• Nenhum resultado encontrado

2. Segunda gravura: ser adolescente na adversidade e no acolhimento

2.2. Quadros do Acolhimento Institucional no Brasil

2.2.1 Painel atual do Acolhimento Institucional no Brasil

Foi constatado pelo Levantamento Nacional de Abrigos para Crianças e adolescentes (IPEA/DISOC) que havia 20 mil crianças e adolescentes vivendo em 589 abrigos no Brasil em 2003. A pesquisa demonstrou que a maior parte dos abrigados eram meninos negros e pobres entre 7 e 15 anos de idade, que do total de abrigados, 87% possuem família (Silva, 2004).

Em 2011, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), registrou 1.876 abrigos para crianças e adolescentes cadastrados no país, enquanto a Fundação Oswaldo Cruz realizou uma pesquisa em 2010, por solicitação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, constatou a existência de 2.624 instituições em território nacional (Rodrigues, 2016). O acolhimento de crianças e adolescentes é considerado, pelo ECA, uma medida de caráter provisório e excepcional, após ter sido averiguado violação por abandono, negligência ou risco pessoal. Com o acolhimento institucional, a tutela das crianças e adolescentes passa a ser do Estado. Um juiz responsável concede a guarda da criança ou adolescente ao responsável pela instituição, o que não significa a perda do poder familiar, situação que só ocorre em tramitação judicial (SENADO FEDERAL, 2014).

O Brasil contabilizou 36.551 crianças e adolescentes vivendo em abrigos mantido por ONGs segundo dados do CNCA (Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Acolhidos), criado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Das crianças abrigadas, 17.232 são do sexo feminino e 19.318 do sexo masculino, e deles, 1.926 não possuíam registro de nascimento (SENADO FEDERAL, 2014).

Segundo Medeiros (2014), dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) do ano de 2012, retratam que o maior número de crianças e adolescentes acolhidos está no

Nordeste. O estado do Rio Grande do Norte (RN), em comparação com os outros estados da região, está em quinto lugar referente ao número de crianças e adolescentes em acolhimento institucional ou família acolhedora. No RN, há registradas 13 instituições de acolhimento em funcionamento, nas quais abrigavam em 2012, 401 crianças e adolescentes, enquanto em 2011 esse número era maior, de 443. Entretanto, o número de institucionalizações no estado continuou alto, o que me faz questionar: a medida protetiva de abrigo tem sido tomada como última alternativa?

Com essas informações iniciais, já podemos perceber o contexto familiar difícil e de vulnerabilidade social que esses adolescentes vivenciaram para chegar à medida, excepcional, de acolhimento. A institucionalização surge, para eles, como a última alternativa de distanciá-los das violações de diretos ou das condições de vulnerabilidade. Então, passam a residir em um local que é pouco semelhante a um lar, afastados da convivência familiar e comunitária. Está previsto no ECA, o direito a convivência familiar e comunitária, mas operacionalizar o que está escrito na lei tem sido um enorme desafio, tendo em vista os dados que serão apresentados posteriormente.

O acolhimento é uma medida de caráter excepcional, ou seja, uma ação atípica vista como última alternativa para proteção da criança ou adolescente. Outra característica dessa medida é a provisoriedade, pois seu objetivo é que, o quanto antes, sejam reintegrados em família de origem, como lhes é de direito. Quando não é possível o retorno às suas famílias, eles podem ser encaminhados à família substituta. De modo contraditório, a provisoriedade da medida se dobra face às dificuldades em relação a reintegração familiar.

Dessa maneira, o acolhimento geralmente ocorre quando se configura a carência extrema de recursos materiais da família/responsável; o abandono; a violência doméstica; a dependência química; a vivência de rua e a orfandade (Iannelli, Assis & Pinto, 2015).

Assim, o afastamento deve acontecer somente em situações excepcionais que envolvam risco a integridade física e/ou psicológica da criança e do adolescente, e a medida deve ocorrer para que haja o menor prejuízo ao seu processo de desenvolvimento. Sendo assim, a medida deve ser implantada quando não for possível fazer uma intervenção com a presença da criança e do adolescente no convívio familiar, seja nuclear ou extensa (CNAS & Conanda, 2009); embora, o afastamento do meio familiar proporcione sentimentos de tristeza, ódio, rejeição, insegurança, angústias, decepção; complementam as autoras. Há, portanto, que se perguntar: será que o acolhimento tem trazido integridade psicológica para essas crianças e adolescentes?

Dessa maneira, o acolhimento se dá, excepcionalmente, quando os pais ou responsáveis não conseguem fornecer os cuidados necessários para seus filhos, afim de que sejam assistidos em seus direitos previstos em lei. Vários motivos acarretam no abrigamento de muitas crianças e adolescentes, como citado anteriormente, o principal deles é a pobreza, segundo a Tabela 1 [extraída de Silva, E. R. (2004). O perfil da criança e do adolescente nos abrigos pesquisados. In: ______. O direito a convivência familiar e comunitária: os abrigos para crianças e adolescentes no Brasil. IPEA/CONANDA, (1) 41- 70].

Tabela 2.

Brasil/grandes regiões: crianças e adolescentes abrigados, segundo os principais motivos de abrigamento.

O ECA prevê que “a falta ou a carência de recursos materiais não constitui motivo de suspensão do pátrio poder” (Art. 23) e complementa, no parágrafo único deste artigo, que “não existindo outro motivo que por si só autorize a decretação da medida, a criança ou o adolescente será mantido em sua família de origem, a qual deverá, obrigatoriamente, ser incluída em programas oficiais de auxílio”. Tais programas do governo se referem ao: Bolsa família, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e outros benefícios de caráter eventual. Entretanto, a tabela mostra que, na prática, parte dos motivos citados na tabela 1, tem alguma relação com a pobreza, sendo eles: a carência de recursos materiais, com 24,1% dos pesquisados; o abandono pelos pais ou responsáveis, com 18,8%; a vivência de rua, com 7,0% e a exploração no trabalho e/ou mendicância, com 1,8% (Silva, 2004). Ela aponta que o somatório desses percentuais equivale a mais da metade, 52%, do índice de crianças e adolescentes institucionalizados por contexto de pobreza. Supomos, então, que as famílias dos abrigados não possuíam condições básicas de sobrevivência com dignidade, tendo em vistas, as precariedades a que estão sujeitas, como: saneamento, alimentação de qualidade, moradia, acesso à educação e à saúde.

Nesse contexto, pela dificuldade que os pais ou responsáveis encontram em suas vidas e, inclusive, no fornecimento de condições necessárias e adequadas para seus filhos, pode haver margem para outras violações de direitos, como a exploração do trabalho infantil e a mendicância, que acabam ocasionando a institucionalização de as crianças e adolescentes (Silva, 2004).

O Nordeste ocupa o segundo lugar no ranking subtotal dos motivos da institucionalização, porém apresentou o maior índice de pobreza como fator de abrigamento, com 34,3%; de vivência na rua, com 10%; e de orfandade com 5,5%.

Jaczura (2008) afirma que, considerando, todas as violações contra crianças e o adolescente, que são, constantemente, notificadas pelas Delegacias Especializadas da

Criança e do Adolescente (DPCA), o abrigo pode ou não, ser um lugar de reinserção familiar. Ela aponta dois posicionamentos diferentes quanto a institucionalização: uma perspectiva de que a institucionalização afeta negativamente o desenvolvimento da criança e do adolescente, e outra, que defende a importância da função delegada aos abrigos de atendimento que envolve a rede de apoio social, considerando positiva tal medida protetiva. Tais perspectivas serão apresentadas a seguir, pois ambos permitirão enxergarmos como se encontra o acolhimento institucional no Brasil para crianças e adolescentes, nos diferentes pontos de vista. Alguns autores conseguem enxergar, ao mesmo tempo, as duas faces da medida de abrigo, de um lado, os aspectos favoráveis do acolhimento e, por outro, condições desfavoráveis e limitações que ele pode causar.

Estudos mais antigos, realizados por Grusec e Lytton (1988), citados por Siqueira e Dell A’glio (2006), trazem a informação de que a internalização nos abrigos pode gerar “prejuízos” cognitivos, como déficit de atenção, comprometimento do desenvolvimento da linguagem, ou até mesmo agressividade e dificuldades emocionais. Porém esses efeitos podem ser produzidos por outros fatores como a ausência de estimulação e brincadeiras, o que permitem o agravamento do quadro (Siqueira & Dell A’glio,2006).

Na perspectiva de Arpini (2003), os abrigos tradicionais acabaram por criar as mesmas dificuldades de sofrimentos e abandonos já vividos pelos adolescentes. Porém, com o ECA, houve várias mudanças na concepção da instituição de acolhimento, começando por sua estrutura. Atualmente, ela aponta que os abrigos são instituições menores que abrigam um número menor de pessoas, com um ambiente familiar mais favorável para um processo de socialização e convivência familiar mais eficaz para o desenvolvimento da criança e do adolescente. Não significa, para a autora, que a instituição oferece o mesmo ambiente funcional que a família fornece, nem que esse novo modelo impeça que algumas violências características das instituições tradicionais sejam

reproduzidas. Entretanto, a autora afirma que ela oferece condições, ao menos, de ser um lugar onde se pode realizar inúmeras atividades e socializações, com a capacidade de promover o desenvolvimento de relações recíprocas. Além de também poder proporcionar a construção de referenciais identificatórios positivos, na perspectiva da construção de sujeitos.

Outro fator desfavorável observado em pesquisa realizada por Arpini (2003), se trata do fato dos abrigados apresentaram em seus discursos a dificuldade de conviver com o estigma social, na escola, por exemplo, de que crianças e adolescentes institucionalizados são problemáticas, não são “normais” e que o local em que estão é consequência dos erros que cometeram em suas vidas.

Se pudermos pensá-la não apenas como depósito do “lixo social”, talvez possamos realmente construir dentro dela uma nova possibilidade e, a partir daí, dar um real sentido à sua existência, permitindo que cada criança ou adolescente que venha integrar a esse universo tenha a possibilidade de encontrar aí um “olhar”, um “lugar” de construção de desejos e possibilidades. (Arpini, p. 01)

Penso que tal estigmatização é mais provável acontecer, principalmente pelos próprios profissionais do espaço escolar, tendo em vista que, geralmente, são os que possuem a informação de quais alunos moram em abrigos. Além disso, essa suposição pode ser fundamentada, a partir de discussões anteriores, no pressuposto de que os adultos, inclusive do sistema educativo, carregam rótulos referentes à noção do adolescente imerso na vulnerabilidade social e no abrigamento.

Nesse sentido, ao levar em consideração nosso contexto sócio-cultural, é possível imaginar as inúmeras rotulações que os abrigados vivenciam, tais como: a determinação de ser um indivíduo em uma fase “complicada” da vida, a adolescência; e a discriminação por morarem em um abrigo, não estando em um seio familiar saudável por terem famílias “desestruturadas” e problemáticas. A rotulação é de serem infratores, “delinquentes”, pois

se estão institucionalizados, fizeram algo de errado. A previsibilidade social é de ser um adolescente sem muita perspectiva de futuro profissional, já que vivenciaram uma série de violências que dificultaram acessos que contribuíssem com a sua formação como sujeitos. Essa rotulação acaba sendo reproduzida também pelos próprios profissionais da rede socioassistencial e da unidade de acolhimento.

Silva (2010) afirma que nos casos de crianças e adolescentes que são vítimas de violência, abandono ou negligência, elas são retiradas de seus lares, de suas famílias e passam a viver em um ambiente que é pouco semelhante a um contexto familiar, impossibilitando, tanto um desenvolvimento físico e psicológico adequado, quanto a elaboração de projetos de vida (Silva, 2010). É válido destacar que o contexto familiar dessas crianças e adolescentes estava fragilizado, ao ponto de produzir violações aos mesmos, assim, essas famílias já não estavam proporcionando um desenvolvimento adequado a seus filhos. Nesse sentido, suponho que, para a autora, o abrigo seria um reprodutor dessas violências iniciadas no contexto familiar. Tal suposição se amplia quando afirma que o quadro de precariedade do serviço prejudica, mais ainda, a criação de um ambiente propício às crianças e aos adolescentes em situação de risco pessoal ou social, pelo fato de acreditar que a institucionalização, em si, representa um problema para o desenvolvimento dos abrigados. Significa, então, para ela, que o acolhimento institucional promove mais riscos que antes da aplicação da medida, quando ainda viviam no contexto familiar.

Morais e Koller (2004) defendem a ideia de que es fatores de risco e de proteção devem ser priorizados de igual maneira, tendo em vista que o fator de proteção pode favorecer o indivíduo a melhor lidar com situações de risco. Assim, as crianças e adolescentes acolhidos teriam a chance de desenvolver, dentro do abrigo, um fator de proteção à possíveis riscos futuros.

Através de estudo realizado por Siqueira e Dell’ Aglio (2006), foi observado que as instituições de acolhimento vêm apresentando melhorias em seus serviços, em comparação com os primeiros abrigos brasileiros. Antes os locais eram insalubres e havia grande número de crianças e adolescentes em um mesmo espaço, hoje esse quadro está bem mais estabilizado e organizado. Entretanto, segundo elas, ainda existem muitos erros no acolhimento, relacionados a precária qualificação e pequeno número de profissionais, bem como a fragilidade das redes de apoio social e afetivo, devido à pouca interação entre o abrigo e outras instituições, como: escolas, conselhos tutelares, família, comunidade, serviços de saúde. Todos esses, importantes no processo de reintegração social. Ao mesmo tempo, elas perceberam que a instituição oferece apoio social e afet ivo aos acolhidos, de forma a possibilitar a elaboração da capacidade de enfrentamento das dificuldades, proporcionando efeitos resilientes.

Segundo Sequeira (2009), há a possibilidade de o abrigo ser um espaço alternativo para o processo de identificação, contanto que não se disfarce como uma falsa família, afinal, é papel dos abrigos oferecer proteção e acolhimento quando a família não tem condições de cuidar de seus filhos. Ela reconhece que existem espaços que dificultam o desenvolvimento adequado, principalmente quando os adultos cuidadores agem com indiferença, sem expressão afetiva ou sem se importar com as crianças e adolescentes. Isso também ocorre

quando o ambiente é hostil, agressivo e o clima institucional é ostensivo; quando há excessiva ociosidade das crianças, que ficam horas na frente da televisão, que podem faltar à escola sem que lhes seja questionado o motivo ou sem que sejam apontadas às consequências dentro de uma perspectiva de futuro” (p. 13).

Dessa maneira, o desdém ou desinteresse dos profissionais do abrigo pode ser o elemento adverso mais prejudicial para o desenvolvimento da capacidade de superação das crianças e adolescentes.

Nesse sentido, o que pode fazer a diferença no acolhimento institucional, conforme Sequeira (2009) é a criação de um espaço acolhedor por meio de expressões de afeto, desenvolvimento de relações sinceras, não estereotipadas. Lugar no qual as pessoas do abrigo possam conversar, contar histórias, compartilhar experiências. Outro aspecto importante, está voltado para as atividades domésticas, as quais podem ser divididas de maneira que estimule a cooperação e trabalho em grupo para o bem-estar de todos. Assim, ela destaca que o abrigo seria um facilitador da resiliência, ao permitir que as regras fossem flexíveis e coerentes, além de promover arte e humor, empatia, comunicação aberta, limites claros, tolerância aos conflitos e mudanças, reconhecimento, respeito e privacidade.

A autora ressalta que a perda, a saudade e a separação não se configuram, em si, como um empecilho para a formação da identidade de crianças e adolescentes, apesar de serem situações que, com certeza, influenciam em sua formação. Contudo, o que vai determinar essa formação, é a possibilidade de simbolização dessas experiências.

Segundo a Constituição Federal, o direito da criança e do adolescente à convivência familiar e comunitária é dever da família, da sociedade e do Estado. A promoção da convivência familiar e comunitária é de responsabilidade dos serviços de acolhimento institucional e da rede socioassistencial, que envolve o Ministério Público, o Poder Judiciário e os Conselhos Tutelares e dos Direitos (Iannelli, Assis & Pinto, 2015). A aplicação desse serviço exige a promoção do fortalecimento, a emancipação e inclusão social das famílias na rede de serviços públicos de forma a contribuir com as condições

necessárias a um ambiente favorável e seguro da criança e do adolescente (CNAS & Conanda, 2009).

Os serviços socioassistenciais de alta complexidade de atendimento exclusivo para crianças e adolescentes estão entre duas das nove medidas de proteção previstas no artigo 101 do ECA, devendo somente ser utilizados em situações em que, de fato, há violação de direitos de crianças e adolescentes e que, após aplicadas outras medidas de proteção, não foi sanado o risco, exigindo, assim, a separação destes da sua família. Estas medidas também são aplicadas quando a família não é conhecida, está desaparecida ou inexiste. A Tipificação Nacional dos Serviços Assistenciais esclarece que os Serviços de Acolhimento congregam a missão de preservar vínculos com a família de origem, salvo determinação judicial em contrário, e desenvolver, para com os acolhidos, condições para sua independência e autocuidado, de acordo com seu ciclo de vida (Resolução nº 109, de 11 de novembro de 2009). Os serviços de acolhimento podem se dividir em acolhimento em família acolhedora e acolhimento institucional. Nos dois casos, há um gestor do serviço, que se equipara ao guardião para todos os efeitos de direito. No caso da família acolhedora, deve ocorrer seleção, cadastramento, capacitação e acompanhamento de famílias que acolherão uma criança ou adolescente sob medida de proteção. Estas famílias são vinculadas a um programa de acolhimento familiar e recebem um termo de guarda provisória do acolhido.

O acolhimento institucional só deve acontecer quando for a melhor medida para proteger a criança e o adolescente, sendo necessário concentrar todos os esforços no retorno seguro a convivência familiar, no menor tempo possível. Esse tempo não pode ultrapassar dois anos, a fim de que seja promovida a reintegração familiar (nuclear, extensa, em seus variados arranjos). Somente em situações de extrema excepcionalidade, estes indivíduos podem ficar tempo superior a dois anos, e depois de justificação

criteriosa elaborada pelos órgãos que acompanham o caso. Nessa situação, deverá ser enviado relatório à Justiça da infância e juventude para avaliação quanto a melhor alternativa para a criança e o adolescente, se persevera na tentativa de retorno ao convívio familiar ou encaminhamento à família substituta (CNAS & Conanda, 2009).

Os princípios do acolhimento institucional, indicado no art. 92, são os seguintes: • Preservação dos vínculos familiares e promoção da reintegração familiar;

• Integração em família substituta, quando esgotados os recursos de manutenção na família natural ou extensa;

• Atendimento personalizado e em pequenos grupos;

• Desenvolvimento de atividades em regime de coeducação; • Não-desmembramento de grupos de irmãos;

• Evitar, sempre que possível, a transferência para outras entidades de crianças e adolescentes abrigados;

• Participação na vida da comunidade local; • Preparação gradativa para o desligamento;

• Participação de pessoas da comunidade no processo educativo.

Além disso, o acolhimento institucional possibilita alguns riscos, como por exemplo, à medida que se instaura a tutela jurídica sobre a família, se reforça certa fragilização da autoridade parental, fragmentando ainda mais os já difusos laços familiares em nossa sociedade (Moreira et al, 2011).

Ao mesmo tempo em que o acolhimento institucional funciona como uma alternativa para por um fim à situação de risco vivenciada pelas vítimas, se configura em uma dupla situação de abandono, pois, de um lado a criança ou adolescente é privado da convivência familiar, e do outro, o abandono da própria família que, por razões diversas, não conseguiu sustentar seu papel de cuidadora (Siqueira et al, 2009). Em muitas

situações, as famílias vão sendo estigmatizadas com a incapacidade de criar seus filhos devido a destituição da condição de tutela e cuidado dos mesmos e acabam sendo excluídas do processo de decisão em relação ao caso e aos órgãos sociais. Dessa forma, tais famílias acabam sendo abandonadas em sua desinformação, isolamento social e pobreza (Rizzini, s.d.).

Muitas vezes, não se considera o histórico de violências sofridas pela dita família violadora, impedindo uma atenção e escuta diferenciada. Essa realidade está repleta de preconceitos, estigmas e rotulações. Nesse sentido, abre-se um olho para a violação de direitos sofrida pela criança e pelo adolescente, e fecha-se o outro para o sofrimento parental, que somado ao contexto de vulnerabilidade social vivenciado, ainda passou pela destituição do seu papel de cuidado, que mesmo consentido, não deixa de ser difícil.

No período da infância e da adolescência o desenvolvimento é influenciado, continuamente, pelo contexto no qual a criança e o adolescente estão inseridos. Elas interagem e formam seus próprios grupos de relacionamento a partir da relação com colegas, professores, vizinhos e outras famílias, bem como da utilização das ruas, quadras, praças, escolas, igrejas, postos de saúde e outros (CNAS & Conanda, 2009). Na interação com a comunidade, as instituições e os espaços sociais, as crianças e adolescentes lidam a coletividade e expressam sua individualidade, encontrando recursos essenciais para seu desenvolvimento. Estes espaços acabam sendo mediadores das relações que as crianças e os adolescentes estabelecem, contribuindo para a construção de relações afetivas e de suas identidades individuais e coletiva. Nessa coletividade estão presentes os papéis sociais, regras, leis, valores, cultura, crenças e tradições, transmitidos