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Porque os seres humanos podem ter “capacidade de comunidade”

2.2 PRINCIPAIS CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS NA LITERATURA SOBRE

2.1.2 Franco

2.2.3.1 Porque os seres humanos podem ter “capacidade de comunidade”

A maioria das abordagens teóricas do Capital Social tem em sua base um

conjunto de pressupostos que quase nunca são explicitados. A existência destes

pressupostos é incontestável. São pressupostos filosófico-antropológicos que

tomam emprestado suas matrizes conceituais de outras ciências e ramos, como a

biologia e a biologia da evolução, construindo meta-hipóteses sociológicas a

partir de hipóteses levantadas na tentativa de explicar como funcionam os

organismos ou partes de organismos, ou na busca de explicação para

comportamentos animais.

Estudos já revelaram que só é possível analisar os fundamentos do conceito

de Capital Social desvelando seus pressupostos. Isto, em si, não é uma tarefa trivial,

Porquanto envolve elementos teóricos de procedências distintas e

status diversos: assertivas tomadas axiomaticamente por sistemas

(ou discursos) filosóficos, do tipo “o homem é um animal político”

(Aristóteles); conclusões deslizadas da biologia para a antropologia

social, como: “os seres humanos cooperam para competir”

(Alexander, 1990); especulações com as teorias da evolução – por

exemplo, sobre a existência de uma “natureza humana” – que

supostamente indicariam que o Capital Social “tende a ser gerado de

forma instintiva pelos seres humanos” (Fukuyama, 1999); além, é

claro, de todas as crenças morais (e imorais) subsumidas em teorias

econômicas, como a de que não é possível explicar o

comportamento de grupos a não ser em termos dos interesses dos

indivíduos e de que esses interesses são basicamente egoístas.

(FRANCO, 2001, p. 63-64).

Apesar disso, os economistas e outros adeptos da estrita racionalidade

[...] frequentemente expressam surpresa pelo fato de haver tanta

cooperação no mundo, uma vez que a teoria dos jogos sugere que

as soluções cooperativas são, muitas vezes, difíceis de obter... [e

continuam tendo grandes] dificuldades para explicar por que tantas

pessoas votam, fazem doações a entidades caritativas ou

permanecem leais aos seus empregadores, porque seus modelos de

comportamento egoísta sugerem que é irracional fazer isso.

(Fukuyama, 1999, p. 172).

É inevitável o surgimento da pergunta que confronta a citação acima, uma vez

que os seres humanos, além de sociáveis, obtêm recompensas emocionais pelo

reconhecimento social que advém da pratica da colaboração. Talvez a resposta para

tal questão esteja no âmbito ideológico, incrustada na teoria com o objetivo de elevar

a verossimilhança do discurso.

Para responder a esses questionamentos que estão na base da questão de

se os seres humanos podem ter capacidade de comunidade, torna-se obrigatória a

incorporação dos pressupostos do conceito de Capital Social.

A ‘capacidade de comunidade’ a que se refere o conceito de Capital

Social é constituída, fundamentalmente, pela capacidade que tem o

ser humano de colaborar ou de cooperar com outros seres humanos.

Este último termo é melhor por ser mais abrangente: ‘co-laborar’

evoca a noção de trabalho conjunto, enquanto que ‘co-operar’ se

refere a quaisquer (oper)ações conjuntas, algumas delas

fundamentais porquanto constitutivas do humano como é o caso, por

exemplo, na visão de Humberto Maturana (1988), compartilhada

aqui, do ‘con-versar’ (FRANCO, 2001, p. 66 - 67).

Se a intenção é criar sociedade, em Ocampo (2003) constata-se que é

necessário ter como ponto de partida um patamar de “acumulação” de Capital

Social, o que quer dizer, de cooperação ampliada socialmente; Se o ensejo for

mudar a sociedade, tem-se que efetuar alterações na composição (quantidade e

qualidade) desse Capital Social. Já se deixou claro que essas mudanças vão

depender do padrão que serve de referência para a distribuição do poder na

sociedade e do modo como essa adota a regulação de seus conflitos.

Portanto, há que se admitir que o desenvolvimento resulte sempre em

mudança social, tanto do padrão de organização quanto do modo de regulação

predominantes numa sociedade. À luz dessas considerações, pode-se admitir que

desenvolvimento social é primordialmente um problema de poder e de política.

Sendo assim, só poderá haver geração de Capital Social num contexto

político e todos os programas de investimento no Capital Social são de caráter

político, isto é, programas que geram mudanças de natureza política.

É preciso ressaltar que os processos de mudança social nas complexas

sociedades da contemporaneidade são bem diferentes de como imagináva-se que

ocorresse tal mudança.

As novas dinâmicas das mudanças sociais exigem a reconstrução do conceito

de Capital Social a partir de outro ponto de vista – os das teorias da

complexidade. Nesse debate, assumem lugar de destaque os pressupostos

lançados nas décadas passadas por Robert Axelrod (1994; 1997), Kenneth Arrow

(1994) e Steven Durlauf (1997), além de John Durston (2000), que apresentou a

mais importante das contribuições.

Ao tratar de investimento em Capital Social é preciso deixar claro que não se

trata de cuidar dos problemas sociais que se manifestam numa sociedade. Se

houvesse, por exemplo, um investimento maciço em saúde e educação públicas,

que naturalmente elevariam o grau de Capital Humano, isto não seria suficiente para

o aumento do Capital Social.

Ao contrário do que se pensa, o Capital Social não é consequência direta de

um elevado grau de Capital Humano. Isso, pelo simples motivo de que o “social” não

é resultado do somatório dos indivíduos. Existe uma função sistêmica que sintetiza a

natureza do fenômeno social. E é essa função sistêmica que determina a natureza

do Capital Social e também a natureza dos investimentos nesta modalidade de

“capital”.

Segundo Franco (2001), constituem programas de investimento em Capital

Social aqueles:

1) – de incentivo a formação de redes e inter-redes;

2) – baseados na parceria;

3) – que ampliam uma esfera pública não estatal;

4) – que descentralizam a gestão, distribuindo o poder de decidir e

estimulam o co-governo; e

As diversas formas de indução ao desenvolvimento local são exemplos de

uma classe de programas de investimento em Capital Social, que se caracterizam

por estabelecerem parcerias entre iniciativas do Estado, do mercado e da Sociedade

Civil, articuladas intra e intergovernamentalmente e na convergência e integração

das ações que objetivem alcançar a sustentabilidade

7

.

Explicita claramente o chamado Desenvolvimento Local Integrado e

Sustentável – DLIS, a citação que se segue:

Desenvolvimento sustentável é aquele que leva à construção de

comunidades humanas sustentáveis, ou seja, comunidades que

buscam atingir um padrão de organização em rede dotado de

características como interdependência, reciclagem, parceria,

flexibilidade e diversidade. Observar como as características acima

comparecem nos ecossistemas para tentar estabelecer seus

"correspondentes" nas comunidades humanas é uma tarefa que... a

rigor, talvez não possa mesmo ser feita sem que se avance na

compreensão mais geral do comportamento dos sistemas

complexos organizados em rede... Os esforços empreendidos nos

últimos anos pelos que trabalham com a chamada Agenda 21 Local

estão baseados na ideia de que a conquista da sustentabilidade

passa pela implementação local de processos de desenvolvimento

orientados por princípios que, em suma, expressam se não todas

pelo menos algumas das características mencionadas acima.

(FRANCO, 2000, p. 50-56).

O DLIS pode ser considerado como um exemplo típico de uma classe de

programas de investimento em Capital Social. A concepção do processo e as

especulações sobre os indicadores do DLIS mostram que o Capital Social não é

somente um fator a ser fortalecido para a promoção do desenvolvimento, mas sua

alteração sinérgica poderá vir a captar a dinâmica sistêmica das trajetórias de

desenvolvimento que buscam a sustentabilidade, assemelhando-se a um índice

integrado do funcionamento e do impacto dessas trajetórias nos seus vários níveis:

econômico, empresarial, humano e social

8

.

O que se tem presenciado é que a maioria dos programas executados pelo

Poder Público ainda não internalizaram esta concepção. Os programas sociais

7Sustentabilidade é uma função do tipo de dinâmica sistêmica que se instala num processo de desenvolvimento. Uma dinâmica sistêmica sustentável se instala quando os fatores de

desenvolvimento interagem em ciclos fechados, percorrendo círculos virtuosos, ou seja, formando laços de realimentação de reforço” (FRANCO, 2001b, p. 517).

8 As circunstancias e as operacionalizações do DLIS são muito mais ricas do que as aqui apresentadas. A densidade da explicação do seu funcionamento inviabiliza um tratamento mais ampliado do tema.

executados em todos os países são, na maioria das vezes, programas de

desinvestimento em Capital Social (FRANCO, 2001), ou seja, são programas:

 Centralizados;

 Baseados unicamente na oferta estatal;

 Sem exigência de contrapartida e sem parcerias;

 Assistencialistas;

 Administrados por estruturas hierárquico-verticais, controlados por uma

burocracia que se alimenta das carências que supostamente quer suprir;

 Clientelistas, que geram dependência dos beneficiários;

 Rígidos, que não se deixam afetar pelas inovações que desencadeiam e

que assim não modificam seu desenho original;

 São programas mortos para sociedades mortas; e

 Que impedem a gestação, o nascimento e o crescimento de

comunalidades.

Os problemas aos quais se dirigem programas sociais são eminentemente

problemas políticos – falta de empoderamento – que só poderão ser

solucionados na medida em que houver alterações nos padrões de organização

responsáveis pela distribuição do poder numa sociedade, e, também, alterações

nos modos de regulação adotados para resolver os conflitos políticos nessas

sociedades. Nesse sentido os problemas sociais só terão soluções sociais se

forem acompanhados de programas políticos, à semelhança dos programas de

investimento em Capital Social.

Franco (2001) especula que para investir em Capital Social não há uma

receita pronta, mas o desenho de uma orientação genérica que:

 Construa comunalidades em vários níveis, articulando em rede pessoas

e grupos humanos praticando formas diretas e participativas de

democracia; isso certamente gerará Capital Social (produção);

 Não interrompa o processo iniciado e acumule, cada vez mais, Capital

 Articule, então, inter-redes e amplie a democracia em tempo real no

interior desse espaço ampliado; isso certamente reproduzirá o Capital

Social numa escala ampliada (reprodução).

Investir em Capital Social significa, portanto, produzir uma perturbação

sistêmica com o objetivo de transformar a sociedade.

Estará atuando como agente político de uma revolucionária mudança

social, de modo, porém, bastante diferente do que queriam fazer os

revolucionários que deram plantão nos dois séculos passados.

Porque na era da informação passa a valer o que chamo (sem

autorização do autor) de equação de Castells:

‘comunidade-rede-inovação = mudança social’. Os processos pelos quais pode se

realizar, hoje, aquilo que chamávamos, ontem, de revolução, são

processos de inovação que introduzem alterações no padrão de

organização (o padrão de distribuição de poder na sociedade) e no

modo de regulação (o modo como os conflitos são resolvidos nessa

sociedade). Inovações que introduzem perturbações organizacionais

e regulacionais no sistema constituem estímulos que podem ser

amplificados, transformando a sociedade toda – desde que se dêem

no sentido da formação de redes e da radicalização da democracia”

(FRANCO, 2001, p 489).