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OS JOGOS HARMÔNICOS DAS FACULDADES COGNITIVAS COMO BASE

2. A HARMONIA ENTRE RAZÃO E NATUREZA (II): OS SINAIS ESTÉTICOS DE

2.3. OS JOGOS HARMÔNICOS DAS FACULDADES COGNITIVAS COMO BASE

Antes de procurar esclarecer a dinâmica do livre-jogo entre imaginação e entendimento, é preciso registrar um alerta: a estrutura do jogo livre entre as faculdades cognitivas permanece insuficientemente exposta. Assim reconhece o próprio Kant ao afirmar no Prólogo à primeira edição da CFJ56:

[...] espero que a grande dificuldade em resolver um problema que a natureza complicou tanto possa servir como desculpa para alguma obscuridade não inteiramente evitável na sua solução, contanto que seja demonstrado de modo suficientemente claro que o princípio foi indicado corretamente. (CFJ, IX-X, p. 14).

A dificuldade referida por Kant repousa não na indicação do princípio, mas no desenho de sua dinâmica, pois, embora os juízos estéticos guardem proximidade com os processos cognitivos – ainda que em nada contribuam para o conhecimento das coisas –, o que permanece “enigmático” é a referência ao sentimento de prazer (ou desprazer), exatamente o sinal de um estado lúdico e estético de nosso ânimo (Gemüt).

56 . O “Prólogo” à primeira edição é uma das partes mais antigas da CFJ. Essa ao menos é a interpretação

sustentada por Giorgio Tonelli (1954), referência clássica no debate sobre a datação desta obra. No estudo do autor italiano, a ordem cronológica da elaboração das diversas partes da CFJ é assim apresentada: 1) Analítica do belo; 2) Dedução; 3) Dialética; 4) Primeira Introdução, 5) Analítica do sublime; 6) Crítica do juízo teleológico; 7) Segunda introdução e Prefácio. Os parágrafos 23 e 30 pertenceriam à fase 5 ou 6. Os procedimentos adotados por Tonelli para estabelecer essa ordem foram a análise da correspondência de Kant e a análise da ocorrência e ausência de certos conceitos. Marcar esse aspecto da organização da CFJ não é um preciosismo analítico, mas algo que permite compreender por que existem certas lacunas ou ausência de uma ligação mais direta entre certas partes do texto, como, por exemplo, entre as introduções e a “Analítica do belo”.

Dessa forma, são dois os teoremas que deveriam ser explorados a partir de agora, apesar das dificuldades já anunciadas pelo próprio Kant: (2.3.1) a dinâmica do jogo livre entre imaginação e entendimento no contexto dos juízos reflexivos; (2.3.2) o modo como esse estado se revela por um sentimento (de prazer ou desprazer).

2.3.1. Reflexão e jogo livre

O projeto da CFJ, conforme apresentado na “Introdução”, unifica-se na noção de juízo reflexivo, que pode ser aplicado tanto à parte estética como à parte teleológica. Kant na CRP já havia definido o ato de julgar: “[...] a faculdade de julgar será a capacidade de subsumir a regras, isto é, de discernir se algo se encontra subordinado a dada regra ou não” (CRP, B172, p. 177). Na CFJ a definição ganha um contorno diferente: “A faculdade do juízo em geral é a faculdade de pensar o particular como contido no universal” (CFJ, BXXVI, p. 23). Num de seus usos, a faculdade do juízo simplesmente aplica conceitos gerais (universais) a casos particulares. Como tal, o juízo é determinante. Porém, freqüentemente nos encontramos diante de situações que expõem objetos (ou cenas) para os quais nos faltam conceitos universais aplicáveis. Nesse caso, exige-se um juízo reflexivo, que busca e desenvolve um conceito universal apropriado.

No caso de processos cognitivos, o entendimento responsabiliza-se por “oferecer”, frente às intuições do particular, os conceitos universais de onde os dados serão subsumidos. Os juízos teóricos são, assim, sempre determinantes, e a faculdade de julgar desempenha aqui um papel bastante discreto. Na medida em que o universal não está imediatamente disponível, a faculdade de julgar precisa operar, deixando de ser coadjuvante, para poder providenciar o conceito que vai compor o juízo. Aqui é preciso alertar para o seguinte: seria uma interpretação equivocada simplesmente pensarmos a busca de conceitos por parte dos juízos reflexivos como busca de conceitos gerais ordinários de primeira ordem. Isso porque tal perspectiva nos obrigaria a aceitar que os motivos para o uso do predicado “belo” num juízo estético sumiriam no mesmo momento em que encontrássemos um conceito geral aplicável ao

objeto em questão. Assim, parece justificável a posição de Henrich (1992, p.43): “A situação estética deve ser compreendida de modo que não colida com um fato inquestionável: os juízos estéticos são compatíveis com toda maneira concebível de classificação e teorização de um objeto dado – desde que estejamos expostos àquele objeto numa situação perceptiva57”. Não poderíamos pensar, portanto, os juízos reflexivos como radicalmente incompatíveis com os determinantes: ambos estão se referindo a uma situação perceptiva. Isso, no entanto, gera um outro impasse: já ficou demonstrado na doutrina do esquematismo da CRP que as categorias ou conceitos estão sempre à nossa disposição. Ora, o julgamento estético pressupõe sempre que o objeto seja dado, seja posto numa situação perceptiva. Qual é a natureza, então, de nossa “preferência” por um approach estético, não cognitivo, com relação ao objeto?

Dada essa dificuldade de aceitar que os conceitos reflexivos estejam perigosamente próximos dos determinantes (a priori), restaria a hipótese de que a função do juízo reflexivo é buscar conceitos empíricos. A natureza de tais conceitos tem a ver com a seguinte dinâmica: comparamos os objetos dados, refletimos sobre o que possuem em comum e abstraímos o resto. O que possuem em comum converte-se em conteúdo de um conceito que se aplica aos objetos em questão. Entretanto, segundo Henrich (1992, p. 46), dois elementos inviabilizam esse caminho: em primeiro lugar, os juízos estéticos são e se mantêm como juízos singulares, nunca podendo ser substituídos pela aplicação de conceitos descritivos; em segundo lugar, a situação em que adquirem sentido não inclui nenhuma comparação com outros objetos58.

Os resultados que atingimos até agora não são muito animadores e revelam o surgimento de um impasse: de um lado, a base dos juízos estéticos não pode se restringir a uma relação entre imaginação e conceitos a priori; de outro, recorrer a

57 . “The aesthetic situation must be understood in a way that does not collide with an indisputable fact: aesthetic

judgments are compatible with every conceivable way of classifying and theorizing over a given object – provided we are exposed to that object in a perceptual situation”.

58 . A idéia de que a beleza não pode ser extraída de algum modelo, ou padrão ou ser simplesmente definida

conceitos empíricos de primeira ordem também é inviável. A saída desse dilema talvez possa estar na “Introdução” da CFJ.

Para Kant, o jogo livre das faculdades tem início no mesmo lugar do processo de conceitualização, advertindo, porém, que a atitude estética surge antes que intentemos uma comparação de um objeto com outros. O conceito-chave para elucidar esse lugar especial onde ocorre o livre-jogo é o de apresentação (Darstellung). Parece, pois, ficar claro que Kant enlaça a experiência estética ao processo cognitivo sem, no entanto, intelectualizá-la. Como um evento mental próximo ao conhecimento, a experiência estética é capaz de encontrar a unidade interna na complexidade dos objetos que descrevemos como belos. Segundo Henrich (1992, p. 50), “a imaginação providencia a complexidade; e a concordância com a estrutura geral da apresentação [Darstellung] providencia a concisa unidade da forma59”. É na percepção que podemos encontrar ambos os traços, porém a harmonia entre imaginação e entendimento revela- se unicamente por meio da operação reflexiva, que, por sua vez, faz referência contínua ao que somente o entendimento pode alcançar.

2.3.2. Jogo livre e sentimento de prazer

Com o que foi exposto até agora ainda não resolvemos uma questão fundamental para a sustentação dos juízos estéticos: de que forma a liberdade da imaginação entra em jogo. Como já salientamos, a harmonia do jogo se dá entre a imaginação em sua liberdade e o entendimento em sua legalidade – o entendimento jamais pode operar de outra maneira. No contexto cognitivo, a imaginação não é livre, mas, sim, precisa dar conta de uma série de “tarefas”, desde sintetizar os dados da intuição de acordo com as categorias do entendimento até conceber imagens adequadas para apresentação de conceitos empíricos. No entender de Henrich (1992, p. 50-51), pensar a imaginação como livre só é possível na medida em que levamos em conta os méritos de sua plasticidade inerente, ou seja, uma capacidade que realiza

59 . “Imagination provides the complexity, and the accordance with the general structure of exhibition provides

tantos serviços deve ter potencial para operar de um modo que seja natural a ela mesma. Como as funções “não-livres” da imaginação poderiam ser reduzidas à constituição de formas e modelos particulares, a atividade livre pode ser caracterizada como aquela que passa pelas multiplicidades de várias maneiras, produzindo esboços de formas sem aspirar a formas particulares e sem se deter quando tais formas tenham sido alcançadas. Essa atividade livre da imaginação é o que Kant poderia estar entendendo por “vivificação”, atividade que é prazerosa em si mesma.

A caracterização da imaginação agindo em liberdade não é ainda suficiente para esclarecer o que acontece quando entra no jogo harmonioso com o entendimento. O jogo não pode ser efetuado antes (no sentido causal) que a livre-atividade da imaginação tenha como resultado a criação de formas que correspondam a traços gerais de apresentação de um conceito empírico. Só nesse caso a legalidade do entendimento pode atuar de uma forma não coercitiva, significando que, nesse caso, a faculdade do entendimento se abstém de interferências, aceitando e aprovando a continuação da atividade livre.

A essa altura já podemos repor a suspeita que se encontrava latente quando resolvemos investigar mais a fundo a questão do jogo entre imaginação e entendimento. Como já foi afirmado, este deve se dar dentro de uma situação perceptual. Não poderíamos julgar com legitimidade algo belo (no sentido kantiano) sem intuí-lo; a apresentação (Darstellung) exige que a forma de um objeto empírico seja produzida. A aparente contradição disso com a idéia de uma imaginação livre cai por terra ao levarmos em conta que é bastante razoável que um objeto ofereça à percepção exatamente aquela forma que a imaginação criaria na sua atividade livre. Quando essas condições são atendidas, o resultado é uma disposição do ânimo (Gemüt) em prolongar no tempo o estado de prazer contemplativo; ao objeto de tal contemplação chamamos “belo”.

Poderíamos falar, desse modo, de uma “adequação” fundamental, testemunhada pelo prazer da beleza, entre a forma geral dos objetos belos e a atividade livre da

imaginação. Não há incompatibilidade entre conhecimento e juízo estético; ao contrário, a “[...] atividade intensificada do entendimento depende da observação de uma concordância de sua própria atividade com a liberdade da imaginação60” (HENRICH, 1992, p. 52).

2.4. O PRINCÍPIO TRANSCENDENTAL DA “CONFORMIDADE A