ICHS ICEN
B) Outros procedimentos de coleta de dados
Embora o procedimento de coleta de dados, através de entrevistas semi-estruturadas acima descrito, tivesse proporcionado a principal fonte de informações, procurou-se, ainda, consultar documentos importantes para compreensão do problema, tendo como fontes adicionais resoluções, atas de reuniões, ementários, planos de ensino, bibliografias utilizadas, diários de classe, entre outros. Em função do caráter complementar, somente foram utilizados documentos e
17 A questão da relação entre teoria e prática, há muito exaustivamente discutida, tem sido enriquecida
informações que tivessem relação com a questão estudada. Lüdke e André (1986, p. 38-39) ressaltam a importância da utilização de documentos como fontes de informações nas investigações com abordagem qualitativa, uma vez que podem trazer dados sobre o contexto e fundamentos para outras constatações.
Também utilizaram-se as informações provenientes de observações e reflexões decorrentes do processo de investigação, que foram registradas num diário
de campo pela pesquisadora, bem como os registros dos estudantes em diários de reflexão sobre as experiências com o ensino da disciplina de Psicologia, como forma
de garantir dados importantes, não captados através dos outros procedimentos utilizados. A observação, nesse caso, não foi estruturada, atendo-se aos elementos relacionados à investigação, reconhecidos na aproximação com a realidade18. Tanto Lüdke e André (1986, p. 26-27), quanto Laville e Dionne (1999, p.182-183), ressaltam a importância da observação como forma de coletar informações inviabilizadas através de outros procedimentos e apontam para as diversas possibilidades de utilização, que também pode ser associada a outras técnicas de coleta de dados. Segundo Bogdan e Biklen (1994, p. 150), as notas de campo provenientes das observações podem trazer um suplemento valioso de informações, pois tanto as descrições como as reflexões produzidas são interessantes para realizar a análise dos dados.
Convém salientar que, durante todo o processo de coleta de dados, procurou-se não perder de vista as questões éticas: prestar os esclarecimentos necessários e obter o consentimento das pessoas envolvidas, estabelecer um acordo claro, preservar o anonimato dos informantes e o sigilo das informações, bem como garantir condições de respeito aos sujeitos - considerados aspectos fundamentais para ter-se um clima de confiança e viabilizar a conclusão do estudo. Conforme esclarecem Bogdan e Biklen (1994, p. 75), a ética constitui-se num fator importante para todo o processo de investigação, mas constitui-se, sem dúvida, em condição
sobre formação docente das última décadas. O interesse pelo assunto tem sido uma constante nas discussões, estudos e diretrizes propostas, o que justifica o empenho dessa investigação.
indispensável para estabelecer condições favoráveis para coleta de dados, durante o período de permanência no campo em um estudo de abordagem qualitativa.
Ao finalizar a fase de coleta de dados, o investigador também comunicou às pessoas envolvidas a sua saída do campo para, então, dedicar-se exclusivamente à análise das informações em sua totalidade, buscando as possíveis conclusões diante dos resultados obtidos.
4.5 - Procedimentos de análise de dados
As informações coletadas requerem tratamento para transformarem-se em resultados para o estudo. Para Bogdan e Biklen (1994, p. 205), a análise dos dados consiste no processo de busca de organização sistemática das informações coletadas, cuja finalidade é encontrar uma forma de comprendê-las e apresentá-las enquanto resultados.
Segundo Laville e Dionne (1999, p.197), para chegar às conclusões da investigação, é necessário realizar a análise e a interpretação das informações obtidas, quando os dados são estudados em relação às suposições iniciais. Para tanto, os dados brutos precisam ser preparados, tarefa que requer sempre alguma forma de organização, a fim de que possam ser utilizados na construção de conhecimentos que se pretende produzir.
A análise da dados qualitativos pode tornar-se uma tarefa de maior complexidade, uma vez que exige reavaliações dos procedimentos já realizados, buscando novas relações e inferências. Dessa forma, a análise geralmente está presente nos vários momentos da investigação (Lüdke e André, 1986; Bogdan e Biklen, 1994), realizando-se, em parte, durante o período de coleta de dados, embora seja mais sistemática e conclusiva após a saída do campo.
Como essa investigação procurou acompanhar um processo, focalizando especialmente três momentos, algumas análises preliminares foram realizadas ainda durante o período da coleta, para organizar o material e estabelecer
diretrizes para o encaminhamento do estudo. Conforme orientam Laville e Dionnne (1999, p. 214), uma primeira sistematização do material obtido torna-se necessária à medida que a coleta de dados é realizada, quando uma organização do material e um breve apanhado do conteúdo teriam a finalidade de facilitar o uso das informações. Bogdan e Biklen (1994) ressaltam que o uso de algumas estratégias de análise, durante o período de coleta de dados, já pode contribuir para sistematizar as informações e proporcionar algumas considerações importantes.
Assim, em cada etapa, após terem sido realizadas as entrevistas, foi efetuada a transcrição das mesmas e uma posterior organização preliminar do conteúdo dos relatos, para que os dados já obtidos pudessem orientar a continuidade da coleta de informações. Neste sentido, também as reflexões provenientes das anotações de campo e a análise de documentos subsidiaram algumas conclusões, contextualizando o problema em estudo no decorrer de todo o processo. Mas foi no final da coleta que foram obtidas condições para a organização da totalidade dos dados, bem como para realizar uma análise mais apurada dos aspectos que as informações podiam revelar.
Considerando-se que os relatos verbais das entrevistas constituem-se na principal fonte de dados para esclarecer a questão proposta para estudo, tornou-se necessário ter à disposição o material oriundo da transcrição das mesmas, quando se passou, então, à análise dos conteúdos das informações. Bardin (1979) e Laville e Dionne (1999, p. 214) apontam a análise de conteúdo como um procedimento de análise apropriado para uma diversidade de dados e objetos de investigação. Tendo em vista a natureza do material coletado, considerou-se um meio adequado para efetuar a análise dos dados no presente estudo.
Segundo Bardin (1979), a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas que possibilita o estudo sistemático das comunicações dos sujeitos, inicialmente por meio da descrição das mensagens e, posteriormente, pelas inferências sobre os fatores que interferiram na sua produção. Segundo a autora, a
orientados pelos propósitos do estudo e o referencial teórico que o embasa.
análise de conteúdo representa o esforço de interpretação das mensagens, oscilando entre o rigor da objetividade e a fecundidade da subjetividade, quando o investigador procura entender o que os dados querem dizer. Neste caso, a linguagem é utilizada como meio para comprender o que é investigado e conhecer a realidade, buscando o significado dos dados obtidos. A descrição e a inferência representam, portanto, o percurso para que se possa chegar à interpretação dos dados.
Para melhor viabilizar a análise, foram seguidas algumas etapas que auxiliaram na organização do processo. Bardin (1979) sugere que a análise de conteúdo envolve basicamente três fases. A princípio, ocorre a etapa de pré-análise, que corresponde aos primeiros contatos para a escolha do material, a determinação do foco da atenção e das primeiras suposições, a organização preliminar e a preparação do material. Num segundo momento, definido como período de exploração do
material, procede-se à análise propriamente dita, sendo realizado um estudo mais
aprofundado a partir do referencial teórico e da finalidade do estudo, para efetuar a codificação e organização, em função das regras anteriormente formuladas. Finalmente, pode ser efetuado o tratamento dos resultados e a interpretação, quando se procura a significação dos dados brutos, a partir do que são propostas inferências e são formuladas interpretações de acordo com os objetivos previstos.
Outros autores também oferecem elementos importantes para proceder a análise dos conteúdos. Triviños (1987), com base nas contibuições de Bardin, aponta a importância de três etapas básicas no trabalho de análise de conteúdos: a pré-análise, a etapa de descrição analítica e a etapa da interpretação inferencial. Segundo o autor, no primeiro momento, efetua-se a organização do material; na segunda fase, que é uma continuação da anterior, deve centrar-se na análise descritiva; enquanto que, na última etapa, são estabelecidas as relações e proposições, não somente em função do conteúdo manifesto, mas principalmente pelo conteúdo latente. Laville e Dionne (1999) assinalam que, numa fase exploratória, a aproximação ao material coletado leva a uma reestruturação dos conteúdos, pois possibilita a distinção de categorias significativas para classificar os conteúdos, que
permitem a definição de modalidades de recorte dos conteúdos em unidades de sentido ou temas, analisadas posteriormente segundo o procedimento escolhido19.
A análise de conteúdo oferece a possibilidade de utilização de diversas técnicas para análise dos dados, mas, nesta investigação, optou-se pela análise
categorial temática. Para Bardin (1979, p. 105), a “análise temática, consiste em
descobrir os “núcleos de sentido” que compõem a comunicação e cuja presença ou freqüência de aparição podem significar alguma coisa para o objectivo analítico escolhido”(sic). Nesta estratégia de análise, o tema constitui-se na unidade de significação, definido em função do embasamento teórico que orienta a leitura do material.
Assim, procurou-se identificar os temas recorrentes no conteúdo das mensagens dos sujeitos que, enquanto unidades de significado, podem ser agrupadas em categorias temáticas. Para realização da análise temática, foram seguidos os passos já apresentados como etapas para qualquer procedimento de análise de conteúdo. A detecção de temas deu-se por meio do exame atento do material, quando a leitura e releitura possibilitaram observar as temáticas presentes e as possibilidades de sistematização do conteúdo das informações.
A grande quantidade de informações fez a análise dos dados tornar-se uma tarefa complexa e axaustiva. Por isso, no período de exploração do material, pôde-se utilizar, inicialmente, a codificação das informações, conforme detalham Bardin (1979) e Bogdan e Biklen (1994). A codificação exige a escolha das unidades de análise, em função dos elementos significativos dos relatos que serão levados em conta na categorização.
Seguiu-se, então, a categorização, que consiste na classificação e agregação dos elementos, estabelecendo-se os agrupamentos de elementos de acordo com suas características. Para Bardin (1979, p. 117) “A categorização é uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o género (analogia), com
os critérios previamente definidos.”(sic - grifo na fonte). Embora sejam encontradas posições contrárias à definição prévia de unidades de análise, neste estudo, parte-se do pressuposto que os fundamentos teóricos orientam, a princípio, a constituição das categorias, que podem modificar-se na interação com outros elementos que se mostram significativos durante o processo de análise e interpretação, o que é definido por Laville e Dionne (1999, p. 222) como um modelo misto de categorização.
Esta posição é compartilhada por Lüdke e André (1986, p. 42-43) que alertam sobre as dificuldades na tarefa de construção de categorias e afirmam que estas surgem, inicialmente, a partir do referencial teórico, podendo modificar-se no confronto com os dados empíricos. Assim, com base no quadro teórico e na observação da recorrência dos temas no material proveniente das verbalizações, pôde-se agregar e classificar as informações que apareceram com mais freqüência, sem desprezar as demais. Neste processo, não se pode perder de vista que as categorias devem estar relacionadas com a questão estudada e com os propósitos da investigação.
Após a análise descritiva, realizada por meio da categorização temática, partiu-se para a inferência de conhecimentos relativos às condições de constituição das mensagens, detetectadas a partir dos indicadores obtidos nas mesmas. São as inferências que tornam possível a interpretação dos resultados, que consiste na busca da significação dos mesmos por parte do investigador (Bardin, 1979). Isto ocorre porque a análise de conteúdo pode fornecer informações suplementares diante do contato mais crítico com os resultados, o que leva à ampliação do conhecimento sobre a questão investigada. A finalidade última da análise de conteúdo é a interpretação, que consiste em buscar o sentido que somente pode ser encontrado nas entrelinhas, para atingir outros significados a partir dos significados e significantes detectados.
Neste sentido, coloca-se a contribuição trazida pela hermenêutica que, no entender de Demo (1997, p. 22), está no reconhecimento de que a interpretação é
preocupação com a organização sistemática e rigorosa dos dados, apesar dor espaço à intuição.
inevitável no conhecimento da realidade. Para o autor, no processo de interpretação é fundamental o domínio teórico, condição indispensável para relacionar alternativas explicativas.
Mas é Santos (1989) quem faz considerações fundamentais sobre a interpretação, a partir de uma crítica das correntes dominantes da reflexão epistemológica sobre a ciência moderna, recorrendo para isso ao que denominou de “dupla hermenêutica”. A discussão do autor parte do conhecimento sobre o “círculo hermenêunico”, que assinala que não se pode compreender uma parte, sem uma compreensão sobre o todo, e vice-versa. A reflexão hermenêutica visa tornar mais próximo e acessível o conhecimento científico, cumprindo um círculo em que é necessária a desconstrução dos objetos teóricos e das diferentes imagens que a ciência constrói para si, para conhecê-los melhor no contato com a realidade. Ao possibilitar a reflexão sobre as condições de produção e apropriação do conhecimento científico, pode-se ter uma maior compreensão da realidade social.
A importância da interpretação é evidenciada nas discussões atuais sobre a produção do conhecimento científico, estando também presente na literatura sobre o conhecimento em educação, sendo consensual, entretanto, que os dados objetivos provenientes do contato com a realidade não podem ser negligenciados. Sacristán e Pérez Gómes (1998) defendem a investigação educativa a partir de uma perspectiva interpretativa, que ocorre com a busca de significados na complexidade da vida em sala de aula. Carr e Kemmis (1988), quando discutem a produção das teorias educacionais e suas implicações para o ensino, ressaltam que a interpretação não é suficiente, mas afirmam que não se pode deixar de admitir a necessidade de categorias interpretativas que, associadas à reflexão sobre os problemas resultantes da prática educativa, poderia originar uma teoria melhor fundamentada.
Levando-se em conta que o contexto é fundamental para a análise de conteúdo, embora seja necessário definir com clareza que elementos e como serão considerados para compreender o material, neste momento, foram consultados os dados descritivos e reflexivos das observações registradas no diário de campo, bem
como o conteúdo dos documentos e outras informações, que de alguma maneira, pudessem trazer esclarecimentos à questão estudada.
Na análise documental foi feita a análise do conteúdo das informações, a fim de que pudessem ser apresentadas com pertinência na discussão final da questão proposta. Para tanto, foram seguidos procedimentos semelhantes ao utilizado na análise do material proveniente das entrevistas. Neste sentido, Bardin (1979, p. 46) aponta a necessidade de partir da organização do material, para posteriormente efetuar a análise categorial temática. Com base em outros autores, Lüdke e André (1986, p. 41) também sugerem o emprego da análise de conteúdo para as mensagens dos documentos.
A partir dos resultados obtidos na análise de conteúdo das informações prestadas pelos sujeitos a respeito da questão investigada, dos elementos obtidos na análise de documentos e nas anotações de campo da pesquisadora e diários de reflexão dos sujeitos, chegou-se à obtenção de importantes subsídios para discussão. Este é o momento em que os resultados foram comparados aos fundamentos teóricos, aos saberes anteriormente construídos sobre a temática, bem como a outros elementos da problemática que foram detectados no contato com a realidade investigada.
Segundo Laville e Dionne (1999, p. 228-229), a análise e a interpretação que a segue ou acompanha não conclui o procedimento de pesquisa, pois deve-se ainda chegar às conclusões. A conclusão consiste na busca de um esquema de explicação significativo, bem como a uma reflexão crítica sobre a trajetória de investigação.
Buscar conclusões não implica em esgotar a questão ou encontrar verdades e soluções inquestionáveis, mas apontar o entendimento obtido a partir de uma perspectiva adotada. Neste momento, parece fundamental refletir sobre as contribuições que o conhecimento gerado pode trazer. A descrição e a interpretação dos resultados permitiram, então, retomar algumas questões, que orientam a conclusão do presente estudo.
V - CONHECIMENTOS PRÉVIOS DOS ESTUDANTES SOBRE