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CAPÍTULO 3. A acção coerciva e disciplinadora da Igreja: Visitas Pastorais e Inquisição

3.2. As visitações ao concelho da Lourinhã

3.2.4. Os “pecados públicos” nos livros de devassa

Como vimos, uma das especificidades das visitações portuguesas é o carácter judicial da devassa, que permitia à Igreja punir os pecadores públicos. Importa assim definir em termos teológicos ou canónicos o conceito de pecado público. O pecado é, em princípio, uma matéria do foro íntimo de cada um e deve ser resolvido no âmbito secreto da confissão. Mas quando o pecado chega ao conhecimento dos outros, assume uma dimensão pública, pondo em perigo a salvação não apenas do pecador mas de toda a comunidade. O mau exemplo não pode ficar impune sob pena de incitar os outros a segui-lo. Daí que para reparar o mal tenha que haver uma penitência pública. A este propósito o Concílio de Trento foi bastante claro:

«Ensina o Apostolo que os que peccão publicamente, devem ser publicamente reprehendidos. Quando pois alguém cometter crime publicamente, e em presença de muitos, donde conste claramente que muitos com ele ficarão offendidos, e escandalizados, convém se lhes imponha penitencia publica

proporcionada ao delicto: para que aquelles, a quem com seu exemplo induzio aos maos costumes, com o testemunho da sua emenda os attraha para a boa vida.»173

Deste modo, os pecados públicos não podiam ser corrigidos da mesma maneira que o privados, ou seja através da confissão, porque esta não garante a publicidade do castigo. Por outro lado, sendo a confissão um acto voluntário, não há garantias de que os pecadores públicos confessem as suas culpas, daí a necessidade de existirem os tribunais eclesiásticos.174 Estes, através das normas processuais do direito, actuavam sobre os clérigos e leigos que cometiam estes delitos.

A jurisdição eclesiástica sobre leigos exercia-se sobre os delitos designados de “foro

misto”, puníveis tanto nos tribunais da Igreja como nos do Estado. Os casos enumerados pelas Ordenações Filipinas (1603) eram os seguintes:

«[…] adulteros, barregueiros, concubinarios, alcoviteiros, e os que consentem as mulheres fazerem mal de si em suas casas, incestuosos, feiticeiros, benzedeiros, sacrílegos, blasphemos, perjuros, onzeneiros, simoniacos, […] os que dão

publicas tabolagens de jogo em suas casas,[…].»175

Estes delitos estavam sujeitos à norma da prevenção, ou seja quando uma pessoa era citada por um tribunal civil, não podia ser citada, pelo mesmo delito, por um tribunal religioso e vice-versa. Para se evitar duplicação de processos valia aquele que primeiro tomasse conhecimento da ocorrência. Os casos de foro misto partem da concepção de que delito e pecado são sinónimos - quando a Igreja pune um pecador é o mesmo que estar a punir um delinquente.

Deixando para um próximo ponto os delitos que ficavam sob a alçada da Inquisição, vamos agora analisar aqueles estavam sob a jurisdição dos bispos e que eram conhecidos através das visitas pastorais.

Pela análise dos livros de devassa das freguesias do concelho da Lourinhã a primeira conclusão a que chegamos é a de que do total de delitos denunciados no século XVII (327), 30,9% são delitos praticados por clérigos e 69,1% por leigos. Se tivermos em conta que a percentagem de clérigos era de pouco mais de 1% da população, podemos concluir que os

173O Sacrossanto, e Ecumenico Concílio de Trento, Sessão XXIV, t. II, pp. 285-287. 174

Cf. Joaquim Ramos de Carvalho, «A jurisdição episcopal sobre leigos em matéria de pecados públicos: as visitas pastorais e o comportamento moral das populações portuguesas de Antigo Regime», pp. 5-6-

175Ordenações Filipinas, ed. de Cândido Mendes de Almeida, Rio de Janeiro, 1870, Livro Segundo, tit. IX, p. 428.

elementos do clero eram os principais alvos dos denunciantes, com particular incidência na freguesia da Lourinhã, porque a maioria deles vivia na vila. Era natural que estando a Igreja

Gráfico I - Delitos denunciados no concelho da Lourinhã (século XVII)

Gráfico II - Delitos denunciados: clérigos Gráfico III - Delitos denunciados: leigos

empenhada num profundo processo de reforma, os bispos direccionassem os interrogatórios da devassa em primeiro lugar para o comportamento dos ministros do clero.

101 226 Clérigos Leigos 42 22 10 8 8 6 5

Delitos de natureza sexual

Comportamento inadequado às funções Alcoolismo

Desempenho deficiente das funções Tratar mal os vizinhos

Avidez Vestuário inadequado 175 25 14 5 2 5

Comportamento sexual ou vida familiar Não guardar os Domingos e Dias Santos Tratar mal os outros

Blasfémia Alcoolismo Outros

A segunda conclusão, é que tanto no seio dos eclesiásticos como no dos leigos os delitos mais denunciados são de natureza sexual, 41,6% e 77,4%, respectivamente. A seguir vêm situações que revelam um comportamento pouco adequado do clero relativamente à dignidade das funções que exerce (21,8%) e no que se refere aos leigos, o desrespeito pelos domingos e dias santos ao faltarem à missa para trabalhar (11,1%). Os outros delitos têm menor expressão e serão analisados mais à frente.

Para se estabelecer a relação entre os delitos denunciados e os pronunciados (quadros n.º XIV e XV) há que ter em conta as limitações dos dados disponíveis, dado que não possuímos séries completas dos livros das visitas, pelo que os números apresentados são inferiores à realidade.176 Por outro lado, ao considerarmos os delitos denunciados e não as pessoas denunciadas poderemos estar a dar uma imagem exagerada da realidade estudada. No entanto este aspecto pode ser minimizado através da consulta do anexo VIII - «Testemunhas inquiridas e delitos denunciados nas devassas ao concelho da Lourinhã (século XVII)», porque quando a mesma pessoa é acusada de mais de um delito num determinado ano essa situação está assinalada. Quanto às pessoas que foram denunciadas pelo mesmo delito várias vezes em anos consecutivos, essas situações serão identificadas, nos dois pontos seguintes.