível cultural semelhante a eles próprios (i.é. classe média, branca) e 6 2 % preferiam mulheres entre os 20 e 25 anos (i.é. jovens). O mesmo relatório descreve, então, os "atributos de uma secretária ideal" que incluem: personalidade, bom tratamento, discurso claro, sentido de humor... A lista dos aspectos que não gostavam era longa: odor corporal, acentuação inadequada, discurso incorrecto, má pronúncia, tratamento pouco cuidado, maquilhagem exagerada, modo de vestir com roupas fora de moda, jóias de má qualidade, etc.. A personalidade indesejável incluía personalidade desadequada, maneiras e modos rudes, falta de sentido de humor, sorriso estridente, boateira ou pegajosa, ter borbulhas e pontos negros e, ainda, ser mulher com mais de três filhos. Claramente, estes critérios encerram especificidades de raça, classe, idade, cultura e género. Por isso, uma importante parte do trabalho de secretariado e escritório das raparigas parece ser o de desempenhar o papel de "objectos das fantasias sexuais dos dirigentes", que "geram uma quebra na rotina do seu trabalho" (Dowing cit. por Griffin,1989:128). Muitos destes aspectos parecem não se confinar aos empregos de escritório. Também muitas das "exigências" dos empregos de balcão, hospedeira de bordo, cabeleireira e até prostituição, etc. podem ser vistas com estes requisitos.
Portanto, a ideologia de género parece incorporar os trabalhos adequados para mulher e homem e, se a articularmos com a ideologia da empregabilidade, pode ajudar-nos a compreender a forma como são organizados e concebidos os cursos de formação profissional e o lugar que o Estado cumpre, através da concepção e execução de medidas de política, no encaminhamento destas jovens para um mercado de trabalho social e sexualmente discriminado. Uma das características mais salientes é que, diferentemente da escola coeducativa em que a "mixidade" {mixité) entre rapazes e raparigas é regra e uso" (Baudelot e Establet.1 992:1 59), nos cursos de formação profissional, "a mixidade (mistura) não procura salvar as aparências, separados à entrada, rapazes e raparigas são escolarizados separadamente em secções estanques" (ibidem). A reprodução das complexas
relações sociais de género e de classe está presente: nos tipos de cursos que são concebidos e "oferecidos" tanto a rapazes como a raparigas (mecânica auto, bate-chapas, canalizador v/s costura, técnicas de vendas, cabeleireira, técnicas administrativas, secretariado); na distribuição estereotipada dos/as alunos/as e, ainda, nas exigências de acesso de níveis de escolaridade de partida, diferenciadas segundo o género (por exemplo: costureira 4o ano e
canalizador 6a ano de escolaridade).
Na formação profissional, a par da construção social da subordinação das raparigas, também se ensina o que constitui ser trabalhadora, através do que se aprende e como se aprende. A sala de aula é igual ao posto de trabalho. Ensina-se e aprende-se a "cultura técnica" e a "moralidade" do posto de trabalho: fazer tarefas rápida e eficazmente, através do treino sistemático e detalhado, em que a concepção não compete às mulheres, separando-se, assim, a execução de concepção. Também, para a ideologia de empregabilidade, "ser empregável" é identificar-se com o ponto de vista dos empregadores. Nestes currículos, não se toca na perspectiva dos/as trabalhadores/as, criando-se a ideia de que talvez a tecnologia se possa virar contra eles/elas e de que não há conflito entre trabalhadores e empregadores. Ensina-se, pois, o que é ser "bom trabalhador" e "boa trabalhadora", em cursos separados - "rapazes a um lado e raparigas a outro", como referem Baudelot e Establet (1992). Transmite-se, assim, através de ideologias e práticas explícitas e implícitas, o lugar das raparigas e dos rapazes na divisão social e sexual do trabalho. Tudo isto é feito a pretexto do "mundo real" que é apresentado duma forma idílica e estereotipada, como se na "vida real" existisse harmonia. Mas, na vida histórica e real há conflitos de interesses, há tensões, lutas, resistências, fugas, etc., entre empregadores e empregados e entre homens e mulheres. Explora-se e reforça-se a ideia de que é possível entrar no mundo do emprego se se tiver uma atitude adequada: iniciativa suficiente, perseverança, tomada de decisões baseadas na eficácia e na maximização do lucro e, no caso das mulheres, que sejam ainda, apresentáveis e belas. Faz-se acreditar que, depois de tudo cumprido, se encontrará um emprego fácil, desde que para isso se adquiram as qualidades técnicas e pessoais de saber ganhar e conquistar um lugar (ver também Shilling,1989).
Procura-se, pois, valorizar uma certa prática e desprezar a teoria, o pensamento, a reflexão sobre a natureza e a história das relações sociais, o espírito crítico, a compreensão do mundo. Reproduz-se o local de trabalho na sua reificação, repetição, técnica e moralidade restritivas. Assim, o currículo dos cursos pode ver-se, não apenas no que é discutido, mas também no que fica por abordar: a desigualdade de género, o ponto de vista dos
trabalhadores/as, os baixos salários e, ainda, os mais baixos salários das mulheres.
A ideologia dos cursos é, como argumenta Gaskell (1992), a produção de uma hierarquia vertical do local de trabalho (ibidem), através da diferenciação simbólica dos estudantes e da constituição de diversas categorias atributivas baseadas na classe, género e capacidades cognitivas.
Um outro conceito pertinente para a análise diz respeito à natureza diferenciadora das políticas educativas, para diferentes tipos de jovens, verificada a partir dos anos 1980, e que assenta numa noção de flexibilidade. Para efeitos da nossa pesquisa, gostaríamos de referenciar aqui flexibilidade apenas no aspecto que diz respeito à negociação de diferentes interesses em presença. Como desenvolveremos mais adiante, queremos analisar os contextos que as jovens frequentam (ou frequentaram), não apenas como meros fenómenos de correspondência, reprodução ou inculcação, mas tentar compreender a "actividade das actoras" e as possibilidade de negociação de interesses vários e diversificados, que se poderão exprimir através de:
- ênfase na necessidade de diversificação e adaptação dos currículos para que se tornem populares para estes grupos;
- estratégias de negociação que poderão estar a envolver os "Centros de formação" e os próprios professores, no sentido de fazer valer os seus próprios interesses e os percepcionados acerca dos alunos;
- estratégias e interesses dos estudantes destes cursos, nomeadamente das raparigas que entrevistamos, no sentido de refazerem a realidade em seu benefício, no presente e para o futuro.