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1. TECENDO ALGUNS COMENTÁRIOS SOBRE A TESSITURA DESTA

1.2. Enfocar Foucault

1.2.2. Uma Concepção Original do Poder

1.2.2.1. Os Micropoderes

A novidade desse autor, portanto, é que ele nos revelou a existência de outros poderes diversos do poder do Estado, poderes locais, específicos, circunscritos a uma pequena área de atuação e até com certa autonomia em relação aos macropoderes estatais, embora se articulem com eles das formas mais diversas, sendo inclusive indispensáveis para manutenção e atuação eficaz dos mesmos. São os micropoderes, que:

“(...) encontram-se disseminados por todo o corpo social, assumindo as formas mais regionais e concretas, investindo em instituições, penetrando na vida cotidiana das pessoas e atingindo nas suas mais tênues extremidades

o corpo dos indivíduos, realizando sobre ele um controle detalhado dos gestos, atitudes, comportamentos, hábitos, discursos”.43

Em seus textos Foucault sempre fez questão de afirmar que há uma certa autonomia desses “micropoderes” em relação ao Estado, ao poder central. Isso não quer dizer que os estudos sobre o aparelho de Estado não sejam importantes, mas é necessário compreender que “o poder não está localizado no aparelho de Estado e que nada mudará na sociedade se os mecanismos de poder que funcionam fora, abaixo, ao lado dos aparelhos de Estado, a um nível muito mais elementar, cotidiano, não forem modificados”.44 Tal raciocínio é fundamental, pois leva a revisão critica de uma determinada idéia acumulada historicamente por uma certa ortodoxia “revolucionária”, de tratar a tomada do aparelho estatal ou a sua destruição como sinônimos respectivamente da tomada ou destruição do poder. As experiências autoritárias vividas no campo do chamado “socialismo real” ilustram e apontam muito claramente que as relações de poder que atravessam toda a sociedade, seus micro-poderes, também precisam ser pensados, combatidos e transformados.

Como método, Foucault buscou não analisar as formas de poder centrais, regulamentadas, o que chamou de “uma análise descendente do poder”, ao contrário, buscou apreender o poder em suas extremidades, onde ele se torna capilar, em suas formas e instituições locais, apreender o poder em suas extremidades cada vez menos jurídicas. Não em suas instâncias de decisão, mas do seu lado externo, no ponto em que ele está em relação direta e imediata com seu objeto, seu alvo, seu campo de aplicação, onde ele se implanta e produz seus efeitos reais. Por exemplo, ao invés de perguntar como surgiu e se constituiu o soberano, ele preferiu perguntar como, aos poucos foram surgindo, a partir da multiplicidade dos corpos, os súditos e como esses últimos se vêem e se aceitam como tal. Aqui está um ponto de partida inteiramente novo: uma “análise ascendente do poder”.

1.2.2.2. “A Política é a Guerra Continuada por Outros Meios”.

Mas onde estaria a fundamentação desses mecanismos e dessas relações de poder? Sendo o poder, em si, emprego e manifestação de uma relação de força, ao invés

43 PAULA. Op. cit. p 16.

de analisá-lo como cessão ou contrato, ou ainda como recondução das relações de produção através da coerção e até da repressão, Foucault foi mais uma vez buscar em Nietzsche a sua concepção de que o poder se fundamenta na guerra. “O poder é a guerra, é a guerra continuada por outros meios”. Isso significa que:

“(...) as relações de poder (...) têm essencialmente como ponto de ancoragem uma certa relação de força estabelecida em dado momento, historicamente precisável, na guerra e pela guerra. E se é verdade que o poder político pára a guerra, faz reinar ou tenta fazer reinar uma paz na sociedade civil, não é de modo algum para suspender os efeitos da guerra ou para neutralizar o desequilíbrio que se manifestou na batalha final da guerra. O poder político, nessa hipótese, teria como função reinserir perpetuamente essa relação de força, mediante uma espécie de guerra silenciosa, e de reinseri-la nas instituições, nas desigualdades econômicas, na linguagem, até nos corpos de uns e de outros. (...) a política é a sanção e a recondução do desequilíbrio das forças manifestado na guerra”.45

Isso significa que, no interior dessa “paz civil” que as sociedades podem estar vivendo, todas “as lutas políticas, os enfrentamentos a propósito do poder, com o poder, pelo poder”, as mudanças nas relações e correlações de força, tudo isso deveria ser interpretado como continuações da guerra. “Sempre se escreveria a história dessa mesma guerra, mesmo quando se escrevesse a história da paz e de suas instituições”46.

Vale ressaltar que essa sua hipótese de enfrentamento belicoso das forças, que ele chama de “hipótese de Nietzsche” não é de modo algum contraditória a hipótese do poder como repressão, não a substitui, mas de certo modo ambas até se encadeiam. Para o autor de “Vigiar e Punir” a repressão é uma das conseqüências políticas da guerra um pouco como a opressão era o abuso da soberania, o ilegítimo se sobrepondo ao legítimo, quando o poder ultrapassava a si mesmo rompendo o contrato, na ordem jurídica da teoria clássica do direito político. A esse modelo “contrato-opressão” ele contrapõe o esquema “guerra-repressão”, onde a grande oposição não se dá entre legítimo e ilegítimo, mas entre luta e submissão. Sendo assim, esta repressão não se veste dos mesmos significados daquela opressão, ela não é um abuso e sim “o simples efeito e o

45 FOUCAULT. Em Defesa da Sociedade. op. cit. pp 22-23. 46 Ibidem. p 23.

simples prosseguimento de uma relação de dominação. A repressão nada mais seria que o emprego, no interior dessa pseudopaz solapada por uma guerra contínua, de uma relação de força perpétua”.47 “A política é a continuação da guerra por outros meios” e a sociedade, em sua estruturação política se organiza de forma que alguns possam se defender dos outros, “ou defender sua dominação contra a revolta dos outros”, defendendo sua vitória e perenizando-a na sujeição alheia.

Outra coisa, Foucault afirmou peremptoriamente que suas análises genealógicas não pretendiam constituir-se em verdades históricas generalizantes e universais, por isso, cada realidade específica deve ser analisada também de forma específica. Digo isso por que tal afirmação de que o que fundamenta as relações de poder em uma dada sociedade são suar raízes em guerras passadas que consolidaram as correlações de força, bem como quaisquer outras afirmações foucaultianas devem ser verificadas em cada caso, em cada realidade. No que tange a sua afirmação de que a “política é a guerra continuada por outros meios” por exemplo, segundo Ana Maria de O. Burmester, ele está falando especificamente sobre as bases da história européia que viveu as guerras civil-religiosas até o século XVI, as quais teriam sido fundadoras dessa realidade belicosa marcada por uma guerra perpétua disfarçada e amenizada pela política. Posso trazer à tona outros momentos históricos que teriam refundado em outros termos essa correlação de forças na França e na Europa como um todo: as diversas insurreições e revoluções ocorridas a partir dos séculos XVII e XVIII até maio de 68 em Paris.

Sem querer forçar muito a realidade para encaixá-la em uma perspectiva teórica, é possível ver nos processos de descoberta, chegada, invasão, conquista violenta e colonização genocida do Brasil pelos portugueses como um momento fundante das correlações de força aqui no Brasil. Assim como os processos da independência política, proclamação da república, conflitos como os de Canudos, Contestado, etc., a pseudo- revolução populista de 1930, os golpes que instauraram as ditaduras do Estado Novo (1937-45) e militar (1964-85); podem ser vistos como momentos de refundação da política brasileira também como “guerra continuada por outros meios”.