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Os quadrinhos de Angelo Agostini: O caipira fora de lugar.

44 Disponível no sítio eletrônico:

Capítulo 5: Análise comparativa da representação do caipira

5.1. Os quadrinhos de Angelo Agostini: O caipira fora de lugar.

Muito antes de o Chico Bento começar a viver suas aventuras no universo das histórias em quadrinhos, o tipo do interior e suas peculiaridades já se faziam presentes em tiras como as do cartunista italiano naturalizado brasileiro Angelo Agostini, responsável pela publicação no periódico Vida Fluminense, em janeiro de 1869, da primeira história em quadrinhos brasileira. As aventuras de Nhô Quim, ou impressões de uma viagem à corte narravam as confusões aprontadas pelo personagem-título, um tipo do interior à solta pela cidade grande. Nhô Quim deixa a casa paterna (que não sabemos exatamente onde fica, mas cuja distância até a estação de trem mais próxima é de três dias de cavalgada) para conhecer a Corte, tendo como companhia um pajem negro e como referência o endereço de um comerciante – homem do tipo que “só faz caso de quem possui... de

400 contos para cima!”51 – amigo de seu pai. Esta campanha, a

princípio bastante simples, se mostra desde o início uma interminável fonte de aventuras, decorrentes de mil mal-entendidos e da inabilidade de Nhô Quim de se desvencilhar das confusões em que se mete, às vezes por ingenuidade própria, outras pelas tentativas freqüentes do povo da Corte em extorqui-lo, ludibriá-lo e separá-lo de sua recheada carteira. Sim, porque o caipira de Agostini é mais rico que todos com quem cruza na cidade e, diferentemente dos personagens rurais

51 Agostini, Angelo. As aventuras de Nhô Quim, ou impressões de uma viagem à Corte. Uma história em muitos capítulos. Cap. V (Na Rua Direita)

explorados por outras linguagens, como veremos mais adiante, não se comprova nele a equação homem do campo igual a pobreza ou miséria. Tampouco é um deslumbrado com os recursos da cidade grande. O trem que o leva até a Corte causa-lhe mais espanto que admiração, as pessoas com quem cruza lhe parecem mal-educadas, a Rua do Ouvidor, no centro da cidade, então famosa por suas lojas caras, em cujas vitrines se expunham todo tipo de novidades européias, só lhe chama a atenção pela estreiteza e má pavimentação.

Até mesmo nos costumes Nhô Quim se mostra bastante pródigo: desdenha os impulsos românticos de uma francesinha, nem dispensa maiores cuidados à sinhazinha da casa, mas encanta-se por uma mucama negra.

O Nhô Quim de Angelo Agostini

Tal liberalidade talvez se deva a uma marca deixada no personagem pelo engajamento do autor a causas políticas. Desde muito jovem e antes de estabelecer residência definitiva no Rio de Janeiro, Agostini fazia parte de grupos abolicionistas, tendo ajudado a fundar, juntamente com Luiz Gama em 1864, o periódico O Diabo Coxo que se tornou uma referência na imprensa paulistana, assim como O Cabrião, fundado em 1866 (Azevedo,1999). Estes jornais ilustrados gozavam de grande apreço junto ao público. Contendo

basicamente desenhos e caricaturas e, ao lado ou abaixo destas, pequenos textos e legendas, essas publicações alcançavam marcas impressionantes. A Revista Ilustrada, por exemplo, fundada por Agostini no Rio de Janeiro em 1876 chegou a alcançar, em seus dezenove anos de existência, a marca de 4.000 exemplares.

Resguardados pelo humorismo e gozando de liberdade maior que a imprensa oficial da época, os periódicos ilustrados tornavam-se veículos de divulgação de idéias vanguardistas, críticas ao governo e aos costumes da sociedade da época. A alma destas revistas era seu ilustrador, o homem forte que acumulava funções e definia a feição que a publicação adquiriria. Foi nesta posição de prestígio, na condição de dono da Revista Ilustrada, que Agostini lançou em 1883 um novo personagem: o Zé Caipora. O nome significa, em Tupi, “morador do mato” (cáa = mato, pora = morador), mas é também um termo usado para designar má sorte e certa tendência para cometer gafes. A alcunha é adotada pelo próprio personagem, José Corimba, um janota, recebido por nobres famílias que, diante de seu especial talento para meter-se em confusões, faz-se tratar pelo nome de Zé Caipora. Os traços semelhantes e a temática do anti-herói são basicamente os pontos nos quais ambos os personagens se cruzam, porém as peripécias de cada um seguem caminhos opostos. Enquanto Nhô Quim, saindo do campo, encontra em plena capital o terreno fértil em aventuras, Zé Caipora sairá da cidade após uma decepção amorosa e será, não no campo, mas nas matas que seu enredo se desenrolará. Em Nhô Quim, o homem da cidade e seus costumes pretensamente civilizados (a ganância, a dissimulação, o egoísmo, a arrogância com os pequenos e a subserviência com os poderosos) são o alvo maior das críticas, enquanto Zé Caipora se rende à civilização urbana, projetando nos índios a figura do não-civilizado, do incompreensível. Há, de fato, em ambos os personagens, sempre uma oposição, um conflito dual dentro do qual um dos pólos é expresso pela cidade e seus habitantes. Para Angelo Agostini, entretanto, este conflito não implicava num estereótipo estanque. O outro, o diferente, este ser cujas ações custamos a entender e que, muitas vezes mesmo

falando a nossa língua, nos é incompreensível, pode ser tanto o índio, o homem do interior ou o homem branco litorâneo.

Zé Caipora criação de Angelo Agostini

Especificamente sobre o caipira, Agostini chama a atenção para o caráter universal de suas preocupações. Fosse no Brasil, na Inglaterra ou em outros países, o que estava em jogo era a resistência de certos grupos em se deixarem levar pela onda de transformações ocorridas na segunda metade do século XIX. A eletricidade, as estradas de ferro, a aglomeração humana nas grandes cidades, eram questões da ordem do dia em vários países. O caipira criado por esse italiano do Piemonte era, portanto, um tipo universal.

As histórias de Agostini, não possuíam algumas características hoje consideradas determinantes para a linguagem das hqs, como o uso de balões e onomatopéias, mas já faziam uso do recurso do personagem e da ambientação fixas e, neste sentido, seriam como que predecessores do Chico Bento, mas entre os traços de Agostini no final do século XIX e os de Mauricio de Sousa na segunda metade do século XX, outras linguagens procuraram apreender o caipira em suas representações.

5.2. O mais brasileiro dos pintores: O caipira na pintura de