6 CAUSAS DA EVASÃO DAS ESCOLAS DOS TERRITÓRIOS CAMPESINOS DO
6.1 Caracterização das/os Sujeitas/os da Pesquisa
6.1.1 Os Perfis das/os Sujeitas/os do 1º Distrito
O primeiro Sujeito da pesquisa será tratado por S1. Ele possui 18 anos, é solteiro e mora com os pais, irmãos e sobrinhos. Sempre morou no Território Campesino e no 1º Distrito. A sua casa fica a uma distância de 3 km da Escola 1. S1 nunca estudou no Território Urbano. A sua rotina de vida é estabelecida no Território Campesino, tanto no trabalho quanto nas suas experiências educativas. Ressaltamos que ele nunca teve nenhum emprego formalizado, com carteira assinada. No ano de 2013, o trabalho que desenvolvia era como cuidador42 de uma chácara da região onde mora e atualmente trabalha em uma granja situada também no 1º Distrito.
Destacamos que S1 estudou até o 7º ano do Ensino Fundamental. O ano de 2013 foi o primeiro ano em que se evadiu da escola. A jornada de trabalho do Sujeito 1 é de 8 a 10h diárias. Ele ressaltou que trabalha assim desde os oito anos de idade porque necessita contribuir com as despesas familiares que são muitas. O contato com S1 não foi fácil, porque como ele trabalha o dia inteiro, só era possível localizá-lo à noite.
Ressaltamos que para realizarmos a entrevista com o Sujeito, necessitamos ir até a sua residência por três vezes em um espaço de duas semanas. No primeiro dia, explicamos para a família (irmã e mãe) de S1 em que consistia a investigação. Neste momento o Sujeito não estava em casa. Após a explicação para a família, retornamos em outro dia à noite para explicarmos a S1 o motivo da nossa aproximação e o objetivo da pesquisa. Após estes dois contatos, agendamos o momento da entrevista e retornamos pela última vez para aplicá-la.
A segunda pessoa que colaborou com a nossa pesquisa neste Distrito será chamada por nós de S2. Ela possui 17 anos de idade, é casada e possui um filho. Mora no 1º Distrito a uma distância de 200m da Escola 1. Sempre residiu no Território Campesino e no mesmo sítio. A Sujeita nunca trabalhou formalmente, as suas atividades de trabalho resumem-se aos serviços domésticos da sua própria residência e da casa da mãe. Ela mora com o companheiro, o filho e o irmão.
Com relação à sua escolaridade, S2 estudou até o 7º ano e se evadiu da escola apenas uma vez, no ano de 2013. A Sujeita nunca estudou no Território Urbano e gosta de fazer parte do Território Campesino. A sua mãe, pessoa com quem tem muita aproximação, é a maior incentivadora para que retome os estudos. Na atualidade, a vida de S2 consiste no cuidado com a sua casa e a casa da mãe e a assistência ao filho. A receptividade de S2 à pesquisa foi
tranquila, entretanto, devido às suas atribuições, a Sujeita preferiu que a entrevista fosse realizada no primeiro dia de contato. Assim, só estivemos com ela em um momento da pesquisa.
O terceiro Sujeito, que será tratado por nós como S3, possui 16 anos de idade. É solteiro, mora com os pais e com um irmão. Sempre residiu no Território Campesino e no 1º Distrito. A sua casa fica a uma distância de aproximadamente 200m da Escola 1. Os seus pais possuem o Ensino Fundamental incompleto e são os maiores incentivadores para que volte a estudar.
Com relação à sua escolaridade, S3 estudou até o 7º ano do Ensino Fundamental e o ano de 2013 foi o primeiro em que se evadiu da escola. Apesar de S3 nunca ter estudado no Território Urbano, ele pontua muito o desejo em ir estudar neste espaço. S3 e a sua família foram bem receptivos à pesquisa. A entrevista com S3 não pôde se desenvolver com apenas um momento de aproximação.
No primeiro momento, tivemos contato com os seus avós, que situaram que o mesmo trabalhava durante o dia. Assim, necessitamos ir mais três vezes para que a entrevista fosse concretizada. No segundo momento conversamos com S3 e os seus pais que concordaram com a entrevista e fizeram o agendamento. Ocorre que no dia agendado houve um imprevisto e S3 necessitou remarcar a conversa para outra semana, oportunidade em que efetivamos a aplicação da entrevista.
A última Sujeita moradora do 1º Distrito será chamada de S4. Esta possui 29 anos de idade, é casada e divide o espaço da sua residência com o seu companheiro e três filhos. Mora ao lado da sua mãe que, segundo a Sujeita, é uma pessoa que a auxilia no cuidado com os filhos, visto que uma das suas crianças possui necessidades especiais. Além das atividades domésticas e da responsabilidade com os filhos, S4 trabalha como costureira em sua própria residência, com uma carga horária de aproximadamente oito horas diárias. S4 nunca teve emprego formalizado. A Sujeita ressaltou que sempre residiu no Território Campesino e no 1º Distrito. A sua casa fica a aproximadamente 100m da Escola 1.
Sobre a sua escolaridade S4 concluiu o 5º ano do Ensino Fundamental. Já se evadiu da escola por quatro vezes, mas anualmente se matricula reafirmando o desejo de estudar. Pontuou que em 2014 não conseguiu realizar a matrícula. Entretanto, no momento da nossa conversa destacou que já havia realizado a mesma para o ano letivo de 2015. Para a realização da entrevista com S4 foram necessários dois contatos: o primeiro representou o agendamento e o segundo a aplicação da entrevista.
Desta maneira, consideramos importante sistematizar os dados dos perfis das/os quatro Sujeitas/os do 1º Distrito a fim de analisarmos como estes se constituem. O quadro abaixo aponta de forma mais resumida, as características concernentes aos perfis destas/es.
QUADRO 15 - Caracterização das/os Sujeitas/os da Escola 1
Cola b. Sexo Idad e Estado Civil Cor/ Raça Com quem mora Moradia em 2013 Tempo de Estudo Trab Quant. de vezes que se evadiu Estudou no Territ. Urbano
S1 M 18 Solteiro Bran Pais
Irmãos Sobrinhos.
Território Campesino
7 anos Sim 1 vez Não
S2 F 17 Casada Ama Companheiro
Filho Irmão.
Território Campesino
7 anos Não 1 vez Não
S3 M 16 Solteiro Preto Pais
Irmão.
Território Campesino
7 anos Sim 1 vez Não
S4 F 29 Casada Pard Companheiro
Filhos.
Território Campesino
5 anos Sim 4 vezes Sim
Fonte: Quadro construído a partir dos dados coletados através de questionários.
Constatamos com os dados dos questionários realizados no 1º Distrito que três das/os Sujeitas/os deixaram de frequentar a escola apenas uma vez. É concernente destacar que das/os quatro entrevistadas/os no Distrito, apenas um não trabalha. Apesar da maior parte das/os Sujeitas/os trabalhar, compreendemos que estas/es nunca tiveram acesso ao trabalho formalizado, o que não assegura uma boa condição salarial. Todas/os Sujeitas/os que desenvolvem trabalho possuem uma renda inferior a um salário mínimo.
A média de estudos entre as/os Sujeitas/os da pesquisa é de 6,5 anos letivos. Os pais destas pessoas possuem um tempo de escolaridade inferior ao das/os filhas/os. Em todos os casos o tempo de estudos dos pais correspondeu a um período de dois a três anos. Tempo que garantiu o acesso à leitura de algumas palavras e à escrita do nome. Um detalhe deste dado que nos chamou a atenção foi o fato de que em todos os casos os pais incentivam as/os suas/seus filhas/os a voltarem a estudar. Isso destaca que estes concebem a escola como o acesso a melhor qualidade de vida.
Notamos também que das/os sujeitas/os pesquisados no 1º Distrito, apenas S4 encontra-se na idade adulta. As/os outras/os três Sujeitas/os são jovens e adolescentes. Acreditamos que é justamente pela idade que possui que S4 é o único caso que se evadiu da escola por mais vezes, visto que já se matriculou outras vezes na EJA, ao passo em que as/os
outras/os Sujeitas/os estavam na EJA pela primeira vez no ano de 2013. Compreendemos que este elemento contribui para que a evasão das/os outras/os sujeitas/os não seja recorrente.
Além da constatação destas características há outro dado que nos chama a atenção: os dois homens participantes da pesquisa são solteiros e não possuem filhos; as duas mulheres Sujeitas da pesquisa são casadas e têm filhos. Os dois homens trabalham, desenvolvem atividades fora de casa. A mulher que trabalha tem que fazer as suas atividades em sua casa. Com este dado notamos a influência do Patriarcado a partir das divisões de funções: homens saem para trabalhar e mulheres cuidam dos filhos e da casa, envolvem-se com as atividades domésticas. A mulher pode até trabalhar, desde que o seu trabalho seja desenvolvido em casa (NARVAZ; KOLLER, 2006). Neste sentido, notamos que apesar de nesta pesquisa trabalharmos com pessoas que povoam universos geográficos distintos, os dados não são muito diferentes, conforme veremos na categorização das/os Sujeitas/os do 3º Distrito.