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3. Terceira gravura: princípios norteadores e a pesquisa em ação

3.3 Caminhos Metodológicos

3.3.2. Scrapbook: Instrumento e procedimentos de Acesso às Narrativas

A inserção no campo aconteceu durante 6 meses, com mais de 50 horas de dedicação. Foi utilizado o Scrapbook (álbum personalizado), como instrumento de acesso às narrativas, com o intuito de ser um dispositivo que facilitasse as falas e expressões dos adolescentes acerca de suas histórias de vida. Todas as atividades do álbum foram acompanhadas por mim, como pesquisadora responsável, em todo processo de aplicação. Durante os encontros para construção desses materiais, realizei algumas perguntas abertas (disponíveis nos apêndices) aos adolescentes para melhor esclarecimento e compreensão do que estava sendo produzido em cada encontro.

O Scrapbook trata-se de instrumento conhecido como uma composição de memórias e recordações mediante a personalização de álbuns de fotografias (Mesquita, 2012). Esse não se limita as fotografias, possibilita também a inclusão de outras produções como: colagens, desenhos e pinturas. Nessa pesquisa, o scrapbook foi proposto como um álbum que retratasse as histórias de vida dos adolescentes, bem como, seus interesses, gostos, saudades e sentimentos. As páginas do álbum envolveram aspectos das suas experiências antes e durante o abrigo, além de como pensavam seu futuro ao saírem da instituição. Foi fornecido um espaço de escuta individual aos participantes, de forma dinâmica e interativa, pois à medida que foram construindo cada página do scrapbook, tiveram a liberdade de falar o que desejavam. Quando surgiram dúvidas para mim ou houve a necessidade de complemento de alguma informação compartilhada pelo adolescente, pedi para que explicassem mais sobre a atividade e, dependendo da dúvida, fiz algumas perguntas abertas para melhor compreensão sobre o que participante estava querendo expressar naquela produção.

Os encontros para a construção dos Scrapbooks foram individuais, uma vez por semana. Foram feitas até duas páginas do álbum por encontro, respeitando o tempo de cada adolescente para concluir a atividade. Propus 22 atividades que se tornariam as páginas do álbum, 5 delas foram elaboradas pela pesquisadora e 18 foram retiradas do site do Instituto Fazendo História3. Entretanto, os participantes realizaram entre 16 e 18 atividades, pois, algumas delas, demonstraram desinteresse. Por outro lado, também sugeriram algumas para realizar.

As atividades escolhidas do instituto foram: Como eu sou; Carteira de Identidade; Minha rotina; Músicas, livros e filmes prediletos; Quando cheguei no abrigo; Sonhos; Minha família; Meus segredos; As pessoas mais importante da minha vida; Sentimentos; Educadores; Irmãos; Adolescentes do abrigo – adaptado (site) da atividade Quem são as crianças do abrigo – ; As 5 coisas que mais gosto; As 5 coisas que menos gosto; Meu time de futebol; Uma história que vale a pena contar; Minhas saudades. Recolhi, do site, os modelos dessas atividades e as apresentei aos participantes, esclarecendo que eles poderiam optar entre fazer a atividade no modelo impresso ou fazê-la em folha em branco, à sua maneira. Algumas dessas atividades do site já possuem perguntas, então foram respondidas quando o adolescente decidia realizar a atividade em outra folha. Os modelos do site que foram propostos nessa investigação se encontram nos apêndices

No que se refere as atividades elaboradas por mim, propus: Minha vida antes do abrigo, Minha vida no abrigo, Carta para mim no futuro, Meu auto-retrato antes, durante e depois do abrigo”, e “A família que gostaria de ter”. Tais atividades foram sugeridas em formato de desenho, com exceção da carta. Não foram criados modelos de páginas

3 Tal instituição é uma ONG de acolhimento que desde 2005 atua para que crianças e adolescentes que precisaram ser separados de suas famílias possam encontrar na medida do acolhimento um momento de reparação efetiva, a fim de fortalecê-los para que se apropriem e transformem suas histórias (2015). Esta ONG é vinculada à Associação de Pesquisadores de Núcleo de Estudos sobre a Criança e o Adar dolescente (NECA).

para elas, como nas páginas disponibilizadas pelo site Fazendo História, pois o intuito é que desenhem livremente sobre as temáticas acima.

No primeiro encontro com cada participante, foi informado o período médio de realização da montagem do álbum e que a cada encontro seriam apresentadas possibilidades de atividades para ele escolher fazer. Os adolescentes ficaram livres para recusar as atividades que não desejavam realizar. Outras páginas do álbum contiveram fotos dos adolescentes, tiradas por mim em lugar definido junto à coordenação da Casa III e com o consentimento deles. A minha intenção era que, no scrapbook, contivesse, também, fotos dos mesmos antes do abrigo, mas eles não possuíram fotos desse período consigo.

A ideia de utilizar esse recurso na pesquisa em questão, surgiu do interesse e pedido da própria coordenadora da instituição ao Projeto de scrapbook, pois reconhecia a importância de tal ferramenta. Outro motivo foi o fato do projeto já acontecer em outros abrigos que acolhem crianças, como as unidades I e II. Ao saber do interesse da instituição, surgiu ideia e a oportunidade de utilizar o recurso do scrapbook nessa pesquisa, como forma de acessar as narrativas autobiográficas dos adolescentes.

Um elemento que favoreceu a escolha do scrapbook, o qual explicitarei adiante, foi o fato de muitos adolescentes brasileiros que vivem em situação de vulnerabilidade e acolhimento institucional serem analfabetos, semianalfabetos ou com grandes dificuldades na leitura e escrita. Dessa maneira, o recurso lúdico apresentado facilitou o acesso às autobiografias dos adolescentes, já que utilizaram o desenho e pintura como alternativas de expressão, não se limitando a escrita. Através desses recursos, os participantes se demonstraram implicados nas atividades.

Diante disso, para uma melhor descrição das observações, acontecimentos, impressões, sentimentos e dúvidas dos encontros no campo da pesquisa, foi utilizado o

diário de campo. Instrumento esse, essencial para registro de capturas dos elementos mais simples e sutis, aos mais aparentes. Santos (2006) apresenta o seu conceito de diário de campo, como:

(...) um dispositivo de caráter pessoal que permite refletir e registrar o ocorrido, impulsionando o pesquisador a investigar a própria ação por meio do registro e análise sistemática de suas ações e reações, bem como seus sentimentos, impressões, interpretações, explicações, atos falhos, hipóteses e preocupações envolvidas nessas ações (p. 136).

Foi possível, nos encontros, captar relatos de práticas sociais, valores, definições e atitudes do grupo no qual a pessoa se insere, essenciais para compreender o contexto social. O diário de campo me ajudou a descrever o que vai além de uma gravação em áudio, pois levou em consideração o que foi observado no momento que o participante fala, bem como suas expressões e ações. A cada encontro, levei um caderno de anotações para escrever as principais falas dos participantes no momento em que narravam. Após o encontro, discorri como foi todo a atividade, com maiores detalhes do que foi ouvido e percebido durante a construção dos materiais.

O diário de campo foi escolhido como forma de registro com o intuito de evitar um possível constrangimento dos jovens, tendo em vista, que eles poderiam não se sentir à vontade e não ser espontâneos na presença de um gravador.

O uso do instrumento apresentado e do diário de campo esteve alinhado com a principal característica da pesquisa qualitativa, que é o fato de trabalhar com material não quantificável, construído a partir dos significados atribuídos às práticas diárias e cotidianas dos participantes (Flick, 2009; Minayo, 2002).

O foco do trabalho se deu no que eles narraram sobre suas histórias de vida no processo de construção de cada uma, já que estes recursos foram mediadores da fala. Este trabalho possibilitou que os adolescentes ficassem com os materiais produzidos, pois não

pretendi ir à campo para, simplesmente, coletar informações dos adolescentes, mas sim, possibilitar um espaço de escuta aos mesmos, eu ter acesso a informações para a pesquisa, para que no fim, os dois lados, participantes e pesquisadora, tivessem ganhos: eles, o scrapbook, eu, a dissertação. Claro que, mais do que nos “produtos” finais, foi durante o processo que mais ganhamos, pois a cada encontro construímos conhecimentos conjuntamente. Concluídas as atividades, levei um fichário para cada um deles, elaborar a capa e colocar as atividades na ordem que quisessem. Posteriormente, fiz a entrega dos álbuns e fiz devolutivas de como foi o nosso processo com eles e dei abertura para eles falarem sobre a experiência de construção do scrapbook.