O livro e o documento
222.153 OS TIPOS DE IMPRESSÃO
Os tipos têm toda uma história. Os primeiros eram gravados em ma- deira. Foi assim que Gutenberg começou. Seu objetivo era imitar o traba- lho dos copistas e vender o produto da imprensa como se fosse o fruto de esforços caligráficos. Os caracteres eram góticos (letras de forma acom- panhadas de letras de soma). Schoeffer teve a ideia de fundir as letras. Nicolas Jenson gravou tipos que reproduziam as capitais romanas e as minúsculas emprestadas das escritas latina, francesa, espanhola, lombar- da e carolíngia, cujas formas era muito próximas. Em seguida os tipos evoluíram: Teobaldo (Aldo) Manuzio introduziu os ‘itálicos’, Granjon, o cursivo [manuscrito]. Houve Garamond, Elzevir, Didot, Bodoni, Basker- ville. O primeiro livro composto em grego é o de Lactâncio, impresso no mosteiro de Subiaco.
Louis Elzevir (Leiden, 1595) foi o primeiro que distinguiu o i (vogal) do j (consoante) e o u do v. Lazare Zetzner (Estrasburgo, 1619) introduziu nas versais o U redondo e o J com cauda.
2. Existe uma genealogia das letras, da xilografia à tipografia. A clas- sificação da letra: a) gótica; 1. a gótica de forma, 2. a gótica de soma, 3. a bastarda, tipo de transição, 2. Didot: didot tipo egípcio, latino, 3. antigo.
Há toda uma fisiologia da letra. O tipo e seu matiz influem na com-
preensão dos textos. A legibilidade dos caracteres é a aspiração suprema.4
Os tipos ou caracteres de impressão mais utilizados são os seguintes: romano, itálico (bastardo), egípcio (negrito), inglês, gótico.
1 F. Garin: Comment écrire des deux mains. Guide pratique pour les mutilés, les gauchers, les droitiers. Paris,
Nathan. Ver também os trabalhos da srta. Kipiani.
2 Code technique de la dactylo. (Revue Sténographique Belge, 15 avril 1932, p. 99.)
3 L’art de dactylographier. (Gérard G. L., L’organisation, p. 24.)
O tamanho dos tipos de impressão chama-se corpo. Os corpos dos tipos mais usados em livros são os seguintes: 6, 8, 9, 10 e 12.
4. As exigências de ordem, rapidez e clareza, que são do pensamento e da informação moderna, devem ter seus correspondentes nas exigências da indústria editorial. É preciso levar em conta as condições do leitor. Nossos nervos são postos à prova. Nossos olhos ficam muito cansados por causa do movimento da rua, do turbilhão dos anúncios luminosos e da multiplicidade de textos que a maioria de nossas profissões ou de nossos entretenimentos nos obrigam a ler. O impresso, o livro, a revista e o jornal, indispensáveis à nossa existência, devem, portanto, proporcio- nar-nos cuidados especiais e não aumentar essa fadiga. É preciso que se faça a impressão com tipos bem estudados para que a leitura se torne um
deleite e um repouso para os olhos.1
É preciso manifestar-se contra as fontes de tipo de difícil leitura. Os caracteres devem ser simples e claros. Por que criar dificuldade, quando se trata de um conteúdo que deve servir para me comunicar com o outro?
A escrita cursiva continua se diferenciando da escrita tipográfica. A condição da escrita cursiva é a rapidez, que exige ligaturas, mas estas tor- nam a escrita menos nítida. O caráter tipográfico, que serve de matriz para milhões de reproduções, pode ser de fabricação mais cuidada e visar à ni- tidez perfeita.
A letra, do ponto de vista tipográfico, foi objeto de sérios estudos fi- siológicos (citemos, dentre outros, os do dr. Javal).* Na evolução futura, terão que ser levados em consideração.
5. Os catálogos de fundições apresentam modelos de notável varie- dade. Os novos catálogos de tipos de caracteres alemães oferecem, por exemplo, os seguintes: Mainz Fraktur; Ausburger Schrift, tendendo ao latino; Secession-Grotesk; Antiqua (Bremen); Cursivo (Hinci) itálico; as escritas caligráficas: Neu-Deutsch; Grasset Antiqua; Renaissance Anti- qua; Romische Antiqua; Moderne Grotesk; Wandmalereien; Baldur; An- tiken; Behrenschrift, etc.
Os catálogos franceses oferecem, por exemplo, as seguintes catego- rias: allongées, alsaciennes, antiques, antiques allongées, antiques grasses, clas- siques, égyptiennes, italiennes, latines, blanches, ombrées, maigrettes, anglaises, ronde bâtarde, gothique.*
6. Existe atualmente toda uma indústria de fundição de tipos. Enquan- to as fundidoras de tipos não produziam mais de três mil letras por hora, a máquina Wick Rotations produz 60 mil, completamente desbastadas e prontas para serem embaladas. Essa máquina é controlada por um ho- mem e um rapazote. Foi inventada por Frederick Wicks, de Glasgow, um simples escritor e jornalista que procurava eliminar o trabalho de distri- buição das chapas tipográficas. A Monotype retomou a ideia de outra for- ma. Ela também, ao fazer, de cada vez, uma composição com tipos novos, dispensa sua distribuição.
7. A duração dos tipos depende da composição do metal. Os corpos 7 e 8 chegam a ser usados, mantendo-se legíveis, em dois milhões de im- pressões de jornais. O normal é um milhão e muitas gráficas rejeitam usar tipos miúdos depois de 300 mil impressões. No caso da impressão de trabalhos avulsos e obras que exijam cuidados, o limite deverá ficar muito abaixo disso.
1 Ver os recentes estudos da Linotype e de sua fonte de tipos Ionic, que proporciona, com mais
clareza e descanso para os olhos, uma capacidade de 13% a mais de texto com menos papel. * Para mais informação sobre termos antigos e
exemplos de famílias tipográficas francesas, há vários sítios na internet, como o Corpus Typogra- phique Français. Sobre a moderna classificação tipográfica, ver a Classificação Vox-AtyPI. Qualquer mecanismo de busca informará os sítios relevantes. [n.e.b.] * Javal, citado em outras partes deste tratado, era o médico francês Émile Javal (1839–1907), autor do pioneiro e clássico Physiologie de la
lecture et de l’écriture (Paris: Félix Alcan, 1905).
Tinha como subtítulo: suivie de déductions
pratiques relatives à l’hygiène / aux expertises en écriture / et aux progrès de la typographie, de la cartographie, / de l’écriture en relief pour les aveugles, etc. [n.e.b.]
222.16 Os sistemas especiais de escrita
Entre os sistemas especiais e as modalidades de escrita convém con- siderar: 1° a ideografia, 2° a taquigrafia, 3° a criptografia, 4° a escrita dos cegos; 5° a escrita mediúnica ou espírita; e 6° a escrita morse.
222.161 A IDEOGRAFIA
Entende-se por ideografia signos que exprimem diretamente a ideia e não os sons da palavra que representaria essa ideia: os algarismos aritmé- ticos são verdadeiros ideogramas.
Enquanto os chineses abandonam a ideografia e adotam nosso alfabe- to, o Ocidente reconhece suas vantagens e tenta retornar a ela.
Ao aprender a escrita e a ortografia, aprendem-se apenas noções, e a comunicação entre os povos reconhece os obstáculos da língua.
Os neoglyfy [neoglifos]. Nova escrita mundial do professor Alexandr Sommer Batek (Praga).
222.162 TAQUIGRAFIA
1. Noção. A taquigrafia é a arte de escrever rapidamente, por meio de abreviações, de escrever de modo tão rápido quanto a fala. Inicialmente, foi denominada ‘braquigrafia’ e ‘estenografia’. Os ingleses lhe deram o nome de shorthand, ou seja, escrita breve.
A arte taquigráfica é uma das mais preciosas invenções do século XIX. No estado atual da taquigrafia, não é impossível alcançar velocidades de 200, 240 e 250 palavras por minuto (em inglês).
2. A história da taquigrafia remonta à Antiguidade. Os hebreus a co- nheciam, os gregos a utilizavam e era corrente em Roma. Cícero escrevia com signos inventados por Ênio e que ele ensinou a seu escravo liberto Tirão. Este os aperfeiçoou (Notae tironianae). O ensino dela se difundiu, tornando-se comum entre os particulares ter um escravo ou um liberto que escrevesse rapidamente. Foram chamados, inicialmente, em grego ta- chygraphos, em latim cursores, corredores, por causa da rapidez com que registravam os discursos. Mais tarde, esses cursores passaram a ser cha- mados notarii, por causa das anotações de que se serviam. A Idade Média conheceu a taquigrafia.
3. Na taquigrafia são suprimidos todos os acessórios da escrita, tudo o que os órgãos vocais não articulam ou que não são percebidos pelo ou- vido. Não leva em conta a ortografia. Suprimem-se até as simples vogais. Por outro lado, são empregados signos simplificados.
4. O documento taquigrafado assume um lugar cada vez mais impor- tante. É a divisão do trabalho. O trabalho da composição literária é subs- tituído pelo da improvisação falada, a qual é registrada pelo taquígrafo. Todos os debates públicos, nos parlamentos, nos conselhos e nas comis- sões produzem uma literatura enorme. Os próprios métodos de trabalho pessoal se transformam sob o império da taquigrafia. Theodore Roosevelt deu exemplo ao ditar a seus taquígrafos seus discursos e mensagens ao Congresso, bem como as minuciosas respostas às cartas que lhe envia- vam. Depois dos Estados Unidos, chegou a vez da Europa, com o notável desenvolvimento do emprego de taquígrafos por particulares. São os es- tenodatilógrafos.
5. Nas assembleias e congressos, existe um serviço permanente de ta- quigrafia, que é, comumente, assumido por duas equipes de dois taquí- grafos que se revezam em turnos de 15 minutos por hora. Tão logo chega
o fim de seu turno, os dois taquígrafos se retiram para que cada um dite a datilógrafos a metade do apanhamento.
6. Existe uma grande variedade de sistemas de taquigrafia (Astier, Conen de Prépean, Aimé Paris, Duployé, Meysmans, Prévost-Delaunay, Stolz, etc.)
A ‘brevigrafia’, inventada por Raoul Duval, utiliza as letras do alfabeto e a pontuação datilográfica, o que permite ‘brevigrafar’ um discurso com uma máquina de escrever.
7. Taquigrafia mecânica. A taquigrafia mecanizou-se. Maquininhas admi- ráveis foram inventadas, principalmente a Sténophile Bivort. Suas vanta- gens são: completa ausência de métodos difíceis de aprender; escrita com letras alfabéticas comuns; facilidade de aprendizagem; leitura possível por todos; nenhuma fadiga; velocidade ilimitada, ultrapassando de longe a fala humana; mecânica simples, leve, pouco volumosa e silenciosa; possibilida- de de taquigrafar em todas as línguas e mesmo na escuridão.
Taquigrafa e relê perfeitamente as línguas sem compreendê-las. Uma fábula conhecida, que tem 70 palavras, é escrita em 10 segundos, o que significa a velocidade de 420 palavras por minuto.
8. Documentação taquigráfica. A Associação Internacional de Taquígra- fos formulou o projeto de concentrar em uma única biblioteca todos os documentos cujo denominador comum seja o de resultarem da taquigra- fia. (Ver as comunicações feitas sobre esse tema pelo sr. Depoin ao IIB.)
9. Problemas. Os problemas a resolver são de três graus: 1º Uma taquigrafia pessoal eficaz;
2º Uma taquigrafia legível para todos; 3º Um único sistema de taquigrafia.
A escrita taquigráfica mental seria mais rápida do que a escrita alfabé- tica, de tal sorte que a taquigrafia abriria caminho para a escrita e a leitura rápidas.
É preciso:
a) formular os desideratos da taquigrafia, b) ampliar todas as possibilidades de sinais, c) criar escritas para avaliar sistemas, d) criticar os sistemas,
e) combinar em um único sistema as vantagens reconhecidas de todos os sistemas e aperfeiçoá-los.
Existe um grande número de sistemas taquigráficos. Vêm sendo envi- dados esforços visando a alcançar a unificação taquigráfica, não somente por língua, mas até internacionalmente (reivindicações formuladas por Forci e Broda).
Verificou-se que uma tabela completa de fonogramas teria por volta de 150 sinais.
222.163 CRIPTOGRAFIA
1. A criptografia é a arte das escritas sigilosas. A ela foram atribuídos diversos outros nomes: criptologia, poligrafia, esteganografia, etc.
2. Em todas as épocas, governos, estadistas, embaixadores e militares valeram-se do que se convencionou chamar linguagem cifrada. Para isso, são utilizadas chaves, grades, livros com páginas marcadas, cartas de jo- gar, livros impressos (O escaravelho de ouro, de Edgar Allan Poe).
Durante a guerra, o Bureau des Chiffres do estado-maior francês foi in- cumbido de reconstituir o sentido de todos os radiogramas convencionais.
Em diplomacia, a criptografia teve de desenvolver-se paralelamente à prática do cabinet noir* pelos governos junto aos quais os embaixadores acreditados fazem muitas vezes passar sua correspondência.
Homens de ciência empregaram escritas secretas. Francis Bacon, por exemplo, provavelmente valia-se da criptografia, como meio de registro científico de versos que ele destinava à posteridade científica. Essas ver- dades seriam ininteligíveis para os contemporâneos ou sua revelação se- ria perigosa para ele. (Bacon-Shakespeare. Mercure de France, 15–IX–1922.) 3. Os sistemas utilizados em diplomacia são numerosos: método de Júlio César, japonês, do paralelogramo, de Scott, do conde Grensfeld, de Bacon, etc.
As combinações são infinitas. A decifração é feita por tentativas, ba- seada numas vinte regras (por ex., a da repetição de letras).
4. A chave de um código é o alfabeto acordado de antemão. Distin- guem-se várias espécies: o código de chave simples é aquele em que sempre se usa o mesmo alfabeto para substituir as diversas letras de uma mensa- gem, e o código de chave dupla é aquele em que o alfabeto é mudado a cada palavra. Utilizam-se ainda zeros, sílabas ou mesmo frases sem sentido que são misturadas com os caracteres que têm sentido. Para aumentar ainda mais a dificuldade de leitura das mensagens em código, emprega-se uma grade, um pedaço de papelão recortado, de modo imprevisto, no dia, e que, quando colocado sobre as mensagens somente, deixa aparecer os caracteres necessários, pois os que foram usados como enchimento so- mente são acrescentados pelo remetente depois de escrita a mensagem.
O sistema mais simples de escrita cifrada consiste em escrever as 24 le- tras do alfabeto (exceto o j) em duas linhas horizontais e paralelas. Quan- do se deseja disfarçar uma palavra, basta representar as letras dela pelas letras correspondentes na outra linha. Não passa de um brinquedo infan- til. Os sistemas empregados na diplomacia são muito mais complicados.
Outro exemplo de escrita sigilosa. Escolhe-se um livro qualquer do qual os destinatários possuam um igual. Empregam-se grupos de quatro algarismos, em que o primeiro é o número da página, o segundo é o da linha, o terceiro é o da palavra, e o quarto, da letra. Obtém-se, por exem- plo, o criptograma 6432, 7626, 3214, 8217, 8219, 2314 para designar V E R D U N, onde 6432 significa página nº 6, linha n° 4, palavra nº 3, letra nº 2.
O recurso a alfabetos secretos é ilusório, pois a quantidade de combi- nações é limitada e decodificadores habilidosos geralmente acabam por descobrir a chave. Isso requer inúmeros conhecimentos, o domínio de línguas e uma paciência a toda prova, pois somente depois de uma infini- dade de tentativas é que se consegue atingir o objetivo.