4. ANÁLISE DOS EFEITOS DA POLÍTICA DE INCENTIVO FISCAL
4.5. OS VALORES CAPTADOS, A RENDA E O PÚBLICO.
Os níveis de investimentos realizados pelo Estado, ao longo de todo o período, por meio de incentivo fiscal, foram da ordem de 2,2 bilhões23. Conforme Gráfico – 5, pode-se observar que os valores captados apresentaram oscilações no período, chegando aos maiores valores de recursos públicos aportados no ano de 2007. Parte-se de níveis de captação de seis milhões em 1995, para alcançar valores próximos a 180 milhões em 2006 e 2007. Após esse período, os valores captados oscilaram em torno dos 130 milhões, sendo que, em 2013, houve um novo salto, alcançando patamares próximos a 150 milhões.
Vale relembrar que com a entrada em vigor da Lei 11.437/06, em 2006, foram instituídos dois novos mecanismos de incentivo, os Art.º 1 – A e Art.º 3 – A. Houve, portanto
maior diversificação de possibilidades de captação de recursos. No entanto, esse quadro não representou um aumento contínuo dos valores captados pelas produtoras.
Fonte: ANCINE. Elaboração Própria
Quanto à renda obtida nas salas de exibição, pode-se observar um crescimento contínuo nos valores auferidos entre 1996 e 2001, quando foi instituído a ANCINE, atingindo cerca de oitenta e cinco milhões. Após o rearranjo institucional, houve acomodação da renda auferida em 2002, seguido de um grande salto na renda obtida no ano 2003, ocasionado pelo sucesso de algumas obras nacionais. Em termos de renda, esse ano, representou para os filmes nacionais recursos próximos aos R$ 230 milhões.
Esse resultado foi possível devido à conjunção de fatores que tiveram efeitos temporários no aumento da renda. As principais razões estão relacionadas às mudanças relativas que estimularam a utilização do Art. 3º da Lei do Audiovisual pelas distribuidoras estrangeiras, junto com a atuação da Globo Filmes, que possibilitou ações fortes de marketing em determinados filmes brasileiros. Mas o efeito se mostrou conjuntural, voltando, nos anos seguintes, a patamares de renda bem inferiores. (IKEDA, 2011, pg. 75)
Esse patamar só foi retomado em 2009, já sobre influência da operacionalização dos programas de fomento direto provenientes do FSA. A partir desse ano, a renda obtida passou a ter uma trajetória de crescimento mais persistente, contanto com dois picos, que ultrapassaram os duzentos milhões de reais. Os anos de 2010 e 2013, nesse processo, alcançaram valores superiores a R$ 250 milhões.
Quando se observa a eficiência dos gastos de forma agregada, comparando a quantidade de valores captados com relação a renda obtida, verifica-se um saldo negativo em quase todos os anos até 2008. Na retomada do cinema brasileiro, período aqui considerado até 2001, apenas no primeiro ano, houve um saldo positivo de cerca de 38 milhões. No período restante, chegaram a ocorrer déficits de duzentos e dez milhões de reais.
Após a entrada em vigor da MP 2.281/01, os anos de 2003 e 2004 apresentaram saldo positivo dos gastos sob essa perspectiva, com valores consideráveis no ano de 2003, da ordem de quase R$ 107 milhões. A seguir, no entanto, esse saldo diminuiu, alcançando valores negativos entre 2005 e 2008.
Somente a partir de 2009, é que a renda obtida pelos filmes foi constantemente maior que os valores captados. Apresentou saldo positivo de mais de 100 milhões nos anos de 2010 e 2013. Esse melhor rendimento parece estar alinhado com a operação do fomento direto, resultados dos investimentos automáticos e, principalmente, dos investimentos realizados pelo FSA. Os valores aportados por esse Fundo na etapa de produção, por exemplo, foram da ordem de vinte milhões de reais em 2009, sessenta milhões em 2010 e 2011, um milhão em 2012 e cem milhões em 2013.
Esses valores vão se refletir de maneira mais intensa apenas nos anos posteriores a essa amostra, pois grande parte desses investimentos foi aportada em obras que ainda estão em fase de produção, não tendo sido lançadas nos cinemas. No entanto, uma parcela desses valores já foi aqui contabilizada, pois já compuseram os orçamentos de uma série de filmes lançados comercialmente a partir de 2009. Esses são filmes que seguem padrões mais comerciais, contribuindo para uma resposta positiva do acréscimo na rentabilidade do conjunto das obras lançadas.
Fonte: ANCINE. Elaboração Própria
Quanto ao comportamento do público pagante, conforme Gráfico – 6, percebe-se uma tendência de crescimento no período. Em 1995, o filme nacional contou com pouco mais de três milhões de espectadores, chegando em 2002 a sete milhões. Em 2003, houve um pico no tamanho dos espectadores que assistiram ao conteúdo nacional, alcançando cerca de 22 milhões de público. Esse número só foi superado em 2013, onde se alcançou um público de mais de 23 milhões. Nesse ínterim, houve oscilação do público, com variação entre dezessete milhões e oito milhões de pagantes no ano de 2008.
Ao se comparar os efeitos do crescimento dos valores captados com relação ao público, parece que não houve uma relação direta entre essas variáveis. Dos dezenove anos verificados, em oito anos o crescimento do público acompanhou o crescimento dos valores captados e, em três anos, a diminuição da captação de recursos foi acompanhada pela diminuição de público. Nos demais sete, cinco anos de crescimento do valor captado foi acompanhado de queda de público e dois anos de diminuição do valor captado implicou aumento da renda.
Outra maneira de observar o rendimento dos gastos públicos no setor é constatar a média dos valores investidos via renúncia fiscal em relação ao público alcançado no ano. Nesse parâmetro, os números apontam para grande maioria dos anos uma média de 5 a 10 mil reais investidos por espectador, sendo que em 1995 essa média foi de mil reais por espectador. Acima dessa média estão os anos de 2006 a 2008, em que o custo do filme por expectador aumentou, ficando entre 12 a 15 mil reais por espectador.