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2. A HARMONIA ENTRE RAZÃO E NATUREZA (II): OS SINAIS ESTÉTICOS DE

3.2. A ESPECIFICIDADE DO SUBLIME

3.2.1. Por primeiro, grandeza e quantidade

A demonstração da especificidade do ajuizamento estético do sublime deverá seguir, afirma Kant, a mesma estrutura da “Analítica do belo”, exceção feita ao fato de que deve começar pela quantidade, não pela qualidade. No gosto, a qualidade vinha primeiro exatamente para definir o seu âmbito fora do interesse direto pela existência do objeto e delimitá-lo a um prazer despertado pela simples representação da finalidade formal do objeto. Uma relação que encontra satisfação (complacência) no objeto mesmo é marcada pelo agradável ou pelo bom – enquanto expectativa pelo atendimento de um fim. Como já salientamos, no sublime a forma não dispõe de uma função direta. O objeto ajuizado como sublime só suscita tal experiência porque escapa da forma.

Outra diferença com relação à “Analítica do belo” é a introdução de uma classificação suplementar. O exame agrupará a análise das quatro categorias em dois conjuntos: do matemático-sublime (Vom Mathematisch-Erhabenen), englobando os parágrafos 25, 26 e 27, e do dinâmico-sublime da natureza (Vom Dynamisch-

Erhabenen der Natur), englobando os parágrafos 28 e 29. Essa divisão não significa

que existem dois tipos diferentes de sublime, mas, sim, que será considerado, matematicamente, primeiro (englobando a quantidade e a qualidade) e, dinamicamente, por segundo (englobando a relação e a modalidade)82.

82 . Não é necessário para a validação da hipótese que conduz os raciocínios aqui arrolados, considerar cada um

desses momentos em separado. Deve-se observar que as fronteiras entre eles não estão nítidas nem mesmo na CFJ.

O parágrafo 25, sob o título de “Definição nominal do sublime”, inicia conceituando-o como “o que é absolutamente grande” (B 81, p. 93). Mais uma vez, entretanto, essa suposta descrição objetiva (“absolutamente grande”) deve ser tomada apenas como um recurso analógico. No contexto reflexivo-estético, o sentimento do sublime deve ser compreendido assim: enquanto se expõe em juízo o objeto como grande, experimenta-se a sensação da grandeza. Do mesmo modo, não se deve conceber essa sensação de grandeza como algo que se manifesta na comparação com outra coisa (mais ou menos grande); simplesmente se “sente” o absolutamente grande. O sublime não admite comparação do modo como o objeto é sentido com outras grandezas; a medida é o próprio objeto representado: “Do mesmo modo dizer simplesmente (simpliciter) que algo é grande é totalmente diverso de dizer que seja absolutamente grande (absolute, non comparative, magnum) O último é o que é grande acima de toda a comparação”. (CFJ, § 25, B 81, p. 93).

Como vemos, Kant toma o cuidado de não deixar margem para qualquer associação apressada entre o sublime e os juízos teórico-objetivos. Importante, para isso, é a distinção entre grande (groß) e grandeza (Größe), palavras que devem ser compreendidas segundo a respectiva acepção latina de magnitudo e quantitas. A

magnitudo, que qualifica o sublime, não pode compor o predicado de um juízo

matematicamente determinante. Não se trata de uma determinação de quanto grande (quantitas) o objeto é, mas, simplesmente, de reconhecer a grandeza absoluta do mesmo. Nesse sentido, o sublime não predica o objeto, mas o modo de disposição do pensamento (ânimo) que se experimenta quando se representa o objeto.

Definindo o verdadeiro nome da grandeza sublime como magnitude, Kant avança na direção de um aspecto essencial da “Analítica da faculdade de juízo estética” (belo e sublime): a perspectiva de provar a “comunicabilidade”, ou, como sugere Lyotard (1993, p. 82), o direito de partilha universal de tais juízos. Só resolvendo tal questão, haverá saída para as aporias antropológicas e particularizantes que se manifestam, por exemplo, nas teorias de Hume e Burke. Na contramão da perspectiva empirista, “os

juízos ‘o homem é belo’ e ‘ele é grande’ não se restringem meramente ao sujeito que julga, mas reivindicam, como os juízos teóricos, o assentimento de qualquer um” (CFJ, § 25, B 82, p. 94), significando que, do ponto de vista do “direito à universalidade”, o sublime está em igualdade com o belo83.

O parágrafo 25 “desliza” da quantidade (universalidade) à modalidade (necessidade), o que não é surpresa já que ocorre o mesmo na análise do gosto. Universalidade e necessidade são características que se confundem em função e em natureza:

Ora, é aqui digno de nota que, conquanto não tenhamos absolutamente nenhum interesse no objeto, isto é, a existência do mesmo é-nos indiferente, todavia a simples grandeza do mesmo, até quanto ele é observado como sem forma, possa comportar uma complacência que é comunicável universalmente, por conseguinte contém consciência de uma conformidade a fins subjetiva no uso de nossa faculdade de conhecimento. (CFJ, § 25 B 83, p. 95).

Põe-se, portanto, aqui, o velho “enigma” do ajuizamento estético. Quando nos aproximamos de um objeto por algum interesse, e este, por sua vez, propicia uma satisfação completa, é sinal de que entre o pensamento e tal objeto existe afinidade. Isso parece bem claro. O enigmático, porém, é que a afinidade com o objeto possa ser sentida pelo pensamento mesmo quando não é promovida por nenhum tipo de interesse. Nesse caso, é preciso admitir apenas uma conformidade a fins subjetiva. O prazer do gosto é inteiramente interno, pois independe de qualquer finalidade externa. No caso do sublime, essa afinidade liga “sempre à representação uma espécie de

83 . Para um debate mais cuidadoso da universalidade dos juízos de gosto como uma questão de direito, ver o

interessante artigo de Henry E. Allison, “O quid facti e o quid juris na Crítica de Kant do gosto”, publicado na

Studia Kantiana, 1, n. 1, set. de 1998. Além desse, pode-se consultar, do mesmo autor, o livro Kant’s theory of

taste: a reading of the Critique of Aesthetic Judgment, p. 160-191, bem como o trabalho de Paul Guyer, Kant

and the claims of taste, p. 228 a 293. É preciso assinalar que, para os juízos sobre o sublime, uma dedução que provasse sua validade universal não é necessária. Isso se deve à relação de conformidade que o fundamento de tais juízos – ainda que estéticos – mantém com a razão. O argumento kantiano encontra-se assim formulado: “A apreensão de um objeto, aliás, sem forma e não conforme a fins, dá meramente motivo para tornar-se consciente deste fundamento, e o objeto é deste modo usado subjetivamente conforme a fins, mas não é ajuizado como tal

por si e em virtude de sua forma (por assim dizer, species finalis accepta, non data). Por isso a nossa exposição dos juízos sobre o sublime da natureza era ao mesmo tempo sua dedução. Pois quando decompusemos nos mesmos a reflexão da faculdade do juízo, encontramos neles uma relação conforme a fins das faculdades do conhecimento, que tem de ser posta a priori como fundamento da faculdade dos fins (a vontade) e por isso é ela mesma a priori conforme a fins: o que pois contém imediatamente a dedução, isto é, a justificação da pretensão de um semelhante juízo a validade universalmente necessária”. (CFJ, § 30, B133, p. 126-127. Grifos do autor).

respeito”. (CFJ, § 25, B 83, p. 95). Sobre o significado desse respeito, voltaremos no ponto seguinte.