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Outros autores relevantes para o debate sobre o Capital Social

2.2 PRINCIPAIS CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS NA LITERATURA SOBRE

2.2.4 Outros autores relevantes para o debate sobre o Capital Social

Na construção do quadro teórico, cumpre, ainda que brevemente, registrar a

contribuição fornecida por Banfield, Fafchamps, Granovetter, Narayan e Nan Lin.

2.2.5.1 Granovetter

Granovetter (1985) ressalta que os laços interpessoais fortes, tais como

parentesco ou amizade profunda, são suplantados, no que se refere à coesão

comunitária e à ação coletiva, pelos laços interpessoais fracos, a exemplo de

conhecidos ou colegas de associações comunitárias.

Granovetter argumenta quanto a necessidade de estimular a confiança nos

sistemas de intercambio e comunicação interpessoais de que são dotadas as

sociedades. Para ele, no âmbito da participação cívica (clubes, associações,

sociedades culturais e esportivas, cooperativas, entre outras) é gerada uma

significativa interação horizontal que se constitui em fator essencial na

potencialização do Capital Social. Esse autor realça que isso ocorre porque os

sistemas de participação cívica favorecem o surgimento de sólidas regras de

reciprocidade, tornando possíveis a comunicação e o fluxo de informações,

socializando os sucessos de contribuições anteriores.

2.2.5.2 Fafchamps

Como resultado das investigações feitas na literatura por Fafchamps (1992),

ressalta-se que a generosidade das pessoas aparece durante a escassez, quando

são precárias e incertas as condições de sobrevivência individual. Nestas situações

é natural o aparecimento de comportamentos de ajuda mútua, sendo, portanto, a

reciprocidade uma conduta absolutamente necessária para o funcionamento efetivo

dos mecanismos de ajuda mutua.

O autor comenta que a interação entre as pessoas em um horizonte longo do

tempo, faz surgir a cooperação, como uma consequência natural. Fafchamps (1992)

admite que o comportamento negativo das pessoas pode ser alvo de punição no

futuro, neste particular, ficando elas sem assistência quando necessitarem.

Ele enfatiza, ainda, que a solidariedade é um tipo de seguro mútuo, pois o

que se espera de quem recebe ajuda é que no futuro possa auxiliar alguém que

esteja em situação de necessidade.

Nesta rede de solidariedade alguns problemas podem surgir. Pessoas podem

omitir sua situação real de necessidade por vergonha ou por orgulho. Algumas

outras podem efetivar ações não éticas, usufruindo, utilizando a dissimulação, de

recursos dos outros membros da rede.

Em contrapartida, o autor enfoca a solidariedade que existe em algumas

comunidades sem que para isso exista autoridade ou normas que regulem tal

comportamento.

Fafchamps (1992) enaltece a Teoria da Repetição Infinita dos Jogos como

princípio básico para a regulação da cooperação. O raciocínio é que a interação das

pessoas por um longo período de tempo sustenta a cooperação, que gerará

recompensa para cada membro da rede e a exclusão daqueles que apresentem um

comportamento oportunista.

2.2.5.3 Banfield

Em seu clássico estudo The Moral Basis of a Backward Society (apud

Fukuyama 1992, p. 98), Edward Banfield (1958) constatou que na empobrecida vila

de Montegrano, na Itália, as pessoas só se sentiam obrigadas moralmente em

relação à sua própria família nuclear. Esse fato foi denominado por Banfield pelo

termo “familismo amoral”, que desde então passou a fazer parte do vocabulário das

Ciências Sociais.

Banfield observou também que tal termo não poderia ser usado para toda a

Itália, que apresenta grandes contrastes. O Sul, que se assemelharia à vila de

Montegrano e sua quase completa falta de associações; e o Norte da Itália, onde

floresceria uma densa rede de organizações sociais intermediárias e se viveria

intensamente a tradição de comunidade cívica.

Putnam (1993; 1996) e Putnam e Helliwell (1995) avançaram em relação aos

achados de Banfield e mediu, na Itália, o que nominou de “comunidade cívica”: a

tendência que têm as pessoas de constituir organizações que não envolvam

parentesco. Putnam constatou a não existência de comunidades cívicas no sul da

Itália. Na região norte (Piemonte, Lombardia e Trentino) e em especial na Toscana e

na Emília-Romana presenciou uma intensa rede de comunidades cívicas

(FUKUYAMA, 1992, p. 101). Desta maneira, a “acumulação” de Capital Social no

norte e no centro da Itália foi fundamental para a promoção da prosperidade

econômica dessas regiões. Segundo Fukuyama (1992), somente as empresas

familiares da Itália que possuem alto grau de Capital Social apresentaram-se como

as mais dinâmicas, inovadoras e prósperas, situadas nas regiões central e norte.

2.2.5.4 Narayan

Sabe-se que as sociedades são divididas em classes, castas, religiões,

etnias, gêneros, etc. O que ocasiona diferentes acessos aos recursos disponíveis,

ao poder, propiciando a existência de Capital Social que conduza a resultados

positivos ou negativos.

A ocorrência de um alto grau de Capital Social no interior de um grupo foi

chamada por Narayan e Pritchett (1999) de “Bonding Social Capital”, que se refere à

união (cola), possibilitando que os membros dos grupos se mantenham unidos

mediante valores, normas e instituições compartilhadas. Pode ocorrer que aquelas

pessoas que pertencem a estes grupos sejam excluídas de outros grupos, o que

caracterizaria a falta de “bridging social capital”, relativa às “pontes” que conduzem

as pessoas de um grupo a participar de grupos heterogêneos, mais frágeis, mas que

na maioria das vezes promovem a inclusão social (Narayan, 2000; Narayan;

Cassidy, 2001; Narayan; Woolcock, 2000)

Segundo a autora, grupos poderosos podem estabelecer restrições ao

acesso, a exemplo das castas na Índia. Podem existir grupos ricos em Capital Social

que não praticam o tipo de “capital ponte” e assim não favorecem o surgimento de

uma sociedade livre de pobreza, corrupção e conflitos.

Na ausência de conexão de grupos primários entre si, os grupos poderosos

agem sobre as estruturas governamentais e excluem os outros grupos. Na

agudização deste processo, os grupos poderosos informais poderão até substituir o

Estado com as consequências danosas já vivenciadas em várias regiões do mundo.

2.2.5.5 Nan Lin

Nan Lin (2000) trata do Capital Social como recursos disponíveis na estrutura

social que poderão vir a ser acessados e/ou mobilizados em determinadas ações.

Essa definição faz admitir que a noção de Capital Social contém presenças básicas:

recursos enraizados na estrutura social; acessibilidade dos recursos pelos

indivíduos; e o uso e a mobilização desses recursos em ações propostas. Nesta

perspectiva, identificam-se no Capital Social três elementos priorizando estrutura e

ação: o estrutural (enraizamento), a oportunidade (acessibilidade) e os aspectos de

ação orientada (uso).

Esses três elementos já fazem parte do léxico das Ciências Sociais e são

normalmente citados por acadêmicos que têm o Capital Social como objeto de

estudo. Lin (1982) propõe que o acesso e o uso do Capital Social, que se constituem

em recursos enraizados em redes sociais, melhoram a posição sócio-econômica dos

indivíduos, enfatizando a idéia de que o acesso e o uso desses recursos sociais são

determinados pela posição que os indivíduos ocupam na estrutura hierárquica.