1. INTRODUÇÃO
2.3 O Espírito da gentrification
2.3.3 Os tipos de Gentrification
Os próximos capítulos pretendem debater o processo em si a partir dos estudos sobre o mesmo no mundo. Como se trata de um fenômeno observado em diversas cidades do planeta, ele termina tomando diferentes características. Essa diferença será consequência principalmente da distinta dinâmica exercida pelos agentes modeladores do espaço, que em cada lugar repercutirá com duas características:
A primeira característica diz respeito às singularidades observadas no processo, sendo elas o fruto de uma imposição da hegemonia capitalista mundial sobre os lugares. Essa imposição vertical produzirá as ações provenientes do processo estudado que são decorrentes de uma estratégia de produção do espaço pelas classes dominantes.
A segunda característica diz respeito à dinâmica caótica proveniente da interação entre os agentes espaciais em cada lugar. Esse caos pode acarretar na imprevisibilidade dos acontecimentos diante do efeito homogeneizante que a
gentrification proporciona, originando diversas formas do processo. As mesmas
serão ainda acentuadas pelo fator econômico do momento em que ocorrerem, bem como a espacialidade do lugar afetado e o contexto histórico que permeia o mesmo, além das questões socioculturais. A combinação de cada um desses fatores poderá alavancar ou travar o processo a depender das ações dos agentes que atuarem no espaço.
3 UMA GLOBALIZAÇÃO DA GENTRIFICATION OU UMA GENTRIFICATION DA GLOBALIZAÇÃO?
“Não só a relação entre lugar e espaço como também o relacionamento entre o lugar e o homem que nele se demora residem na essência dessas coisas assumidas como lugares.” (HEIDEGGER, 2009, p.134)
No capitulo anterior foi observado que um dos elementos mais relevantes da cidade são os seus habitantes. Os mesmos são habitantes, não somente porque vivem, mas, porque vivendo também modelam o espaço habitado. É valido destacar a importância de diferenciar morar de habitar. Não necessariamente quem mora habita, da mesma forma que nem todo que habita mora. Heidegger, ao explanar sobre o habitar, escreve em tom de critica que “Trabalhamos aqui e habitamos ali. Não habitamos simplesmente. Isso soaria até mesmo como uma preguiça e ócio.” (HEIDEGGER, 2008, p.127). Compreender essa questão do habitar é fundamental para alcançar o entendimento de que a singularidade dos lugares é um produto da interação das questões estruturais com as sociais.
Com relação à importância de não se privilegiar um único elemento dentro de determinada abordagem, Harvey em seu livro Espaços de Esperança após construir e desconstruir entendimentos sobre o que chama de dialética histórica geográfica chega a um dos pontos cruciais de sua tese ao demonstrar que: “Se as utopias materializadas deram errado por causa dos processos sociais mobilizados em sua construção, o foco passa a ser questões acerca do processo.” (HARVEY, 2000, p.228). Ele demonstra que os grandes erros cometidos pelas diversas utopias ao longo da história estiveram e estão: ou em privilegiar o autoritarismo dialético e estrutural do isso ou aquilo; ou porque nas versões que privilegiaram os processos sociais terminaram por pecar pela ausência de uma abordagem espacializada. “As versões idealizadas dos processos sociais, em contrapartida costumam exprimir-se em termos puramente temporais. (...) As qualidades espaciais e temporais são completamente ignoradas.” (HARVEY, 2000, p.228)
Além da dicotomia entre o fator físico e o social, existe a questão da escala. Não há dúvidas de que a gentrification ocorre na esfera local. O fato é que focar a visão sobre o processo somente na escala do lugar é o mesmo que querer entender a chuva que ocorreu em Salvador no dia 31 de Janeiro de 2011, somente com os elementos do lugar. Da mesma forma que o entendimento dos fatores climáticos requer uma visão em escala global, o processo da gentrification tem os seus
“ventos” conectados em uma cadeia de relações que estão intrinsecamente ligados com a globalização.
Dentro de uma reflexão sobre os dois processos - gentrification e globalização - é possível questionar se o primeiro é um produto do segundo, resultado de uma consequência que se desdobra nas escalas locais, ou se os dois não seriam a mesma coisa, sendo o menor somente uma forma de personificação do maior na esfera do lugar. A resposta pode ser dada de imediato ao analisar cronologicamente os processos o que nos aponta que a gentrification é anterior à atual forma de Globalização. Aprofundar o entendimento de cada um dos dois fenômenos pode trazer elementos importantes para a compreensão do primeiro.
Dessa forma, é necessário percorrer um caminho, que vise à compreensão das questões partindo da escala planetária, até chegar ao desdobramento regional e finalmente alcança o lugar. É importante perceber que as inúmeras relações estabelecidas em todas essas escalas afetam em inúmeros aspectos o destino do processo em questão.
Sendo a dissertação um instrumento que pode ser utilizado, para posteriores reflexões e talvez até para subsidiar análises para possíveis intervenções nas localidades estudadas, se faz de suma importância realçar que, qualquer planejador, sempre estará submetido às intempéries do caos.
O entendimento da Teoria do Caos tem muito a contribuir em qualquer análise, reflexão e estratégia de planejamento, pois, fenômenos caóticos ocorrem principalmente pela combinação entre os diversos elementos, agentes e escalas. Essa soma de fatores pode fornecer infinitas e caóticas consequências a partir de questões longínquas ou que aparentemente possam ser desprezíveis.
Sabe-se que o fenômeno observado no Parque Histórico do Pelourinho está explicitamente justificado pela lógica do turismo. É justamente nas intervenções de cunho turístico que os quatro aspectos mencionados até aqui se inter - relacionam. Ou seja, a dicotomia entre as estruturas físicas e a sociedade a conexão entre a escala local e global e a complexidade das relações entre esses elementos que submete sua abordagem às oscilações caóticas espaciais.
Haverá um momento para trabalhar somente com o tema do turismo, no
Primeiramente, porque o turismo é um modelo de investimento extremamente frágil às oscilações financeiras e sociais do mundo, como é constatado a seguir.
... após os acontecimentos políticos e terroristas do dia 11 de setembro de 2001. [...] De 2001 a 2003, os fluxos globais do turismo diminuíram quando se pensava que tudo havia voltado à normalidade, o turismo recebe mais uma desagregação com a catástrofe da Ásia ficando mais difíceis de serem avaliadas tendências. (CORIOLANO; SILVA, 2005, p. 15)
Além disso, não é demais, observar que Salvador está na periferia da periferia do turismo mundial. O que é importante ter em vista para relativizar a cidade como sendo turística. Ela é parcialmente turística, não necessariamente por falta de “vocação”, e até por um publico que a visita, mas, muito mais por uma combinação de fatores, que vão desde questões estruturais a até mesmo sua posição geopolítica no mundo, como é afirmado a seguir. “A participação mundial da África, Ásia e América do Sul no turismo de modo geral é muito pequena e com alguns polos localizados. Os maiores fluxos turísticos se dão entre fronteiras de países.” (CORIOLANO; SILVA, 2005, p.118)
Sendo assim, como fica o entendimento da dinâmica caótica no turismo? O primeiro exemplo é dado com as visitas dos dinamarqueses à Salvador. Para ser mais preciso, anualmente, havia um fluxo de dinamarquesas, que visitavam a cidade, no intuito de fazer aulas de dança e exercer outras atividades culturais como participar dos festivais, irem à praia, aprender a língua e a cultura (Figuras 09 e 10).
Figura 09 - Turista dinamarquesa, fazendo aula de dança silvestre – Liceu de Artes - 2007 Figura 10 - Turistas dinamarquesas, jantando ao som do Jazz no Restaurante Olivier - 2007
Fonte: Daniel de Albuquerque Ribeiro, 2007
A visitação era facilitada por dois aspectos. O primeiro era econômico - a moeda brasileira estava menos valorizada no período, o que possibilitava maior fluxo
turístico vindo dos países europeus. O segundo se dava a um fator, talvez para muitos, desprezível, mas, que fez em alguns aspectos a diferença como interposto inicial e facilitador da criação de vínculos entre aquelas que faziam o turismo e a comunidade que estava estabelecida no lugar. As redes sociais estabelecidas entre um pequeno grupo de dinamarqueses e brasileiros entre os dois países. Destaca-se a combinação de apenas dois elementos dos fatores observados – o da escala mundial com o do fator social.
Um exemplo é o de uma moradora do bairro do Santo Antônio Além do Carmo, que aluga quartos de sua casa às turistas, principalmente as dinamarquesas. Essa moradora também oriunda da Dinamarca tem sua posição em muitos aspectos estratégica para facilitar esse intercâmbio inicial entre os visitantes e os “nativos” – mesmo que os hospedes não fiquem na residência por muito tempo. O que aconteceria se essa habitante, que atualmente participa de um grupo de maracatu, fosse morar em Recife?
Essa pequena mudança de um único elemento poderia influenciar em uma redução “insignificante” da leva turística vinda do país Nórdico para a “Roma Negra”. Da mesma forma, que, com a valorização da moeda brasileira, essas turistas que vinham anualmente, deixaram de vir ao país, ou em alguns casos à cidade.
Aliado a isso, está o papel de um grupo que trabalha com aspectos culturais brasileiros na Dinamarca, o Bagunçaço. Esse grupo tem uma importante contribuição na difusão da cultura brasileira sendo ponte entre os dinamarqueses que conhecem teoricamente sobre o Brasil em seu país e se deslocam para o país latino americano no intuito aprender mais. Qual seria o impacto do fim desse grupo que é coordenado por um baiano que vive em Copenhague? Provavelmente um panorama negativo de cada situação isolada possa oferecer uma modificação irrisória, mas, em um efeito de cadeia ou ainda e se somarmos os três fatores a outros? É a combinação desses pequenos aspectos que passam despercebidos nos olhares dos planos estatais e que na maioria dos casos fica esquecido nas grandes teses que buscam compreender o espaço e os processos sociais. São acontecimentos aparentemente insignificantes que podem desencadear um efeito caótico que afete toda ordem de uma estrutura.
Outro exemplo de como se configura a questão defendida pode ser demonstrado com o bloco de Japoneses Natakatushia. Há algum tempo que um
migrante Japonês veio residir no bairro do Santo Antônio Além do Carmo. O Sr. Nagoya aprendeu instrumentos percussivos da cultura baiana e começou a ensinar para os japoneses que vinham visitar a cidade (Figuras 11 e 12).
Figura 11 - Bloco Natakatushia – 2006 – Santo Antônio Além do Carmo Figura 12 - Bloco Natakatushia – 2009 – Pelourinho
Foto: Daniel de Albuquerque Ribeiro. 2006 e 2009
A casa do mesmo em períodos próximo ao Carnaval chama a atenção devido à quantidade de Nipônicos que hospeda. Todos participam do bloco Natakatushia que já ultrapassa o número de 50 integrantes. As questões hipotéticas a serem pensadas tanto na conjuntura global como na local são: será que esse mesmo número de participantes estaria presente no Carnaval de 2011, se o episodio do Tsunami¹ que afetou o Japão tivesse ocorrido um mês antes da festa? Se o líder do bloco por algum motivo fosse embora da cidade, será que a “tradição” continuaria?
Uma ressalva sobre o coordenador do grupo é que ele está na estatística de estrangeiros que passam parte do ano em seu país de origem e a outra parte em algum dos bairros do parque. No caso em questão o mesmo trabalha seis meses no Japão para ganhar dinheiro e vem passar os outros seis meses na cidade de Salvador.
Por fim, é possível pensar quais seriam as possíveis consequências para o turismo da cidade se um filme que falasse sobre capoeira, fizesse sucesso do nível de Roque Balboa, por exemplo. Sabe-se que os grupos de capoeira já exercem grande importância para a atração de levas turísticas para a cidade. Basta dizer, que muitas escolas de Capoeira que estão se disseminando pelo mundo, exigem como critério para a formação do capoeirista uma espécie de “peregrinação” à Salvador, onde o aluno recebe o cordão (Figuras 13 e 14).
Figura 13 - Jogo de Capoeira no largo do Pelourinho
Figura 14 - Jogo de Capoeira, ao fundo, a cidade Baixa e Cidade Alta de Salvador.
Fonte:http://www.emule.com.br/, acessado em 07 Jul 2011
Durante a pesquisa conversou-se com estrangeiros que vieram para a cidade no intuito de aprender a arte. Oriundos do Canadá, Estados Unidos, Argentina e diversos países da Europa. Esses visitantes buscam inicialmente aprimorar as técnicas de capoeirista, mas, no processo, criam laços com o lugar. Em muitos casos esse grupo de pessoas termina voltando quase que anualmente e também funcionam como agentes multiplicadores da difusão turística da cidade. Houve o caso de uma canadense que passou “clandestinamente” mais de três anos morando nos bairros do Parque Histórico, tendo se casado com um baiano depois de um tempo. Atualmente ambos estão no Canadá. Ela veio a Salvador por intermédio de uma amiga também canadense e capoeirista e em uma de suas visitas depois de casada já trouxe consigo novos visitantes.
O fato é que a capoeira representa um grande potencial para a promoção turística soteropolitana. Essa expressão cultural não foi planejada, concebida e muito menos promovida pelas esferas estatais. O que as ações do estado tem feito para fortalecer a mesma? Nessas questões há a dicotomia entre o que é genuinamente popular e o que é apropriado pelas ações chamadas “revitalizadoras”, que terminam por “limpar” a população que promove as mesmas. É aí que se encontra, em todas as esferas, o perigo da gentrification.
É valido realçar que no meio desse jogo de escalas entre eventos mundiais e ações de indivíduos, existe o Estado como agente fundamental para regulações regionais. Esse pode aproveitar as oportunidades que surjam no cenário mundial e buscar proteger o lugar das ameaças conjunturais. Essa proteção pode ocorrer
através do fortalecimento de fraquezas e incentivo de forças e a depender das estratégias utilizadas esse agente terá papel decisivo nos resultados da dinâmica caótica do espaço.
Outra questão que chama a atenção é que a escala de atuação local demonstrada está muito mais relacionada a uma questão da subjetividade do ser, do que necessariamente aos aspectos intervencionistas no espaço concreto. É claro que a estrutura física é importante como fator de fortalecimento social e econômico, principalmente se no lugar há uma atmosfera cultural propicia ao exercício da criatividade do indivíduo.
É por conta de tantos fatores que se faz preciso realçar esses aspectos intercomunicáveis das infinitas possibilidades de interação dos agentes modeladores do espaço. Esses, em suas diferentes escalas de atuação, bem como das influências físicas, estruturais, econômicas, geopolíticas e psicológicas que combinados, produzem os diferentes lugares que compõem o espaço geográfico. Foi pensando nessas questões que se elaborou o modelo esquemático abaixo, denominado de Esferário (Figura 15).
O Esferário é uma tentativa de representar o espaço estudado a partir da visão caótica. O modelo apresentado não traz novidades uma vez que só esquematiza conceitos clássicos da Geografia. É importante realçar de que não se trata de uma visão compartimentada, como no tradicional exemplo das gavetas que não se conectam, fragmentando os conceitos geográficos.
As esferas e os planos abrangem os elementos gerais que compõem a análise Geográfica. Dentro da pirâmide que conecta os três planos – local, regional e mundial, ficam os elementos a serem focados, no caso em questão, trata-se dos agentes modeladores do espaço. Essa pirâmide permite uma flexibilidade nos elementos pensados, o que significa dizer que um estudo geomorfológico, trará aspectos diferenciados de um estudo urbano e de um estudo sobre climatologia.
O primeiro ponto a se pensar é como reproduzir a relação complexa do espaço geográfico, sem correr o risco de tolher o mesmo. Esse é o grande desafio para todo geógrafo. O modelo trabalhado trás os planos: local, regional e mundial, bem como a paisagem abrangendo os três planos.
Cruzando as quatro categorias de análise, tem-se o tempo. Através de seu estudo é possível perceber o ritmo do processo. Sendo assim, estrutura e processo
são o que compõem o movimento do espaço. O tempo por sua vez, é o único elemento que tange o plano cósmico que engloba todas as esferas. Pode-se dizer que a tecnosfera também exerce um alcance limitado no Cosmus.
Figura 15 - Esferário
Fonte: Elaboração própria
Ainda circuncidando os planos, os elementos físicos que compõem a paisagem, influenciam nos aspectos culturais que compõem as regiões e os lugares. São eles o Clima, Relevo, Litologia, Fauna, Flora e Hidrografia. Todos esses elementos estão presentes nas quatro categorias de análise, logo, também são consequência do resultado do tempo e, por fim, estão na base das esferas sociais. As estruturas humanas podem ser estruturas sociais e estruturas físicas, contudo o segundo tipo é consequência direta do primeiro.
Em meio a isso, estão os agentes modeladores do espaço, exercendo inúmeras relações, que variarão de lugar para lugar, região para região. A divisão desses, em três grupos, possibilita compreender alguns aspectos relativos aos mesmos. Os grupos estão relacionados com as categorias de análise.
Assim, existem agentes modeladores que estão mais próximos de serem atores hegemônicos e que exercem uma influência no mundo, causando um fluxo de relações que vai do Global para o local. Por outro lado, essa mesma divisão demonstra que existem agentes mais relacionados com o lugar e que ao sofrerem a imposição da homogeneização globalizante, podem responder de diversas formas, tendo como os dois extremos, indo da alienação à oposição. Ainda na esfera local está o grupo dos excluídos, que apesar de excluído – nem sempre de toda estrutura,
é resultado do modelo estrutural que compõem, sendo portanto, parte integrante dessa organização.
No centro, recebendo influência e influenciando os outros dois planos, está a esfera Regional que pode ser vinculada com os aspectos locais ou globais, a depender dos arranjos produtivos que se dão a partir desse jogo entre as outras duas esferas. Dessa forma a dicotomia entre Globalização e Cultura, Geopolítica
Mundial e Cotidiano, Circuito Superior e Circuito Inferior da Economia,
complementarão as infinitas possibilidades de combinação do Esferário.
Diante do exposto, a questão a se pensar nesse capítulo é a de como transcorre a psicosfera que envolve o fenômeno da Gentrification. Para respondê-la, será necessário percorrer um caminho que passará por quatro direções. As duas primeiras visam compreender a lógica sistêmica hegemônica mundial e o modelo ideológico que impera no atual sistema. Os outros dois rumos analisarão a essência do lugar e a concepção sobre o processo a partir da visão dos agentes modeladores que estão mais ligados ao mesmo.