• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1. A ATUAÇÃO DAS MULHERES NA CONSTRUÇÃO DOS LAÇOS

1.4. Os impasses da formação do proletariado no Brasil

Durante os anos de 1888-1889, os ex-senhores e os ex-escravos de São Paulo deram início ao não costumeiro exercício de barganhar e negociar um com o outro a respeito das condições sob as quais o último trabalharia para o primeiro.164

Essa relação seria mais intensamente alterada com a vinda dos imigrantes europeus para o Brasil. Após a abolição da escravatura, os cafeicultores

Em vez de procurar trabalhadores livres desocupados em outras regiões do país (principalmente no Nordeste, que se achava em declínio econômico), tentaram a partir de 1870, substituir seus escravos por mão de obra imigrante. A única função que viam para os brasileiros nativos era o trabalho pesado, como a derrubada de matas virgens.165

163 FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo/Rio de Janeiro: Difel, 1976, p.

160.

164 ANDREWS, George Reid. Negros e brancos em São Paulo (1888-1988). São Paulo: Edusc,

1998, p. 93.

165 SKIDMORE, Thomas E. Preto no Branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro (1870-

Tanto os grandes fazendeiros quanto o Estado brasileiro privilegiaram a mão de obra imigrante em detrimento da nativa, porém, embora na opinião dos donos do café, o trabalhador imigrante fosse mais “confiável” e “competente”, o que estava de fato sendo discutido entre as elites e o governo era um projeto de branqueamento racial no país.166 A vinda desses imigrantes, maioria de italianos, portugueses e

espanhóis, não implicou a mudança das relações de trabalho, ao contrário, elas permaneceram sendo pautadas no mandonismo e no poder.

Nesse sentido, conforme indica Maricato, recuperar a maneira como foi efetuada a abolição em 1888 e a intensificação da imigração europeia, isto é, a substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre é “de suma importância para entender o processo de industrialização e a formação do proletariado urbano.”167

As raízes do pensamento escravagista que sobreviveram no país por mais de três séculos ainda estavam muito presentes quando da vinda desses imigrantes. Em razão disso, os conflitos não demoraram a aparecer, pois muitos se queixavam de que eram tratados como escravos168, isto é, experienciando condições de

moradia, alimentação e trabalho semelhantes. Em relação à forma como o imigrante europeu foi inserido no Brasil, destacam-se dois projetos distintos:

Colônias agrícolas de povoamento (especialmente no Rio Grande do Sul), em que eram oferecidos lotes de terra que deviam ser pagos com trabalho, e trabalho na lavoura comercial cafeeira (principalmente no estado de São Paulo), em que vigorava um sistema que era parte monetária (salários e pagamento por tarefas), parte camponês (era permitido aos lavradores cultivar gêneros alimentícios para a sua subsistência entre as fileiras dos cafezais).169

Verifica-se que, na maior parte das vezes, oferecia-se alimentação e moradia

166 Cf. SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no

Brasil (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 1993, 12° reimpressão. Cf. SKIDMORE, Thomas E. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

167 MARICATO, Ermínia. Metrópole Na Periferia Do Capitalismo: Ilegalidade, Desigualdade e

Violência. São Paulo, 1995, p. 16. Disponível em:

<http://www.fau.usp.br/depprojeto/labhab/biblioteca/textos/maricato_metrperif.pdf>. Acesso em 15 ago. 2017.

168 COSTA, Emilia Viotti da. A Abolição. São Paulo: Global, 1982, p. 33.

169 NOBREGA, Ricardo; DAFLON, Veronica Toste. Da escravidão às imigrações: raça e etnicidade

nas relações de trabalho no Brasil. IUPERJ, Rio de Janeiro, 2009, p.15. Disponível em: <http://www.academia.edu/.../Da_escravidão_às_migrações_raça_e_etnicidade_nas_relações>. Acesso em: 18 ago. 2017.

como forma de pagamento aos trabalhos prestados nas fazendas. A forma como se efetuaram as relações de trabalho no Brasil nos fins do século XIX demonstra a sobrevivência de uma cultura “paternalista”, legado do regime escravagista em que o senhor, proprietário de terra, concedia ao imigrante o favor de deixá-lo trabalhar em sua propriedade. Assim, observa-se nesse recrutamento de trabalhador a persistência de padrões derivados do sistema escravista.170

Nesse contexto, a constituição do operariado fabril encontrou nas raízes escravagistas um obstáculo, dado que havia a persistência da cultura de que o trabalho era um benefício, restando àqueles que trabalhavam agradecer pela regalia concedida. Em razão disso, os operários encontraram uma barreira para a obtenção de uma simples remuneração, todavia, nos casos em que ela existia, “o pagamento de salário a esses operários era ainda concebido como uma novidade excepcional.”171 Embora o imigrante europeu tenha tido uma relevante importância

para a constituição do operariado, “os primeiros proletários foram recrutados nos anos anteriores a 1888, entre as camadas mais pobres da população urbana.”172

Em decorrência das condições dispensadas a esses proletários, tais como “jornada de 13, 14 e até 15 horas por dia, não tendo direito ao descanso semanal remunerado aos domingos”, ou seja, formas de vida e de trabalho não muito diferentes – guardadas as devidas proporções – às quais os escravizados estavam submetidos, quando a “campanha abolicionista intensificou-se nos anos oitenta, dela participaram alguns setores do proletariado.”173

O proletariado não podia constituir-se realmente como nova classe enquanto houvesse escravos na sociedade brasileira. Não podia lutar por sua própria libertação enquanto houvesse, ao lado do trabalho assalariado, formas de exploração baseadas na escravidão institucionalizada.174

A persistência da escravidão no Brasil era uma barreira à formação da classe

170 Ibid., p. 15. 171 Ibid., p. 14 172 Ibid., p. 16.

173 NOBREGA, Ricardo; DAFLON, Veronica Toste. Da escravidão às imigrações: raça e etnicidade

nas relações de trabalho no Brasil. IUPERJ, Rio de Janeiro, 2009, p.12. Disponível em: <http://www.academia.edu/.../Da_escravidão_às_migrações_raça_e_etnicidade_nas_relações>. Acesso em: 18 ago. 2017.

trabalhadora, pois ela não poderia lutar por questões “individuais” enquanto houvesse, “formas de exploração baseadas na escravidão institucionalizada”, conforme colocado por Hardman.

Embora esses imigrantes tenham sido convocados com a finalidade de ocupar e trabalhar nas áreas rurais, com a intensificação do processo de urbanização e industrialização do país em fins do século XIX e começo do século XX, observa-se a inserção desses imigrantes - especialmente italianos, em São Paulo - na formação do operariado fabril175 e, desde as primeiras fábricas, as

mulheres já eram presença marcante.