De acordo com Aires Gameiro (1998) é preocupante que um grupo significativo de consumidores de álcool se declare consumidor simultaneamente de tabaco e, embora em números mais reduzidos, de droga.
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O PNS refere que há comorbilidade de consumo de álcool e consumo de outras substâncias, tais como benzodiazepinas e substâncias ilícitas, quer na doença actual, quer nos antecedentes pessoais dos indivíduos afectados (PORTUGAL. Ministério da Saúde. Direcção-Geral da Saúde, 2004).
Existem estudos que provam que é muito frequente o doente com SDA consumir outras substâncias aditivas no curso da sua doença. Segundo Staines et al. (2001) o diagnóstico conjunto de dependência de álcool e de outras drogas ao longo da vida do doente dependente de álcool é de 64%. De acordo com este dado facilmente se estima que em cada 10 doentes alcoólicos existem cerca de 6 deles que podem usar ou ter usado outras substâncias aditivas, o que de facto nos revela a importância de se estudar a história de uso de outras substâncias em doentes com SDA. No estudo de Curran et al. (2000) foi encontrado que numa amostra de doentes dependentes de álcool internados para tratamento, 43% possuíam diagnóstico conjunto de dependência de outras substâncias para além do álcool.
No estudo de Staines et al. (2003) 68% dos doentes SDA/SAA usavam concomitantemente diversas substâncias; 53% cocaína, 16% opiáceos, 24% cannabis e 12% outras drogas. Neste estudo e com alguma surpresa, chegou-se ao resultado de que o uso de outras substâncias na admissão ao tratamento se mostrou um factor protector de um mau resultado aos 12 meses de seguimento após admissão ao tratamento. Segundo o mesmo autor, o facto de quem usava outras drogas ter tido melhor resultado aos 12 meses pode ser explicado pelo facto de já se ter encontrado uma associação negativa entre o consumo de drogas e o consumo de álcool em doentes com SDA/SAA (Staines, 2001). Neste último estudo, é sugerido que nos doentes com SDA/SAA quem consome outro tipo de drogas bebe menos álcool por dia em comparação com quem não consome outras drogas. No entanto, neste mesmo estudo de Staines et al. (2001), dentro do subgrupo dos doentes SDA/SAA que consomem outras drogas, existiu uma correlação no sentido
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em que a frequência de dias de consumo de álcool está positivamente correlacionada com a frequência de dias de uso de outras drogas. Este resultado sugere para quem consome álcool e outras drogas concomitantemente, que mais dias de uso de álcool estão associados a mais dias de uso de outras drogas (embora num dia de consumo de álcool, quem usa outras drogas possa consumir em média menos álcool).
Walton et al. (2003) efectuou um estudo de factores de prognóstico da recaída em álcool e/ou outras substâncias durante um período de seguimento de 2 anos após admissão a tratamento em internamento ou ambulatório. Neste estudo, encontrou que perto de 60% dos doentes consumiam diversas substâncias em simultâneo – Polysubstance users. Entre os doentes que consumiam diversas substâncias em simultâneo, o álcool era a droga de escolha em cerca de 80% dos casos. Este dado revela a importância da concomitância entre o álcool e outras substâncias, ainda mais, se pensarmos que perto de metade da amostra total consumia álcool concomitantemente com outras substâncias (48%). Para além do álcool, o estudo envolveu substâncias como a cocaína, heroína, opiáceos, alucinogéneos e cannabis.
No estudo de Gordon et al. (2006) cerca de 50% dos doentes internados para a dependência de álcool também registaram o uso de outras substâncias na admissão, incluindo cocaína e marijuana. No estudo de Neves Cardoso et al. (2006) verificou-se que cerca de 24% de doentes alcoólicos admitidos a tratamento consumiam concomitantemente outras substâncias. No estudo de McKay et al. (1998), quase metade dos doentes dependentes do estudo (48%) tinham dependência conjunta de álcool e cocaína.
No estudo de Callaghan e Cunningham (2002) sobre factores de prognóstico de readmissão a internamento para desintoxicação de doentes com PLA e/ou outras substâncias, foi encontrado numa amostra de 1390 doentes que 62% consumiam álcool como droga de primeira escolha, 22% cocaína, 11% opiáceos, 2,3% BZD e 5,6% outras substâncias na admissão a
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desintoxicação. Foi ainda encontrado no estudo destes autores, que o uso de múltiplas drogas (incluindo o álcool) na admissão a desintoxicação era um factor de risco estatisticamente significativo para readmissão em internamento para desintoxicação num período de 3 anos de seguimento. Também, quando o álcool foi considerado como droga de primeira escolha na admissão a desintoxicação, concluiu-se ser um factor de risco estatisticamente significativo para um pior resultado, ou seja, o consumo de álcool como escolha de droga de preferência estaria estatisticamente associado a mais readmissão para desintoxicação em internamento. No estudo de Blondell et al. (2006) envolvendo doentes de álcool e/ou outras substâncias foi encontrado que 56% dos doentes revelavam dependência de álcool, 29% heroína, 13% outros opiáceos e 3% cocaína. Neste estudo, e contrariamente ao estudo de Callaghan e Cunningham (2002), os doentes cuja droga de dependência primária era o álcool recaíram menos que os doentes cuja dependência primária era outra substância, sendo o resultado estatisticamente significativo.
No estudo de Rounsaville et al. (1987), envolvendo uma coorte de doentes SDA/SAA em tratamento e seguido durante 1 ano após alta ao internamento, observou-se que um uso concomitante de outras drogas medido na admissão ao tratamento estava estatisticamente associado a um pior resultado ao fim de 1 ano, tanto para homens como para mulheres.
No estudo de Chong e Lopez (2008) sobre factores de prognóstico de recaída em álcool aos 6 e 12 meses de seguimento após internamento de 45 dias para PLA e/ou problemas de outras substâncias, realizado em mulheres de etnia americana índia, foi encontrado que o anterior uso de drogas assim como o número de tratamentos anteriores para problemas de drogas eram factores de prognóstico protectores da recaída em álcool aos 6 meses, sendo os resultados estatisticamente significativos após ajustamento por regressão logística múltipla.
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No estudo transversal de Schuckit et al. (1997) realizado com 1853 doentes alcoólicos, é estimado que no curso do alcoolismo quase metade dos doentes com SDA (49,4%) tenham tido alguma dependência de droga, nomeadamente, marijuana, anfetaminas, cocaína, opiáceos, e sedativos hipnóticos. Relativamente à prevalência de períodos longos de abstinência (pelo menos 3 meses de abstinência), os resultados apontam que o ter tido alguma dependência de outras drogas no curso do alcoolismo, o ter usado cocaína, o ter usado opiáceos e o ter usado hipnóticos sedativos, eram factores estatisticamente associados a uma superior prevalência de abstinência. Ainda segundo este autor, os doentes alcoólicos com longos períodos de abstinência eram mais passíveis de terem perturbações de personalidade anti-social e terem usado outras drogas. No entanto, dentro dos doentes que tiveram longos períodos de abstinência, os resultados sugerem também que os doentes alcoólicos que conseguiram estar abstinentes mais extensivamente, digamos 5 ou mais anos, tinham menos comorbilidades de uso de outras substâncias.
Deste modo, parecendo a comorbilidade aditiva a outras substâncias tão prevalente entre os doentes alcoólicos, torna-se muito relevante estudar este aspecto numa população portuguesa específica de doentes alcoólicos. Nestes estudos revistos, os resultados são algo contraditórios, apontando nas duas direcções, ou seja, a comorbilidade de consumo de outras substâncias podem aumentar o risco de recaída, mas também podem funcionar como factor protector da recaída.