66 Cf nota anterior.
2.2 Trabalho e trabalhadores/as
2.2.3 Os horários de trabalho em estabelecimentos comerciais
A reflexão diacrónica em torno dos horários do comércio revela-se, em nosso entender, de importância estratégica para a compreensão da realidade sócio-laboral actual dos trabalhadores do comércio e da restauração, e da própria organização dos estabelecimentos comerciais96. Desde finais do século XIX e inícios do século XX, a luta pelos horários de trabalho tornou-se uma reivindicação que re(uniu) a classe do comércio. Muito surpreendentemente trata-se de uma história com aproximadamente cem anos de vida, mas cuja actualidade permanece inabalável. Na verdade, os horários das unidades comerciais
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Este contrato de trabalho foi publicado no Boletim de Trabalho e Emprego, nº 23, de 22 de Junho de 2006, 1ª série.
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Neste ponto apresentamos mais informação sobre o comércio do que sobre a restauração, em virtude da carência de informação relativa a esta.
actuais afiguram-se uma questão de extrema actualidade social e política, muito polémica dados os interesses contraditórios dos actores envolvidos.
Corria o ano de 1911 e os trabalhadores do comércio - à semelhança daqueles da restauração como já referimos - lutavam pelo descanso semanal, inseridos no contexto global de luta de todos os trabalhadores. A redução da jornada de trabalho inseriu-se no objectivo do Movimento Operário Internacional da jornada diária das oito horas, intimamente relacionado com a origem do 1º de Maio, dia do trabalhador. A luta pelo descanso dominical97 dos trabalhadores do comércio revestiu-se sempre de contornos particulares, constituindo a principal reivindicação da classe já nos finais do século XIX e mesmo depois da implantação da I República, quando se revelou uma conquista não consolidada98.
Efectivamente, a insegurança de tal conquista residia na precariedade dos acordos e das convenções negociados entre as antigas associações de classe dos empregados do comércio e as associações patronais, frequentemente quebrados pelo patronato. O incumprimento dos acordos e das convenções estabelecidas entre estas associações canalizou a luta de classe dos empregados do comércio para a exigência do descanso dominical na lei, o que chegou a concretizar-se várias vezes. Todavia, no tempo da Monarquia como no período da I República e até mesmo depois da instalação do Estado Novo em 1933, o direito foi sempre posto em causa devido à falta de fiscalização efectiva e de ausência de aplicação de sanções sobre aqueles que prevaricavam, frequentemente os comerciantes/patronato.
Em termos retrospectivos, poderemos destacar vários diplomas legais com interesse para o entendimento da questão do descanso semanal. Em 1844 surge a lei de 9 de Dezembro publicada no Diário nº290 pelo Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, que dava conta da missiva enviada pelo Papa Gregório XVI, a 14 de Junho de 1844, à Rainha portuguesa D. Maria II. O Papa, a requerimento da Rainha de Portugal, decide “reduzir a certos limites, o número de dias festivos, para assim atender às apertadas necessidades do povo, e especialmente dos que vivem do seu próprio trabalho. Acrescenta que o “Conselho dos Cardeais da Igreja Romana e Congregação de Ritos decreta e estatui pela autoridade Apostólica, que em Portugal se perceitue somente além dos domingos dias festivos, que vêm enunciados no mesmo decreto” (S/a, s/d). No referido decreto, o Papa sublinha a proibição do trabalho ao domingo e reduzia e fixava os dias santificados para a totalidade do território
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As análises retrospectivas sobre as origens desta luta pelo descanso dominical e a sua consagração em acordos, convenções e na legislação, vieram esclarecer que ainda muito antes de se ter tornado uma matéria laboral, fora matéria de índole religiosa.
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Para esta falta de consolidação contribuiu em muito a diversidade de ramos de actividade nos quais os caixeiros trabalhavam. Trata-se de diferente ramos de actividades a que correspondem diferentes estatutos sociais, que dificultam a coesão associativa, como veremos mais adiante.
nacional. É nessa sequência que o Cardeal Patriarca de Lisboa, Guilherme I, reafirma a necessidade do descanso dominical numa Carta Pastoral publicada no Diário do Governo. Será essa Carta que a Rainha de Portugal adoptará, transformando-a na primeira lei civil de descanso ao domingo, pela Portaria de 30 de Abril de 1853. Tendo por base esta Portaria foram emitidas ordens aos governadores civis, no sentido de velarem pelo cumprimento da lei e sancionarem os prevaricadores da mesma.
Apesar desta consagração legal, a questão do descanso dominical é fonte de polémicas pelos incumprimentos que gera. Na verdade, alguma imprensa mais antiga da classe dá conta precisamente da importância que esta questão assumia. O Jornal da Associação da Classe dos Caixeiros de Lisboa, datado de 1 de Abril de 1933, regista que o 1º domingo de Julho de 1888 terá sido o primeiro em que efectivamente se registou o encerramento convencionado na lei. Já no Porto, existira um acordo de 1890 entre a Associação da Classe dos Empregados do Comércio do Porto e o denominado Grémio Comercial, e outro datado de 1897, não totalmente respeitados.
Em 1904, o II Congresso Nacional da Classe dos Empregados do Comércio Congresso, discute fortemente a questão dos horários no comércio, para além de questões como a unidade da classe a nível nacional e a constituição da Federação Nacional das Associações de Classe dos Empregados do Comércio. Entre algumas conclusões apresentadas neste Congresso realizado em Lisboa, sobressai a necessidade de reclamar junto das entidades públicas competentes: a legislação sobre o descanso semanal ou dominical no território nacional; a regularização das horas de trabalho nos estabelecimentos comerciais; a legislação que invalide todos os contratos celebrados contra disposições legais e a fiscalização rigorosa da higiene nos estabelecimentos comerciais. No referido Congresso é aprovada ainda uma moção que propõe para Lisboa e Porto a constituição de duas comissões de resistência, para lembrar aos comerciantes o compromisso de não abrirem portas ao domingo, até ao momento em que o governo decrete o descanso dominical. Como já referimos, a 7 de Agosto de 1907 sai a lei do descanso semanal obrigatório, que é consequência da luta dos trabalhadores, em particular dos operários, porém o seu incumprimento é uma realidade tanto no comércio como na restauração. Após a implantação da República, as reivindicações dos trabalhadores em geral levaram à criação de um horário de trabalho definido pelas Leis nº295 e nº296, de 22 de Janeiro de 1915. A duração do dia de trabalho, não superior a 8 horas, e o total de horas semanais de trabalho, não superiores a 48 horas para os trabalhadores do comércio, foram definidos pelo Decreto-Lei 5/516 de 7 de Maio de 1919. De acordo com esta legislação, o Governo podia fixar as horas de início e de fim da jornada de trabalho, bem como o respectivo descanso. À entidade
patronal competia fixar os horários, sendo obrigada posteriormente a enviá-los aos inspectores do trabalho.
Muito embora estes diplomas legais já se refiram aos horários de trabalho, o conceito propriamente dito apenas surge regulamentado no Decreto-Lei 24/402, de 24 de Agosto de 1934. Neste refere-se que a duração do horário de trabalho deve ajustar-se às empresas e aos próprios trabalhadores, sendo estabelecida via contratos colectivos ou acordos entre Grémios99 e Sindicatos Nacionais100. É apenas com a criação do Instituto Nacional do Trabalho e da Previdência (INTP), em 1933, que no ano seguinte é possível zelar pelo efectivo cumprimento da duração do horário de trabalho.
Os horários de trabalho encontram-se em estreita relação com os horários de funcionamentos dos estabelecimentos comerciais. Ora os períodos de abertura e de fecho dos estabelecimentos constituíam matéria a ser decidida pelas Câmaras Municipais, que deliberavam num prazo de sessenta dias, uma vez consultados os organismos corporativos e submetidas as suas resoluções à aprovação do INTP, pelo seu delegado ou pela Repartição do Trabalho e Corporações (RTC) (Pereira, Teixeira, 2002, p.148).
Entre finais de 1930 e meados dos anos sessenta, nada de relevante há a registar em matéria de horários de trabalho, nem de períodos de abertura e de fecho dos estabelecimentos comerciais, o que não deixa de ser significativo quanto à relativa paralisia da melhoria das condições de trabalho no comércio, o que está de acordo com a natureza conservadora do regime.
Em termos laborais, em 1969, o regime jurídico do contrato de trabalho (Decreto-Lei nº49/408, de 24 de Novembro) estabelece a consagração do descanso semanal obrigatório, e sublinha que só muito excepcionalmente pode não coincidir com o domingo. Aí refere-se que o trabalhador tem direito a um dia de descanso por semana de trabalho, devendo o agregado familiar usufruir do mesmo dia de descanso. O Decreto-Lei 409/71 de 27 de Setembro clarifica os conceitos de período normal de trabalho (abarca o número de horas de trabalho que o trabalhador realiza em virtude de um acordo contratual), horário de trabalho (horas de início e de termo da actividade de trabalho e período de abertura, elaboradas pela entidade patronal) e período de abertura (horários de abertura ao público, que acaba por condicionar os horários de trabalho, dada a proibição de trabalho normal fora do período de funcionamento dos estabelecimentos comerciais). Neste diploma legal, é sublinhado que o comércio encerraria um dia completo por semana, preferencialmente ao domingo. Entre 1970 e 1971, os trabalhadores
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Eram organismos corporativos das entidades patronais.
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Foram criados, em 1933, em oposição aos sindicatos livres que existiam, e não tinham a possibilidade de defesa dos interesses dos trabalhadores.
do comércio lutaram por reivindicações que compreendiam: a adopção da semana inglesa que previa a semana de 44 horas de trabalho e o trabalho ao sábado até às 13h00; o aumento salarial proporcional ao acréscimo do custo de vida; o aumento do tempo de férias e dos subsídios; a equiparação do trabalho masculino ao trabalho feminino, com a correspondente salarial, o pagamento do 13º mês; a salvaguarda de regalias no momento em que os trabalhadores mudam de entidade patronal; a redução do direito à reforma para os 55 anos.
É apenas em 1977, com o Decreto-Lei de 75 -T/77, de 28 Fevereiro, que os horários de estabelecimentos comerciais foram alterados, tendo doravante autorização para funcionar entre as 8h00 e as 22h00 de um qualquer dia da semana101. Por via deste decreto é revogado o princípio da obrigatoriedade de encerramento de um dia por semana, o que significa que a abertura ao domingo deixou de apresentar limitações pela primeira vez. Cabia às Câmaras Municipais102 após audição das associações de trabalhadores, de patrões e de consumidores, e das entidades ministeriais do Comércio, do Turismo e do Trabalho, fixar o período de abertura dos estabelecimentos em função da especificidade atinente a cada um, em particular agora da sua localização territorial.
Mediante o Decreto-Lei nº268/82 de 9 de Julho, as Câmaras Municipais passam a autorizar, sempre que se justificasse, que os estabelecimentos como cafés e análogos estivessem abertos até depois das duas horas da madrugada. Em 1983 (mediante o Decreto- Lei nº417/83, de 25 de Novembro) procede-se à ampliação do período de abertura e diversifica- se o horário de funcionamento dos estabelecimentos comerciais. Aqueles em particular com inserção em centros comerciais, têm autorização para se encontrarem abertos entre as 6 horas da manhã e as 24 horas da noite de qualquer dia da semana. Por sua vez, a Portaria nº424/85, de 5 de Julho, visou uniformizar os períodos de funcionamento das diversas lojas instaladas nos centros comerciais.
O Decreto-Lei nº86/95, de 28 de Abril, mantém o período de abertura dos estabelecimentos comerciais para todos os dias da semana, entre as 6h e as 24h, incluindo os estabelecimentos integrados em centros comerciais. Pelo Decreto-Lei 48/96 de 15 de Maio, regulamentou-se que aos domingos e feriados as grandes superfícies comerciais103 encerram a
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Desta cláusula ficam de fora alguns estabelecimentos como cafés, cervejarias, e análogos, que podiam estar abertos até às 2 horas da manhã de qualquer dia da semana, e também estabelecimentos como discotecas, casa de fado e outros análogos, que podiam funcionar até às 4 horas da manhã de qualquer dia da semana.
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Ressalta destes diplomas legais acerca dos horários dos estabelecimentos comerciais, o objectivo de conferir às Câmaras Municipais, uma maior flexibilidade na definição e na autorização dos períodos de abertura e de fecho, mais ajustados aos consumidores.
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Correspondem aos estabelecimentos de comércio a retalho ou por grosso que disponham de uma área de venda contínua superior a 2000 m2 ou os conjuntos de estabelecimentos de comércio a retalho ou por grosso que, não dispondo daquela área contínua, integrem no mesmo espaço uma área de venda superior a 3000 m2 (Decreto-Lei nº258/92, de 20 de Novembro, p.5355).
partir das 13h, excepção feita aos meses de Novembro e Dezembro (salvaguardada pela Portaria nº153/96, de 15 de Maio). A excepção estende-se a outros estabelecimentos comerciais, por decisão dos municípios.
Em termos laborais, o Decreto-Lei nº398/91, de 16 de Outubro, introduz alterações ao texto legal de 1971, considerando que: o período normal de trabalho não pode exceder as 8 horas de trabalho diárias e 44 horas semanais (menos 4 horas do que no diploma de 1971); a duração de trabalho pode ser estipulada por convenção colectiva, em termos médios, podendo aumentar até duas horas, sem que o trabalho exceda as 50 horas (não se contabiliza aqui o trabalho suplementar). Finalmente, ainda por convenção colectiva, o trabalho diário daqueles que laboram exclusivamente nos dias de descanso semanal de outros trabalhadores, pode sofrer um acréscimo até ao limite de duas horas.
Já o Decreto-Lei 21/96 de 3 de Julho refere que os períodos normais laborais com mais de 40 horas diminuem duas horas, sendo que a jornada diária de trabalho não pode ir além das dez horas.
No seio deste ponto, apercebemo-nos da estreita articulação, ao longo do tempo, entre os horários de trabalho no comércio e os horários de abertura e de fecho dos estabelecimentos comerciais e dos conflitos de interesses subjacentes à sua regulamentação.
Capítulo 3 – Grupos profissionais no comércio e na restauração e centros comerciais