3. O DIREITO À EDUCAÇÃO INFANTIL NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO
5.3 Os media e a importância da visibilidade pública
A articulação realizada pelos media entre as esferas, influenciando e alterando estas, como no caso do jornalismo, é definido por Lycarião (2012) como midiatização, considerada como “a expansão e desenvolvimento da autonomia do sistema midiático na sociedade moderna” (LYCARIÃO, 2012, p. 139), pois, neste sentido, a política se explicaria por suas próprias características, de forma autônoma, e não somente pela influência e imposição da mídia. Esse conceito avança em relação à definição unilateral da midiatização política, em que “as propriedades mesmas da prática política são modificadas de tal modo que as lógicas da mídia passam a prevalecer”. (LYCARIÃO, 2012, p. 138).
Desta maneira, a mediação realizada pelo jornalismo resultaria nesta “produção de visibilidade”, conforme Lycarião (2012), se afastando do tradicional papel da indústria cultural, situando os media, e o então papel do jornalismo, como núcleo central da cena política pública, diante do movimento que este produz na esfera política, demarcando assim a importância desta mediação:
A mediação produzida pelo jornalismo político prevê contiguidades e tensões entre os valores, gramáticas e regras de ação do campo político e da esfera de discussão pública com os valores, gramáticas e regras de ação da esfera de visibilidade social. Seria a partir dessa articulação, portanto, que surgiria o núcleo central da cena pública política, marcada pela representação e encenação que os media produzem da esfera política. (LYCARIÃO, 2012, p. 137).
Diante deste papel de mediação social, os sistemas de media são vistos por Lycarião (2012) com um papel específico no processo de legitimação democrática, elencando as seguintes contribuições: I) No momento em que busca uma ampliação da sua audiência, podendo trabalhar entre o que já se encontra como norma social estabelecida e aquilo que questiona tais normas, por meio do “escandaloso”, como um sensor daquilo que contraria a base moral estabelecida dentro da esfera pública, trazendo para o debate público a função de “cão de guarda” no jornalismo político; II) No traduzir, selecionar e modificar uma linguagem especializada dos sistemas sociais para o público geral, ao público leigo, em uma linguagem
ordinária, realizados não somente pelos profissionais do sistema midiático, mas na intercomunicação destes com as relações públicas e assessorias de comunicação dos outros sistemas; III) Por ser um sistema reconhecido por sua credibilidade, diante do aumento crescente de informações, se mostrando um ambiente adequado para amparar as discussões políticas dadas na sociedade; IV) A relação entre os media e os demais sistemas faz com que a cultura midiática e suas discussões migrem para outros sistemas sociais com novas lógicas, onde também os media são influenciados por esses outros sistemas, gerando uma tensão sistema x mundo da vida, evitando a colonização de uma sobre a outra.
Sob a ótica de Lycarião (2012), os sistemas de media passam a ter uma função imprescindível em uma teoria democrática, os quais buscam “práticas e instituições também especializada em garantir que a soberania popular possa ser viabilizada”. (LYCARIÃO, 2012, p. 145). Corrobora com tal importância estudos de Reis e Morais (2016) no momento em que consideram os jornais impressos como “responsáveis por ampliar o debate à medida que suas notícias são foco do conflito de ideias”. (REIS; MORAIS, 2016, p. 12).
Lycarião (2010) ressalta os aspectos positivos dos media, porém, também aborda pontos que devem ser considerados no tocante à importância da visibilidade, relacionados à indústria de comunicação de massa em relação à “tradição do mal estar midiático (tradição que ficou conhecida por acusar e denunciar o papel dos media em sabotar as vias de realização de uma esfera pública autêntica)” (LYCARIÃO, 2010, p. 2). A comunicação em massa seria entendida, neste caso, como um prejuízo para a formulação da opinião pública, uma vez que as discussões e reflexões estariam sob a influência do que as grandes corporações pautam nas mídias, o que é constatado por Altheman (2013) como sendo “ingenuidade acreditar na imprensa livre, imparcial e dedicada ao espaço para fóruns pluralistas. É fato que relações de poder e interesse controlam as informações de interesse coletivo”. (ALTHEMAN, 2013, p. 6).
Porém, no momento em que a esfera pública é vista, na teoria de Gomes (1999), como estruturada nas dimensões da visibilidade e da discutibilidade, segundo Lycarião (2010), pode-se apontar os pontos positivos do jornalismo da indústria da informação, de forma que “a visibilidade seria mais influente do que a discutibilidade”. (LYCARIÃO, 2010, p. 3). A primeira se oporia ao “segredo (encontrando aí seu lastro de origem na perspectiva kantiana30
acerca dos testes necessários para assegurar a legitimidade de uma política)”. (LYCARIÃO, 2010, p. 5). Já a discutibilidade abarcaria a comunicação que se dá quando da publicização
30A filosofia histórico-política kantiana aponta para a legitimidade da atuação do Estado na formação moral de seus cidadãos, mais especificamente no ensino público da virtude (Klein, 2014).
das argumentações e justificativas que são levadas ao público, portanto, estaria pautada na visibilidade (LYCARIÃO, 2010).
Essas duas dimensões avançariam em relação ao mal estar midiático, devido à capacidade dos media em produzir “uma visibilidade pública ampliada” (LYCARIÃO, 2010, p. 5), por meio do “descortinamento das zonas de segredo que o campo político gostaria de manter veladas, mas que podem ganhar visibilidade devido à atuação do jornalismo investigativo”. (LYCARIÃO, 2010, p. 5).
Outro ponto importante da visibilidade no campo político é que esta reduz “de forma crescente as esferas de discrição de que se valem a barganha e a política miúda”. (GOMES, 2004, p. 125). A barganha e a política miúda encontram-se como uma das hipóteses deste trabalho em relação à visibilidade, ou não, do movimento de privatização da educação infantil no município de São Paulo.
A indústria da comunicação de massa apresenta outro ponto positivo no estudo de Lycarião (2010) quando se torna geradora de inclusividade, pois, ao ser direcionada ao grande público, atinge vários segmentos (homens, mulheres, trabalhadores, empresário, etc.) com diversos interesses, possibilitando diversas interlocuções, ampliando assim os debates públicos. Segundo o autor, essas discussões ampliadas ficam disponíveis em diversos espaços, ou conforme o autor, em outras arenas, escapando do controle e da “interferência e influência dos interesses ideológicos dos patrões sobre o trabalho dos profissionais dos media”. (LYCARIÃO, 2010, p. 6).
O combate ao conceito da tradição do mal-estar midiático ocorre principalmente quando esta expansão da informação torna público os segredos, permitindo que a audiência tenha uma maior vigilância do fazer político e, evitando assim, situações de corrupção, pois esta expansão:
Conservou pluralidade política e exacerbou as funções de vigilância da esfera civil sobre a esfera política. Os integrantes desta (os representantes políticos) agora se veem, cada vez mais, tolhidos das zonas de segredo com a qual podiam exercer, sem maiores ônus ou custos políticos, a política miúda ou mesmo a corrupção. (LYCARIÃO, 2010, p. 7).
Desta maneira, ao combater o segredo de forma massificada, a indústria cultural gera uma esfera de visibilidade política, de amplo espectro na sociedade, levando a um processo deliberativo (discutibilidade) que, segundo Lycarião (2010), estes, conectados, resultam em um “controle público difuso e competente das pautas políticas” (LYCARIÃO, 2010, p. 16), se tornando “arenas centrais da deliberação pública”. (LYCARIÃO, 2010, p. 16).
Em suas considerações sobre os jornais, Altheman (2013) aponta que estes realmente propagam o discurso dos interesses dos poderosos funcionando tais jornais não como esferas públicas, mas sim como esferas de visibilidade pública. Mesmo assim, atribui importante valor às publicações jornalísticas, pois “nota-se que a visibilidade pública é uma das fontes que ancora e alimenta as conversações cotidianas e os discursos dos concernidos. Ela tem um importante papel na construção das esferas públicas” (ALTHEMAN, 2013, p. 14) e, consequentemente, na formação da opinião pública, como veremos a seguir.