• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 2 – OBRA LITERÁRIA: O SENHOR DOS ANÉIS

2.4. Inserção mitológica das personagens: Frodo, Gandalf e Sauron

2.4.2. Os magos, uma perspectiva de Gandalf e Sauron

Os istari são derivados na tradução de “wizards” que quer dizer magos juntamente com “wise” que são os sábios, e com “witting” que quer dizer cônscio, entendedor. São eles emissários de Eru (Deus) que faziam parte dos membros menores da raça dos Valar (deuses) e que vêm à Terra-média para fortalecê-la contra o poder do Mau. Os Valar são espíritos criados que possuem a incumbência de enviar seus anjos menores os istari) para causas extra Valinor (morada dos Valar), residindo na Terra-média15. Dedicação, amor a terra e àqueles que nela habitam, organiza e permite que a estrutura dela não sucumba.

[...] eles eram, como poderíamos dizer, o equivalente próximo, no modo dessas histórias, dos Anjos, Anjos da guarda. Seus poderes são direcionados primariamente ao encorajamento dos inimigos do mal, para fazer com que usem sua própria inteligência e valor para unir e resistir. Aparecem sempre como homens velhos e sábios, e embora (enviados pelos poderes do Verdadeiro Oeste) no mundo eles próprios sofram, sua idade e cabelos grisalhos só aumentam lentamente. Gandalf, cuja função é especialmente a de vigiar os assuntos humanos (dos Homens e dos Hobbits), perdura por todas as histórias. (CARPENTER, 2006, p. 154).

Os magos são dotados de sabedoria, deixando sempre o livre-arbítrio dos povos-livres sobre seus atos agir. O auxilio prestado por Gandalf, um istari, é dado de maneira indireta, forçando o responsável por andar com as próprias pernas e a tornar-se heróico a seu modo. Gandalf sempre se faz presente em momentos de difíceis decisões; quando o desânimo recai ou todas as alternativas existentes se parecem a fiascos, ele traz palavras de sabedoria em forma de conselhos, permitindo o agente escolher o que fazer com o que lhe é dado. Ele incita as pessoas a perdurar, animando a mente e corações daqueles que passam por severa prova.

Sauron, no entanto, outro istari, não era mau em sua origem. Sofreu densa influência pelo primeiro Servo do Mau, Morgoth. Ele permitiu seu coração e mente se deixarem corromper e escolhe pelo exílio de sua ordem.

Foi um espírito corrompido pelo Primeiro Senhor do Escuro (o Primeiro Rebelde subcriativo), Morgoth. Foi-lhe dada uma oportunidade de arrependimento, quando Morgoth foi derrotado, mas não pôde encarar a humilhação da retratação e da súplica pelo perdão; e, assim, sua inclinação temporária para o bem e para a “benevolência” terminou em uma recaída maior, até que se tornasse o principal representante do Mal de eras posteriores. Mas no inicio da Segunda Era ele ainda era

15 Fontes extraídas do livro As cartas de J. R. R. Tolkien (2006); As melhores histórias da mitologia nórdica (2008); O silmarillion (2009).

belo de se ver, ou ainda podia assumir uma bela forma visível – e de fato não era totalmente mau, não a menos que todos os “reformistas” que desejam apressar-se com “reconstrução” e “reorganização” sejam totalmente maus, mesmo antes do orgulho e do desejo de exercer suas vontades os devorar (CARPENTER, 2006, p. 183).

Sauron, ao contrário de Gandalf o cinzento, busca exercer a plenitude de seu poder corrompendo os fracos de espírito. Após a Queda de Morgoth, ele se torna o Senhor do Escuro. Ele não cria o mau, e, sim, o propaga em meio a juras de poder oferecido àquele que se tornar seu servidor. Foi o que ocorreu com o primeiro da Ordem dos sábios e presidente do Conselho Branco, Saruman, de conhecimento vasto e profundo, mas infelizmente de grande orgulho e cobiça por poder. Assim como Sauron fora corrompido pelo poder de Morgoth, ele assim o faz com os povos habitantes da Terra-média. Sua maior ânsia é pelo Poder Completo. Para tanto, criou anéis mágicos e os ofertou aos povos livres. Primeiro foram os elfos: três foram ofertados para os Reis-Elfos, mas eles nunca o macularam, Sauron tentou seduzir com o intuito de prometer sua ajuda (enquanto ainda era belo e transitava livremente entre os povos) em deixar a Terra-média livre das maledicências e torná-la tão bela quanto Valinor. Para que se conseguisse esse sacrifício, ele cria os anéis do poder, (lembrando que “poder” é uma palavra utilizada com significância agourenta e sinistra) oferece sete aos Senhores Anões com a mais preciosa jóia e aos homens. Nove foram ofertados aos Homens Mortais, que permitiram seus orgulhos e arrogâncias trasbordarem sobre o objeto, aceitando de imediato o presente ofertado, movidos pela cobiça e arrogância. Dados esses anéis, aqueles que o possuem ficam vinculados a um outro anel, forjado secretamente para que seu poder fosse o de dominar todos os outros restantes. “Ele é muito mais poderoso do que jamais ousei pensar no início, tão poderoso que no final poderia literalmente dominar qualquer um da raça dos mortais que o possuísse.”16 (TOLKIEN, 2000a, p. 48). Elfos e anões saem ilesos desse mal, porém os homens que possuíram os anéis ficam ainda presos a eles e acabam por se tornar Espectros do Anel.

Os Espectros do Anel são os piores servos de Sauron, suas almas ficaram presas no desejo e ânsia pelo anel obedecendo àquele que o empunha, Sauron.

[...] Nove ele deu a Homens Mortais, orgulhosos e poderosos, e desse modo os seduziu. Há muito tempo caíram sob o domínio do Um, e se tornaram Espectros do Anel, sombras sob sua grande Sombra, seus mais terríveis servidores. Há muito tempo. Faz muitos anos que os Nove foram levados para longe. Mas, quem sabe? Conforme as sombras cresçam novamente, estes também podem retornar (TOLKIEN, 2000a, p. 53).

O grande desejo de Sauron é retornar o poder sobre o Um, anel esse forjado por ele secretamente nas Fendas da Perdição, nas profundezas de Orodruin, comumente chamada de “Montanha de Fogo”, nas terras de Mordor, que permitiu grande parte de seu poder fosse passado para o anel, para que pudesse ter poder total sobre todos os demais anéis e cobrir a terra sobre sua escuridão.

O Inimigo, em sucessivas formas, sempre se ocupa “naturalmente” da mera Dominação, sendo o Senhor da magia e das máquinas; mas o problema - de que esse mal aterrorizante pode, e surge, de uma raiz aparentemente boa, o desejo de beneficiar o mundo e os demais, rapidamente e de acordo com os próprios planos do benfeitor – é um motivo recorrente. (CARPENTER 2006, p. 143).

Mantendo o domínio sobre seus servos, Sauron recruta novos adeptos errantes à sua necromancia, governando da grande torre negra de Barad-dûr em Mordor.

Para o autor, Sauron é representado como um reflexo dos principais problemas decorrentes daquela época; torna-se um reflexo devido à experiência vivida referente à industrialização, à mecanização e a produção em massa e as guerras que acabou por presenciar (a 1ª e 2ª Guerra Mundial), que é retratado todo um cenário prognóstico da maleficência destrutiva ocasionada pela imposição de um sobre tantos outros. Tolkien era contra a mecanização, preferia a vida provida das mãos humanas e não maquinária. Era contra a imposição obtida de maneira obrigada, adorador da natureza e dos animais, faz recair em sua obra, de maneira incisiva esse mal que corrompe e destrói a vida tanto dos habitantes quanto da Terra.

Na verdade, é preciso estar pessoalmente sob a sombra da guerra para sentir totalmente sua opressão; mas, conforme os anos passam, parece que fica cada vez mais esquecido o fato de que ser apanhado na juventude por 1914 não foi uma experiência menos terrível do que ficar envolvido com 1939 e os anos seguintes. Em 1918, todos os meus amigos íntimos, com a exceção de um, estavam mortos. (TOLKIEN, 2000a, p. XIV).

Mostra também que o poder por si não possui dono. Ele possui vida própria, aguça e incita as pessoas a fraquejarem e desistirem do caminho certo. Ao longo da narrativa, vemos o personagem Boromir sucumbir de imediato ao mau. Ao se deparar com o Anel, seu coração foi tomado por uma força gigantesca de possuir a centralização do poder. Mesmo que seu desejo fosse de possuí-lo apenas pelo intuito do bem, em salvar os povos empunhando o Anel, para fazer com que seus poderes fossem capazes de combater a guerra iminente, o poder seria tão grande que levaria a todos para a ruína.

O desejo de possuir o objeto se torna cada vez mais forte até que o coloca em prova. Ao ver a fragilidade de seu portador, ele se envenena com o próprio desejo de poder, junto com a cobiça que acaba por levá-lo a si próprio à ruína. Boromir tomba pela sua própria fraqueza. Fraqueza humana onde o poder sempre fala mais alto que a razão.

O final feliz do conto de fadas, do mito e da divina comédia do espírito deve ser lido, não como uma contradição, mas como transcendência da tragédia universal do homem. O mundo objetivo permanece o que era; mas, graças a uma mudança de ênfase que se processa no interior do sujeito, é encarado como se tivesse sofrido uma transformação. Onde antes lutavam a vida e a morte, agora se manifesta o ser duradouro — tão indiferente aos acasos do tempo como a água fervente num pote o é para com o destino de uma bolha, ou como o cosmos com relação ao aparecimento e desaparecimento de uma galáxia. A tragédia é a destruição das formas e do nosso apego às formas; a comédia, a alegria inexaurível, selvagem e descuidada, da vida invencível. Em conseqüência, tragédia e comédia são termos de um único tema e de uma única experiência mitológicos, que as incluem e que são por elas limitados: a queda e a ascensão (kathodos eano dos), que juntas constituem a totalidade da revelação que é a vida, e que o indivíduo deve conhecer e amar se deseja ser purgado

(katharsis = purgatório) do contágio do pecado (desobediência à vontade divina) e da morte (identificação com a forma mortal). (CAMPBELL, 1997, p. 16).

Há também vários momentos relatados onde os Grandes passam por pesarosas provações contra o vertente mal que corrompe; Gandalf o cinzento, logo de inicio na saga já é testado contra o mal do Anel quando Frodo o oferece para que o mago cuide do bem. Gandalf consegue rejeitar sabendo que seu poder seria estrondoso, porém maléfico, consegue então não se corromper, muito menos compactuar com ele. Há também a bela elfa de Caras Galadhon, da cidade dos Galadhrim em Lothórien, Galadriel, a Senhora de Lórien, sendo aprovada no teste de honestidade e benevolência. Quando o Um Anel é ofertado à Elfa de maneira livre pelo portador, a cobiça lhe vem ao ímpeto; ela possui um momento de devaneio diante do poder que este traria a ela. É a maior explicitação do mal do Anel àquele que já provido de grande poder ocasionaria se caso desfrutasse do objeto.

No lugar do Senhor do Escuro, você coloca uma Rainha. E não serei escura, mas bela e terrível como a Manhã e a Noite! Bela como o Mar e o Sol e a Neve sobre a Montanha! Aterrorizante como a Tempestade e o Trovão! Mais forte que os fundamentos da terra. Todos deverão me amar e se desesperar!

Levantou a mão e do anel que usava emanou uma grande luz que iluminou a ela somente, deixando todo o resto escuro. Ficou diante de Frodo e parecia agora de uma altura incalculável, e de uma beleza insuportável, terrível e digna de adoração. Depois deixou a mão cair, e a luz se apagou; e de repente ela riu de novo e eis então que se encolheu: era uma mulher élfica frágil, vestida num traje simples e branco, cuja a voz gentil era suave e triste. (TOLKIEN, 2000a, p. 389).

Mas felizmente ela se redime saindo ilesa e supera pela humildade esse mal, não sendo corrompida na mais árdua prova de poderes.

Há também Aragorn. Este, que é o correspondente de todos os homens dessa Era, é o espelho da raça humana e se sai de maneira heróica e polida. Quando foi posto em prova, ele não chegou nem a permitir que o mal o dominasse, pois sabia que possuir o Anel não correspondia em ser o mantenedor do poder, que possuir o Anel não significa dádiva e sim um mártir.

Todo o conteúdo da obra mítica remete “[...] aos atos que pressupõem uma realidade absoluta, uma realidade que é extra-humana” (ELIADE, 1992, p. 33), é relacionado de maneira indireta sobre assuntos adjacentes referentes à Queda, Mortalidade e a Máquina. É relatada toda a ventura e todo o fracasso de maneira nua e direta conforme o autor apresenta:

[...] todo esse material diz respeito principalmente à Queda, à Mortalidade e à Máquina. Inevitavelmente com a Queda, e esse motivo ocorre em diversos modos. Com a Mortalidade, especialmente na medida em que esta afeta a arte e o desejo criativo (ou, devo dizer, subcriativo) que parece não possuir qualquer função biológica e estar à parte das satisfações da vida biológica comum, com a qual, em nosso mundo, de fato parece estar geralmente em conflito. Esse desejo está unido ao mesmo tempo a um amor apaixonado pelo mundo primário real e, por isso, repleto com o senso de mortalidade, e mesmo assim insatisfeito com ele. Possui várias oportunidades de “Queda”. Podendo tornar-se possessivo, agarrando-se às coisas criadas como “suas próprias”, o subcriador deseja ser o Senhor e Deus de sua criação particular. Ele irá rebelar-se contra as leis do Criador – especialmente contra a mortalidade. Essas duas condições (isoladas os juntas) levarão ao desejo por Poder, para tornar a vontade mais rapidamente efetiva – e, assim, à Máquina (ou Magia). Com a última tenho em mente o uso de planos ou artifícios (aparelhos) externos ao invés do desenvolvimento dos poderes ou talentos interiores inerentes – ou mesmo do uso desses talentos com o motivo corrupto da dominação: de intimidar o mundo real ou coagir outras vontades. A Máquina é nossa forma moderna mais óbvia, embora mais intimamente relacionada com a Magia do que se costuma conhecer (CARPENTER, 2006, p. 142).

Por conseguinte, os dois magos: Sauron e Gandalf que, de origem pertenciam à mesma raça (dos Valar), acabam desviando dos propósitos iniciais e traçando seus próprios destinos. Sauron prefere a ganância e poder total sobre os povos, assim como a seguir será relatado sua manifestação sobre o Pequeno Frodo e, Gandalf, passando no teste de provações não sucumbe; mantêm sua alma elevada até o momento que se segue com a sua queda e ascensão em Moria.