Além do art. 52, X, CF outras normas são relevantes quando se busca estudar a autoridade dos precedentes no ordenamento jurídico brasileiro. Os dispositivos a serem analisados acabam atribuindo de forma direta (ou não) algum peso às decisões anteriores dos órgãos do Poder Judiciário, as quais acabam atribuindo a possibilidade do relator obstar a subida de um determinado recurso ou de julgar monocraticamente a decisão cuja controvérsia já foi pacificada pelos tribunais superiores. Isso possibilita um julgamento mais célere e possibilita uma maior certeza jurídica.
217 Conclusão similar em Sarlet, Marinoni e Mitidiero, Curso de direito constitucional, p. 151-152. 218 Ao analisar os limites da mutação constitucional, Uade Lammego Bulos entende que poderia existir
um limite de ordem psicológica do intérprete, que deveria ter consciência que não poderia extrapolar a norma presente na literalidade do preceito constitucional. Nesse sentido, cf. Uade Lammêgo Bulos,
Mutação constitucional, p. 91; Dimitri Dimoulis e Soraya Lunardi, Curso de processo constitucional,
As reformas realizadas pela Lei Federal nº. 9.756 de 1998 e pela Lei Federal nº. 12.322 de 2010 vêm corroborar com a tese de que o Brasil está incorporando a tese de força vinculante aos precedentes judiciais. O primeiro diploma legal veio mudar a literalidade do artigo 557, CPC enquanto o segundo veio modificar a redação do artigo 544, CPC e dos seus parágrafos.
Diante de todas as reformas, deve-se destacar a nova feição dada ao artigo 544, §3º, I, “b” e “c”. A redação recente dada a esse dispositivo determina que na hipótese de interposição dos recursos extraordinário e especial, tendo estes sua subida impedida pelo Tribunal, e tendo a parte feito uso do agravo de instrumento para destrancar a subida daqueles, pode o relator do agravo negar seguimento ao recurso manifestamente inadmissível, prejudicado ou em confronto com súmula ou jurisprudência dominante no tribunal. Além disso, pode também o relator dar provimento ao recurso, se o acórdão recorrido estiver em confronto com súmula ou jurisprudência dominante no tribunal.
Ademais, merece também destaque a literalidade do art. 557, caput e §1-A, os quais estabelecem o relator negará seguimento a recurso manifestamente inadmissível, improcedente, prejudicado ou em confronto com súmula ou com jurisprudência dominante do respectivo tribunal, do STF, ou de tribunal superior. Igualmente, impõe que se a decisão recorrida estiver em manifesto confronto com súmula ou com jurisprudência dominante do STF, ou de tribunal superior, o relator poderá dar provimento ao recurso.
Como se percebe, os dispositivos supracitados atribuem à jurisprudência do Supremo Tribunal Federal tamanha força que permite que os tribunais inferiores, bem como os relatores dos processos, obstarem o andamento de recursos que contrariem os entendimentos consolidados do Pretório Excelso. Assim, uma vez que o STF passe a ter um posicionamento sobre determinado tema em certo sentido, suas decisões acabam por vincular os tribunais inferiores.
Outrossim, os artigos analisado vão além e abrem até mesmo a possibilidade do relator julgar o mérito do recurso por meio de uma decisão monocrático, apreciando e decidindo sumariamente a questão se a decisão recorrida estiver em confronto com a jurisprudência dominante do STF e cortes superiores. Trata- se de uma solução que impõe a valorização das garantias dos indivíduos consolidadas pelos tribunais, resguardando as situações que a jurisprudência tem posicionamento dominante sobre o tema. Na mesma medida, compactua-se também com o primado da
celeridade e da efetividade, garantindo uma solução rápida às controvérsias onde os cortes superiores já afastaram qualquer dúvida sobre o tema.
Portanto, os dispositivos supracitados atribuem à jurisprudência do STF força vinculante, passando a serem impostos sobre os demais órgãos jurisdicionais brasileiros.
Nesse caso não se trata de mera discricionariedade do relator. A redação do artigo 554 poderia dar a entender que sua aplicação depende de uma mera liberalidade do magistrado competente, já que o caput usa o termo “podendo”. Entretanto, como é cediço na literatura especializada, sobretudo a administrativa, essa competência incumbida ao relator não se trata de um simples poder, mas de um dever- poder.219 Dessa forma, a sua competência não é discricionária, mas vinculada, devendo o julgador aplicar o teor do dispositivo em questão uma vez preenchidos seus requisitos: recurso “inadmissível, improcedente, prejudicado ou em confronto com súmula ou com jurisprudência dominante do respectivo tribunal, do Supremo Tribunal Federal, ou de Tribunal Superior”.
Dessa forma, a análise da questão deve ser feita de forma objetiva220 e, uma vez de constatado que se trata de caso em que há jurisprudência consolidada de tribunal superior, deve o relator julgar no mesmo sentido desta. Portanto, percebe-se que a aplicação dos dispositivos em questão se dá de forma vinculada e segundo critérios objetivos, não podendo o magistrado competente afastar a incidência da norma simplesmente por uma faculdade interna sua.
Além dos dispositivos supracitados, outros incorporam a noção da força vinculante em sede de controle concreto. Assim, pode-se destacar o artigo 475, §3º, que dispõe que, na hipótese do chamado duplo grau de jurisdição necessário, a questão não precisará ser confirmada pelo tribunal se a decisão do juízo a quo estiver fundada em jurisprudência do plenário do Supremo Tribunal Federal ou em súmula deste Tribunal ou do tribunal superior competente.
O instituto do duplo grau de jurisdição necessário consiste na remessa obrigatória ao tribunal de decisões proferidas no juízo de primeiro grau contra entes federativos e suas autarquias e fundações cujos valores das ações excedam os sessenta
219 Para um aprofundamento do tema, cf.: Celso Antônio Bandeira de Mello, Curso de direito
administrativo, p. 97-99. Pela defesa dessa natureza da competência do relator, cf.: Marinoni e Arenhart, Curso de processo civil, p. 598 e 599; Teori Albino Zavascki, Eficácia das sentenças na jurisdição constitucional, p. 38.
salários mínimos. Trata-se de um mecanismo que busca atribuir aos tribunais a função de verdadeiros ratificadores das decisões de primeira instância, não necessitando que a segunda instância seja acionada via recurso.
Pois bem, segundo a redação do §3º, não haverá a remessa necessária quando a sentença estiver fundada em jurisprudência dominante do plenário do STF. Dessa forma, atribui-se ao entendimento formado pelo plenário do STF uma força de impedir a subida automática dos julgados na situação em questão.
No tocante a esse dispositivo, aplica-se o já asseverado supra no tópico anterior sobre a vinculação do relator e a necessidade da aplicação do artigo em questão por critérios objetivos. Dessa forma, não há discricionariedade do relator nessa questão, devendo o dispositivo em questão ser aplicado caso exista jurisprudência do STF que embase a decisão.
4.4 A DECISÃO SOBRE A EXISTÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL EM SEDE