Nos estudos de doentes com PLA é muito frequente encontrar efeitos estatisticamente significativos (p<0,05) com magnitudes de razão de riscos entre 1,5 e 2,5 (ou algo superior) para factores que agravam a recaída, e de modo inverso magnitudes de razão de riscos entre 0,67 e 0,40 (ou algo inferior) para factores protectores da recaída. Note-se que quanto mais afastado de 1 tiver a razão de riscos, maior é a magnitude do efeito, quer o factor seja agravante do risco quer seja protector.
A título de exemplo podemos observar alguns efeitos estatisticamente significativos apresentados na literatura, e que dizem respeito a alguns factores de relevo para o estudo, tais como os efeitos na recaída de características sócio demográficas, indicadores de gravidade do SDA e variáveis de tratamento. As magnitudes dos efeitos que poderemos ilustrar a título de exemplo são o RR=1,66 de recaída para homens versus mulheres (Glenn; Parsons, 1991), o OR=2,4 de recaída dos solteiros (Terra et al., 2008), o OR=3,7 de recaída para os doentes que já tinham recebido tratamento prévio (Terra et al., 2008), o OR=1,9 de recaída para o número de tratamentos anteriores (Chong; Lopez, 2008), o OR=2,5 de recaída para os doentes com uso concomitante de outras substâncias (Blondell et al., 2006), o OR=4,4 para os doentes que já tinham recebido tratamento prévio no âmbito da sua saúde mental (Blondell et al., 2006), o OR=5,5 para os doentes que já tinham tido processo judicial com pena de prisão (Blondell et al., 2006), o RR=2,5 de recaída para os doentes com comorbilidade ansiosa (Kushner et al., 2005), o OR=3 de recaída para os doentes com depressão (Curran et al., 2000), o RR=2,1 de recaída para os doentes com depressão (Greenfield et al., 1998), o RR=0,46 de recaída dos doentes com depressão (Terra et al., 2008), o OR=2,5 de recaída para os doentes com um pior nível de problemas psicológicos (Sander; Jux, 2006), o RR=0,67 de recaída para os doentes que fizeram tratamento com ou sem AA versus não terem feito
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qualquer tratamento (Moos; Moos, 2006), o OR=0,32 de recaída para os doentes com participação em AA (Terra et al., 2008).
Dada a disponibilidade de recursos, a limitação temporal do estudo, e de forma a consolidar outros objectivos de investigação (fora do âmbito desta tese) planeou-se incluir no estudo uma amostra de n=209 doentes. Vejamos então qual o valor desta amostra em termos de potência deste estudo de factores de prognóstico, ou seja, a capacidade do estudo para detectar efeitos que realmente existem.
Assumindo uma taxa de recaída de 60%, o estudo tem potência de 80%, 85% e 90% para detectar efeitos de razão de riscos respectivamente iguais ou superiores a 1,3, 1,32 e 1,33, para factores agravantes da recaída – de acordo com método de determinação da dimensão amostral em estudos comparativos de Pocock (1983). Este mesmo estudo tem potência de 80%, 85% e 90% para detectar efeitos de razão de riscos numericamente iguais ou inferiores respectivamente a 0,68, 0,67 e 0,63, para factores protectores da recaída. Note-se que 0,63 apesar de ser um número inferior a 0,68 representa de facto um efeito superior, pois está mais afastado do valor unitário de hipótese nula para a razão de riscos.
Deste modo, este estudo tem uma elevada potência para detectar efeitos entre os 1,5 e 2,5, pois são magnitudes superiores a 1,33 e logo a potência será superior a 90%. Simultaneamente o estudo tem uma elevada potência para detectar efeitos entre os 0,67 e 0,40, pois são numericamente inferiores a 0,68 e logo a potência será igual ou superior a 85%.
Refira-se ainda que estes dados de potência que acabámos de referir devem ser vistos unicamente como um indicador da capacidade que o estudo tem para detectar efeitos realmente existentes. Os estudos observacionais em alcoologia que revemos, nos quais estão incluídos os estudos que acabámos de referir a título de exemplo, não costumam apresentar dados sobre a
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potência, naturalmente em grande parte devido ao seu carácter observacional e exploratório. Uma rara excepção encontrada nos estudos observacionais foi o estudo coorte de Blondell et al. (2006) em que é referida uma potência de 80%. Na grande generalidade dos estudos em alcoologia por nós revistos, a potência foi mais referida nos ensaios clínicos, por exemplo, no ensaio clínico do ACA versus PLC de Chick et al. (2000) em que é referido uma potência de 95%, ou no ensaio clínico de ACA versus um grupo controlo de tratamento sem ACA de Kiritzé Topor et al. (2004), em que é referido uma potência de 80%. Mas mesmo em alguns ensaios clínicos dos fármacos ACA, DIS e NTX não é feita qualquer referência à potência (Laaksonen et al., 2007; Rubio et al., 2001; Barrias et al., 1998). No entanto, apesar destes aspectos, parece-nos importante ter uma indicação que podem existir efeitos no nosso estudo que são detectados com uma potência de pelo menos 85%, o que representa de facto um valor relevante para a potência.
3.4 – Operacionalização de variáveis no estudo
O questionário que serviu para a recolha de informação encontra-se em anexo (Anexo 5) tendo sido preenchido por um técnico do CRAS licenciado e com treino na área de psicologia clínica, e pelos 8 médicos participantes na investigação. Em termos práticos, toda a informação relativa aos critérios de selecção dos doentes incluindo a verificação dos critérios DSM-IV, o preenchimento do ARPQ na admissão ao tratamento, a recolha de informação sócio-demográfica, a história relacionada com o consumo de álcool e outras substâncias e a avaliação clínica e prospectiva ao longo das consultas, foi efectuado pelo referido psicólogo clínico do CRAS, em conjunto com os 8 médicos participantes.
Não foi efectuado propriamente um pré-teste do questionário em anexo, à excepção do ARPQ, uma vez que a informação do questionário faz parte dos processos clínicos habitualmente preenchidos pelos 8 médicos na sua prática de tratamento de doentes com SDA. Em relação ao ARPQ, uma vez que foi
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traduzido para português, foram revistos e validados pelos 8 médicos da investigação e o referido psicólogo clínico os conteúdos do ARPQ em português. Após esta validação dos conteúdos, foi efectuado um pré-teste a 10 doentes de modo a validar com os doentes a versão traduzida para português. Dado os resultados favoráveis da compreensão dos doentes face à tradução, foi considerada que a versão traduzida seria válida para aplicar no estudo.
A informação do consumo de álcool ao longo dos 6 meses de tratamento ambulatório, no que respeita a dias com consumo e quantidade de álcool consumida, foi registada num calendário mensal de registo diário, com preenchimento da responsabilidade dos doentes e seus co-responsáveis, sendo este diário extra ao questionário. No entanto, a informação que consta do questionário sobre o consumo de álcool ao longo das consultas serviu também para validar a informação do diário de consumo de álcool. Na secção referente às variáveis dependentes que constam do estudo, será feita uma apresentação detalhada desta informação do consumo de álcool.
A identificação de todas as variáveis a serem operacionalizadas neste estudo será apresentada de seguida, na sequência lógica de descrição dos factores de prognóstico, seguido das variáveis de resultado. No Anexo 4 encontra-se descrito um plano detalhado de operacionalização de todas as variáveis que serviram de base para o estudo, podendo ser consultado para se aceder a informação mais específica das variáveis operacionalizadas. No entanto, existiram outras variáveis que não constaram propriamente deste plano mas que foram calculadas em função destas ao longo da apresentação de resultados. Por exemplo, a partir das variáveis idade do doente e tempo de consumo de álcool que constam no plano de operacionalização, facilmente se calculou a variável idade do início do consumo excessivo (idade do doente menos a duração do consumo).
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Os dados dos doentes foram informatizados em SPSS – Versão 14, tendo sido o planeamento e gestão da informação efectuado pelo referido psicólogo clínico com a consultoria e colaboração do autor do presente trabalho.
Em suma, a informação de todas as variáveis do estudo foi fornecida pelos médicos responsáveis pelo tratamento dos doentes e pelo referido psicólogo clínico, em conjunto com a informação auto reportada dos doentes e seus co- responsáveis. Vamos distinguir as variáveis que representam os factores de prognóstico – as variáveis independentes do estudo – das variáveis que representam os resultados do estudo – as variáveis dependentes.