1 .2 O Centro das Inquietações
2 O PÓS-MODERNISMO NOS ESTUDOS ORGANIZACIONAIS: NÃO UMA RUPTURA COM O PASSADO, MAS UMA
2.1 Pós-Modernismo: Fronteiras, Rupturas, Descontinuidade e Continuidade
[...] O operário moderno, pelo contrário, longe de se elevar com o progresso da indústria, desce cada vez mais abaixo das condições de sua própria classe. [...] A condição mais essencial para a existência e a dominação da classe burguesa é a acumulação da riqueza nas mãos de particulares,[...]; a condição do capital é o trabalho assalariado. [...]. O progresso da indústria, cujo agente involuntário e passivo é a própria burguesia, substitui o isolamento dos operários, resultante da concorrência, por sua união revolucionária resultante da associação. Assim, o desenvolvimento da grande indústria abala sob os pés da burguesia a própria base sobre a qual ela produz e se apropria dos produtos. A burguesia produz acima de tudo, seus próprios coveiros. Seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis. Marx e Engels7 A principal idéia que emerge quando se fala em pós-modernismo é que a modernidade passou, sendo substituída pela pós-modernidade, de que Habermas (1981) discorda abertamente, explicando que o termo moderno distingue o presente, ou seja, resulta da transição do antigo para o novo. Portanto, para o autor, a modernidade é a referência ao atual, o que descarta a possibilidade de ser substituída. Lyotard (REIJEN; VEERMAN, 1988, p.277), a quem se atribui a expansão do conceito do pós-modernismo, esclarece que utilizou o termo em um sentido completamente diferente como o fim do modernismo, mas, sim, como outra relação com o modernismo. Para Kumar (1997), a ambigüidade do termo “pós”, que pode significar tanto o que vem depois, a transição para o novo, ou ainda, um estado de reflexão sobre uma experiência8, levou ao surgimento de diferentes teorias sobre o pós-modernismo, ainda que compartilhem da mesma concepção de moderno.
Giddens (1991; 2001) está presente entre os autores que rejeitam a idéia de pós-modernidade, acenando para o que denomina de “modernidade tardia” e “modernização reflexiva”, visto não encontrar nenhuma indicação de que tenha havido qualquer ruptura com a modernidade que justifique a condição “pós” moderna. Hassan (1985, p.121), por outro lado, ao defender a posição pós-moderna, questiona se essa refere-se a uma nova era ou a um período sucessor ao moderno, ou, ainda, a um período ou estilo, caracterizado, como tantos outros, por formas híbridas que dela fazem parte: “Modernismo e pós-modernismo não estão separados por uma Cortina de Ferro ou uma Muralha Chinesa; para a história, é uma sobreposição de idéias, e a cultura é permeável ao passado, presente e futuro.” Quanto ao
7 Manifesto do Partido Comunista.
8 Kumar (1997, p.79) refere-se à associação de pos com o post, de post-mortem: “exéquias realizadas sobre o corpo morto da modernidade, a dissecção e um cadáver”.
caráter híbrido do pós-modernismo, o autor conjectura se: “Nós somos todos, eu suspeito, um pouco Vitorianos, Modernos, e Pós-modernos, ao mesmo tempo”.
Para entender a pós-modernidade, faz-se necessária uma breve incursão na modernidade, principalmente, para destacar a diferença entre modernidade e modernismo, termos muitas vezes usados como sinônimos. Para Kumar (1997), a modernidade refere-se ao conjunto de todas as mudanças, tanto intelectuais, sociais e políticas, que levaram ao mundo moderno. Já, o modernismo, este é entendido pelo autor como um movimento cultural que, em alguns aspectos, considera uma reação crítica à própria modernidade.
A modernidade, na opinião de vários autores (KUMAR, 1997; GIDDENS, 1991) inspira-se na rejeição ao passado para anunciar uma promessa ao desenvolvimento humano, possibilitada pelo industrialismo que, por sua vez, por meio da tecnologia industrial, transformou as sociedades, até então, na maioria pobres e agrárias, em centros urbanos concentrados de fábricas, mercadorias e poder. Assim, a modernidade tornou-se, nas palavras de Kumar (1997, p.95), “uma fábula de nossos tempos e para os nossos tempos”.
No entender de Santos (2001), os eventos que marcaram a modernidade não são comparáveis à natureza da revolução científica que ocorreu no século XVI. A explicação do autor decorre do fato de que a revolução científica, marca da modernidade, tendo ocorrido numa sociedade já revolucionada pela ciência, deveria orientar a direção para uma vida decente, e não foi o que aconteceu. Concordando com outros autores, como, por exemplo, Kumar (1997), Santos (2001) argumenta que só é possível transcender a modernidade a partir dela mesma, ou seja, ao mesmo tempo em que essa não pode oferecer soluções para os problemas cujo surgimento se deu a partir dela, “podemos encontrar na modernidade tudo o que é necessário para formular uma solução, tudo menos essa solução” (SANTOS, 2001, p.75).
De modo geral, Giddens (1991) reconhece que a ciência e, principalmente, o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação criaram novos parâmetros de risco e perigo nas sociedades modernas, sinalizando para as conseqüências da modernidade, tais como o aumento da distância entre riqueza e pobreza, além do agravamento de problemas ambientais. Assim, ao mesmo tempo em que a modernidade amplia as possibilidades de progresso, sujeita a sociedade a riscos e perigos.
Conforme Giddens (1991), o papel que as instituições da modernidade desempenham é fundamental para o controle da sociedade moderna, pois, nela, os indivíduos estão vinculados a sistemas peritos, com os quais interagem cotidianamente, independente de possuírem um conhecimento aprofundado sobre o seu funcionamento. Os sistemas peritos são “sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje” (GIDDENS, 1991, p.35). Tais sistemas, nos quais se encontra integrado o conhecimento de especialistas, influenciam continuamente o modo de viver dos indivíduos, na medida em que “criam grandes áreas de segurança relativa para a continuidade da vida cotidiana” (GIDDENS, 2002, p.126). Esse autor explica a relação da sociedade para com os sistemas abstratos como “uma aceitação tácita de circunstâncias nas quais alternativas estão amplamente descartadas” (GIDDENS, 1991, p. 93).
A modernidade promoveu uma imagem de progresso que atribuía ao futuro um mundo dotado de maravilhas tecnológicas as quais proporcionariam à sociedade o crescimento econômico e, conseqüentemente, o desenvolvimento social. Para Santos (2001), a herança da modernidade é uma representação inacabada e aberta, principalmente, quanto ao domínio da regulação (pelo mercado), o princípio da comunidade e solidariedade que, para o autor, foi o mais negligenciado, e a racionalidade estético-expressiva resultante da “industrialização do lazer e dos tempos livres, das indústrias culturais e da ideologia e prática do consumismo” (SANTOS, 2001, p.76).
Se é possível, como Kumar (1997) e Harvey (1989) o fizeram, distinguir modernidade e modernismo, para Kumar (1997), o mesmo não ocorre com a pós-modernidade e pós-modernismo, já que ambos são usados como sinônimos, ainda que muitos autores, o que será abordado em seção posterior, apresentem argumentos para afirmar a distinção entre os termos.
Hassard (1985) considera, embora ressalte que não há uma confirmação para o fato, que Frederico de Onis9 usou a palavra postmodernismo pela primeira vez em sua obra publicada em Madrid, em 1934; na década seguinte, em 1942, Dudley Fitts10 também usou a palavra em sua obra. Ambos usaram a palavra para indicar uma conseqüência dentro da própria modernidade já latente, um retrocesso ao início do século XX. A partir de então, o
9 Poeta hispânico (1882-1932)
termo passou a ser utilizado em vários campos do conhecimento, por vários autores que, por sua vez, atribuíam-lhe vários significados e referências.
No entanto, a partir da década de 1970, o pós-modernismo tem se orientado, principalmente, pelo pensamento (SCHULTZ e HATCH, 1996; SCHULTZ, 1992; BAUMAN, 1988; POWER, 1990; JONES, 2003) de Jean-François Lyotard (1986), ao lado de Fredric Jameson11 (1981; 2004) e Jean Baudrillard12 (1973a; 1973b). Assim sendo, considera-se pertinente apreconsidera-sentar as principais idéias de Lyotard (1986) que permitirão compreender os caminhos percorridos pelo pós-modernismo até chegar à análise das organizações. Jameson (1981; 2004) e Baudrillard (1973a; 1973b), embora sejam da mesma envergadura, não terão seus trabalhos aqui discutidos em profundidade, em razão de a análise organizacional pós-moderna fundamentar-se, principalmente, nas idéias de Lyotard.
Lyotard (1986, p.3), cuja obra original data de 1979, parte da hipótese de que “o saber muda de status ao mesmo tempo em que as sociedades entram na idade dita pós-industrial e as culturas na idade dita pós-moderna”. Os argumentos do autor são pautados em evidências que ele expõe para caracterizar o saber científico como um discurso. As evidências a que Lyotard (1986) se refere trata-se do conjunto de transformações de âmbito científico tecnológico que incidiram sobre a pesquisa e a transmissão de conhecimento, particularmente, no modo como as máquinas informacionais afetariam a circulação dos conhecimentos, dos sons e das imagens, o que se constata hoje, quase trinta anos depois.
A lógica imposta pela hegemonia da informática, como alertou Lyotard (1986, p.4), provocaria a mudança do princípio de que “a aquisição do saber é indissociável da formação do espírito, e mesmo da pessoa”, tornando o saber produzido e vendido como uma mercadoria, privilegiando países mais desenvolvidos na disputa das capacidades produtivas e alargando, assim, a distância entre esses e os países em vias de desenvolvimento.
11 O autor não concorda que o pós-modernismo seja uma ruptura com o que o precedeu, mas sim, a continuidade básica de um novo sistema. Não utiliza o termo capitalismo tardio para referir-se ao pós-modernismo, embora reconheça semelhanças entre os termos; admite o uso de sociedade do espetáculo ou da imagem, capitalismo da mídia, sistema mundial e pós-modernismo. Porém não se identifica com o enfoque pós-moderno, e, ao mesmo tempo em que lamenta ser cúmplice de sua criação, em função dos maus usos que lhe deram, especula sobre a existência de outro conceito que possa dramatizar os problemas da sociedade de uma forma tão eficaz.
12 O autor rejeita a teoria da sociedade de informação. Na sua obra, ressalta o estado de hiper-realidade, a dissolução da realidade objetiva, a idéia de simulacro. Em entrevista concedida a Giron (2003), o autor declarou: “Eu próprio sou chamado de pós-moderno, o que é um absurdo”; “Sou um dissidente da verdade”.
Nesse sentido, Lyotard (1986) é categórico quando afirma que o saber científico está subordinado, mais do nunca, às potências mundiais e, além disso, estaria sob o risco de tornar-se um dos elementos principais geradores dos conflitos entre elas. Chama, então, a atenção para duas questões importantes a serem discutidas: “quem decide o que é saber, e quem sabe o que convém decidir?” (LYOTARD, 1986, p.14). Essas questões levam a uma direção em que o problema do saber, na idade da informática, segundo o autor, é, sem dúvida, uma questão governamental, visto tratar-se da legitimação do saber.
Harvey (2000), embora não comungue com a condição pós-moderna de Lyotard (1986, p.151), também discute a transformação do saber em uma “mercadoria-chave, a ser produzida e vendida a quem pagar mais, sob condições que são elas mesmas cada vez mais organizadas em bases competitivas”. O autor reconhece o fato de que o conhecimento tornou-se uma importante vantagem competitiva, caracterizando-tornou-se cada vez mais como um produto comercial, objeto de competição entre universidades e instituições de pesquisa que, de guardiãs do saber, passam a serem produtores subordinados ao capital das corporações.
O interesse de Lyotard (1986) dirige-se para as formas pelas quais o saber científico obtém e reivindica sua legitimidade. Logo, traz à tona um tema que tornou-se central para o pós-modernismo: os jogos de linguagem, sobre os quais faz três observações: a) suas regras não possuem sua legitimação nelas mesmas, mas constituem objeto de um contrato explícito ou não entre os jogadores; (b) na ausência de regras, não existe jogo; e (c) todo enunciado deve ser considerado como um lance feito num jogo. Essa última observação associa-se à segunda, pois, quando não existem regras, qualquer modificação, até mesmo um lance, modifica a natureza do jogo. Thachankary (1992), nesse sentido, afirma que “o retorno da lingüística” é uma das mais proeminentes características do pensamento pós-moderno, que considera a linguagem e o discurso como os meios fundamentais para a criação das tradições históricas e culturais do mundo.
Jones (2003) critica Lyotard, entre outros aspectos, por não ter o cuidado de esclarecer o significado da “condição pós-moderna”, que é usada de diferentes formas em sua obra, e, além disso, por não especificar se se refere a uma época, a um método epistemológico, a um estilo de arquitetura, arte, cultura, ou mesmo a uma forma organizacional. Para Jones (2003), Lyotard (1986) trata a condição pós-moderna como uma crise de narrativas que emergiu nos anos 1960.
Chouliaraki e Fairclough (1999) concordam com o pós-modernismo em relação à importância das temáticas abordadas pela corrente e pelo avanço alcançado em relação a outras abordagens críticas. Os autores admitem, também, concordar com as teorias pós-modernas e pós-estruturalistas no sentido de que ambas contribuem para teorizar o mundo social e o sujeito do ponto de vista do discurso, desconstruindo a dominação presente nas práticas e teorias; entretanto, discordam dos pós-modernistas quando esses propõem o abandono do projeto de mudança social.
Para Bauman (1988), a pós-modernidade é uma visão de mundo pluralístico, a negação da objetividade, e, ainda, caracterizada pela ausência de uma referência do que é verdade e o que é significado. Para o autor, a perspectiva pós-moderna revela um mundo composto por sujeitos com lógicas próprias e dotados de uma realidade relativa. O conceito de comunidade, que na visão pós-moderna é um ator social, é um espaço no qual ocorrem os processos de geração de significados e validação da verdade.
Já a crítica que Harvey (2000) dirige a Lyotard é quanto à ênfase dada às novas tecnologias de comunicação, ao descrevê-las como uma “dramática transição social e política nas linguagens da comunicação em sociedades capitalistas avançadas” (HARVEY, 2000, p.53), e atribuir-lhes como a principal causa da mudança ocorrida no modernismo. Harvey (2000) não compreende o surgimento das novas tecnologias de comunicação como algo dramático, mas como a possibilidade de várias formas de codificar o conhecimento, sendo algumas mais acessíveis do que outras.
O pós-modernismo, na forma ilustrada pelos autores que o defendem (LYOTARD, 1986; JENKS, 1989), é uma negação à racionalidade e objetividade; logo, a dificuldade em defini-lo. Entretanto, Jenks (1989) o considera uma Era, caracterizada pelo pluralismo, uma Era em que todas as tradições têm alguma validade. A caracterização desse autor aproxima-se do que autores como Castells13 (1999) definem como a Sociedade de Informação, mas também evidencia que o pós-modernismo é, antes de tudo, uma reação ao modernismo, principalmente, pelo ecletismo em combinar as várias tradições.
Lyotard (1986) faz uma breve retrospectiva sobre os dois modelos representativos da sociedade contemporânea: um primeiro modelo, cujo expoente é Talcott Parsons, em que a
13 Castells é um dos autores que criticam e rejeitam o pós-modernismo. A razão de sua citação é no sentido da aproximação de uma idéia, e não de todo o pensamento.
sociedade forma um todo funcional, um sistema; e um segundo modelo, sustentado pela corrente marxista, para o qual a sociedade divide-se em duas partes. O pensamento desenvolvido pelo autor, a partir desses modelos, leva-o a acreditar que “não se pode entender o estado atual do saber, isto é, que problemas seu desenvolvimento e difusão encontram hoje, se não se conhece nada da sociedade na qual ele se insere” (LYOTARD, 1986, p.23). Esses dois modelos, segundo o autor, resultaram na distinção entre dois tipos de saber: um positivista e funcionalista, que “encontra facilmente sua aplicação às técnicas relativas aos homens e aos materiais e que se presta a tornar-se uma força produtiva indispensável ao sistema”; e um tipo de saber crítico ou reflexivo que, “interrogando-se direta ou indiretamente sobre os valores ou os fins, opõe um obstáculo a qualquer recuperação” (LYOTARD, 1986, p.24).
Entretanto, Lyotard (1986) não concorda com uma solução de divisão, visto que ela apenas reproduz a sociedade que é e será dirigida não por uma classe política tradicional, mas pelas instituições, de diferentes tipos, que compõem a sociedade. O autor propõe, então, os jogos de linguagem como “método geral de enfoque” (LYOTARD, 1986, p.29) da sociedade, o que carrega a idéia de construções novas, de palavras e de sentidos, de lances de linguagem que produzem os vínculos sociais cuja natureza, segundo o autor, toma novos contornos na perspectiva pós-moderna. As mensagens são modificadas, construídas e (re)construídas de modo que o sistema, cujos limites são impostos pelo peso das instituições que o compõem, seja afetado no sentido de melhorar seu desempenho, o que vai ao encontro do que Kumar (1997) diz, ao afirmar ser a modernidade um novo tipo de ficção científica. Lyotard (1986) parte, então, do pressuposto de que as instituições, pressionadas em diversos âmbitos (consumidores, governo, sociedade), filtram o que não deve ser dito e privilegiam certos tipos de enunciados, “cuja predominância caracteriza o discurso da instituição: há coisas que devem ser ditas e a maneira de dizê-las” (LYOTARD, 1986, p.51).
Nesse ponto, Lyotard (1986) afirma que é somente por meio das narrativas que o trabalho científico pode receber autoridade e propósito, isto é, o conhecimento científico não se valida apenas pelos seus procedimentos, ao contrário do conhecimento narrativo que se legitima por si mesmo. O argumento do autor é que o conhecimento científico trata-se de uma metanarrativa, o que Kumar (1997, p.143) interpreta como “grandes esquemas histórico-filosóficos de progresso e perfectibilidade criados pela era moderna”, ou seja, narrativas que subordinam, organizam e explicam outras, sejam elas locais ou de descoberta científica. Esse
argumento é bastante questionado por outros autores, como, por exemplo, Connor (1993), que reconhece o fato de que as pesquisas científicas são conduzidas pelas instituições que lucram com as descobertas, e não pelo avanço puro do conhecimento; mas ainda assim, não vê como esse fato está vinculado à quebra do consenso objetivista no âmbito da própria ciência.
Mas talvez a crítica mais ferrenha ao pós-modernismo venha de Berman (1986), que, assim como Habermas (1981), acredita que a modernidade não pode ser declarada acabada, haja vista que crêem no cumprimento de sua promessa emancipadora, argumentando que “novas visões e expressões de vida” continuarão a ser desenvolvidas, “pois as mesmas tendências econômicas e sociais que incessantemente transformam o mundo que nos rodeia, tanto para o bem como para o mal, também transformam vidas interiores dos homens e das mulheres [...]” (BERMAN, 1986, p.393-394). O autor aceita a idéia de exploração a que a modernidade submete o mundo, mas justifica que é essa mesma modernidade que impulsiona a sociedade a enfrentar os problemas para a construção de um mundo melhor. Nas palavras do autor, “Creio que nós e aqueles que virão depois de nós continuarão lutando para fazer com que nos sintamos em casa nesse mundo, mesmo que os lares que construímos, a rua moderna, o espírito moderno continuem a desmanchar no ar” (BERMAN, 1986, p.394). Dessa forma, a condição pós-moderna deve ser entendida como um desdobramento da modernidade em que emergem possibilidades reais de mudanças.
Kumar (1997, p.96) aponta as narrativas grandiosas da modernidade nas quais os pós-modernistas, como Lyotard (1986), não crêem: “História e progresso, verdade e liberdade, razão e revolução, ciência e industrialismo”. Bauman (1988) as reconhece como um dos limites da modernidade, mas considera um reducionismo de Lyotard (1986) afirmar que a grande narrativa perdeu sua credibilidade. Segundo Lyotard (1986), o abandono das grandes narrativas sugere que as narrativas locais são internas às comunidades nas quais surgem, logo, são autolegitimadoras.
Em sentido oposto, Harvey (2000) não vê com bons olhos relegar as realizações materiais das práticas modernistas, haja vista que, para o autor, elas constituíram-se em um instrumento de controle e contenção de uma explosão do capitalismo. Assim, o autor considera que a existência de uma crise, que ele não confirma existir, ocorreu a partir dos capitalistas, e não é possível, portanto, atribuí-la aos modernistas.
A incredulidade de Lyotard (1986) quanto às grandes narrativas é justificada em quatro aspectos:
a) as histórias de sucessos ou fracassos que criam heróis legitimam as instituições, ou representam modelos de integração às instituições, definindo, assim, os critérios de competência para avaliar os desempenhos realizados na sociedade;
b) as narrativas admitem uma pluralidade de jogos de linguagem, diferentes e incompatíveis, os quais se entrelaçam, prescrevem e determinam as escolhas, as avaliações, as competências;
c) as narrativas são transmitidas segundo normas, ou seja, veiculam, ao mesmo tempo, “o que é preciso dizer para ser entendido, o que é preciso escutar para poder falar e o que é preciso representar [...] para poder se constituir no objeto de um relato” (LYOTARD, 1986, p.39); e
d) quanto à temporalidade, as narrativas podem parecer pertencer ao tempo passado, mas, na verdade, é sempre contemporânea; é o desdobramento do ato presente.
Entretanto, Lyotard (1989) prossegue com a publicação de Le différend, ainda na década de 1980, descartando a idéia de que as pequenas narrativas, embora escapem da crise de deslegitimação, não têm o valor de legitimação. O conceito de différend, segundo Cooper e Burrel (1988), é essencial para a compreensão dos pressupostos do pós-modernismo. Os autores utilizam o termo paradoxal “aldeia global” para explicar o conceito de différend, que traduz-se como “uma forma de auto-referência cujos termos contêm seus próprios opostos” (GILSON; BURREL, 1988, p.
Lyotard (REIJEN; VEERMAN, 1988), ao mencionar sua relação com o pensamento de Derrida, explica que uma possível diferença entre eles decorra justamente da extensão dada à idéia de différend, por Derrida, que a generaliza para qualquer e todo discurso humano e