3 Em Pauta: a laicidade católica e o protagonismo da igreja na sociedade civil
3.2 A dinâmica do “Em Pauta” e seus participantes
3.2.3 Papel da igreja Católica na sociedade civil
Neste momento analisaremos a articulação da igreja Católica e sociedade civil feita pelo programa “Em Pauta”. Nesta perspectiva, quando se pensa nessa articulação é preciso reconhecer a sua profundidade histórica. Como bem lembra o Padre Hamilton no episódio “ Pós-manifestações” a igreja Católica milita no campo social a bastante tempo. No Brasil, sobretudo a partir de 1964, os movimentos sociais tiveram uma forte atuação da igreja Católica.
Segundo ele, muitos movimentos sociais na década de 60 e 70 começaram por causa da atuação da Igreja. Alguns tinham um caráter iminentemente eclesial, mas com uma tônica de transformação social.
E na atual conjuntura, para ele, a Igreja também é atuante. No tocante as manifestações de julho de 2013, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu uma carta de apoio. Se em um segundo momento ela preferiu silenciar essas movimentações populares foi devido aos atos depredação e vandalismo que ocorreram.
Nesse sentido, de reconhecer que a Igreja é atuante na sociedade civil, no mesmo episódio, o Frei afirma que a igreja Católica, apesar de ser criticada por alguns de ser conservadora, em termos sociais é muito avançada. Para ele, se as políticas públicas levassem mais em conta a doutrina social da igreja teríamos resultados sociais mais satisfatórios. Segundo ele no mesmo episódio:
[...] queria dar um exemplo, sobre a propriedade particular. A igreja lá em 1891 defendia, porque lá no contexto do marxismo aquilo tudo. Mas o nosso beato Joao Paulo II numa de suas encíclicas ele diz a propriedade tem um caráter eminentemente social. Gente, isso é uma revolução. Quer dizer a igreja está atenta. Ou então na labore exercessem, é muito interessante, nós temos que ir à luta, mas não contra, mas a favor da justiça. Ir a favor de uma mudança. Nesse sentido a igreja apoia evidentemente esses movimentos desde que não se transforme em baderna. [...]
Para Antônio Moser, mesmo o pensamento do Papa Leão XIII ser uma potente crítica social, ainda tinha um entrave em relação a função a propriedade privada. No entanto, esse entrave foi superado com o Papa João Paulo II, no século XX, já que foi repensado a função social para caráter eminentemente social.
Além da carta de apoio as manifestações de julho de 2013, Padre Hamilton no episódio “Eleições”, traz à tona o protagonismo da igreja Católica, notadamente pela CNBB, na promulgação da lei da ficha limpa. A as diversas paróquias católicas pelo Brasil se mobilizaram para arrecadar assinaturas para a efetivação dessa lei. Agora essa mesma mobilização está em ação para lei de eleições limpas e de uma proposta de reforma política.
A igreja Católica se faz presente a algum tempo na sociedade civil, segundo o Programa, com essa breve memória demonstrou uma efetiva nisso participação e de algum modo, segundo o “Em Pauta”, a igreja contribui as discussões políticas como no caso da lei de ficha limpa. De alguma maneira incentivando os eleitores e a população a pensar e refletir sobre o processo eleitoral.
Outro modo da Igreja atuar na sociedade civil, segundo o “Em Pauta”, é pela força de seu exemplo na organização institucional. Nesse sentido, a Igreja seria um modelo no qual a sociedade deveria se espelhar.
No episódio “Reforma Política”, padre Hamilton traça paralelo entre sociedade e igreja. A igreja Católica também possui alas que pedem reformas institucionais no intuito de transformá-la em mais democrática. Até a eleição do Papa Francisco, a Igreja vivia um momento de estagnação e concentração, após esse período surgiram algumas “enfermidades”. No entanto, o Papa Francisco com muita humildade, mas também com muita coragem, como aquele que preside a igreja na caridade de forma universal, implementou essas reformas no sentido de abrir a Igreja num processo de democratização: as chamadas reformas da cúria romana; naquilo que se convencionou chamar de banco do vaticano, embora na verdade não seja um banco; e outros elementos. Nesse sentido, O papa está pautando reformas para a Igreja e isso soa ser uma boa influência para a sociedade.
Segundo o Frei, no episódio “Reforma Política”, existe um ditado teológico “ecclesia semper reformanda est” (A igreja tem que continuamente estar em reforma), ou seja, a história da Igreja está repleta de mudanças institucionais. Para ele, a primeira grande reforma começou com São Paulo contra São Pedro, afirmando a necessidade de pregar fora do mundo judeu para os pagãos. Ele lembra que já vivenciou algumas reformas. No passado já cantou a missa em latim e de costa para o povo.
O papa Bento XVI, segundo ele, teve um gesto profético de renunciar. O frei chega a sugerir que o mandato papal não deve ser vitalício, ao concordar com o anúncio do Papa Francisco de que não levará o seu mandato até a morte, ele também renunciará quando perceber não ter mais condições físicas.
A argumentação do Padre Hamilton vai na mesma direção no episódio “Pós manifestação”. Para ele, o testemunho que o papa Bento XVI continua sendo eloquente. Diz ele: “Porque imagine aquele que é o principal representante da igreja católica, denominado como sumo pontífice. Em determinado momento, reconhecendo que não tem mais condições renúncia. Demonstra em um gesto de humildade e desapego frente ao poder. ”
Essa constante reforma que a Igreja passa é um exemplo de como a sociedade precisa estar em constante transformação no sentido de maior democratização social. Esse é um dos papeis dessa instituição na sociedade civil. Tanto a igreja como a sociedade brasileira precisa estar se adaptando as novas realidades.
No entanto, essas formas de atuação pela mobilização na sociedade civil, como pela força do exemplo que dá a sociedade brasileira de instituição sempre em reforma, são mais superficiais sobra a articulação entre Igreja católica e sociedade civil, se comparada com a pretensão da igreja de ser a grande fornecedora de valores morais para a sociedade. Para o “Em pauta”, uma nação que é verdadeiramente democrática é aquela que carrega consigo
valores (morais). Vejamos mais de perto como Frei no episódio “Reforma Política” define essa relação:
Eu diria que uma verdadeira religião ela sempre carrega consigo valores. E como é que constrói ou descontrói uma nação. É partir de valores. Eu gostaria de acessar para dois exemplos de construção e desconstrução de uma nação. Grécia antiga imagina um paisinho como é se construiu a seriedade, o pensamento, a filosofia, a religião, por que não? Mesmo os que se diziam ateus na época, a palavra dada, a honradez. Enfim uma série de valores. O que aconteceu. Na medida em que se perderam esses valores. A Grécia foi absorvida por Roma que trouxe os valores. O início do império romano, você tinha valores, palavra dada, comprometimento com pátria assim por diante. E depois lá pelo século IV por volta do V acentuadamente, os bárbaros vieram do Norte e destruíram Roma. Não! Os bárbaros estavam em Roma. Agora decadência total, da família, bebida, tudo quanto é tipo de vicio. Evidentemente como é que eles lutaram com novas forças que iam surgindo. Queria chamar atenção para isto. Por exemplo, a questão da família, gente você pode ter uma compreensão eu diria relativamente elástica, mas sem família você vai para onde? Seja a família estrita, seja a família ampliada, mas é um fator importante. A verdade, a busca da verdade, depois também a palavra dada. Simplesmente não existe palavra dada, promete e compromete etc., mas não vale nada. Ou seja, você tem uma série de valores que estão unidos à religião. [...]
O primeiro ponto a ser notado, é que a verdadeira religião é aquela que carrega valores. Obviamente o modelo de religião que o programa emprega é o da igreja Católica. No âmbito do “Em Pauta”, muitas das vezes, ambos, religião e igreja Católica, são sinônimos. O segundo ponto, é que o que traz um total derrocada para as civilizações é a falta de valores morais-religiosas. Pelos exemplos históricos dados pelo Frei, isto está para além do próprio cristianismo. Terceiro, apesar de esses valores religiosos serem anteriores historicamente ao catolicismo, o frei Moser ao usar os mesmos valores – família, conduto sem vício, etc. – tanto na Grécia antiga, para o império romano, quanto para a atualidade, confere caráter de universalidade e atemporal para os valores religiosos católicos que devem conduzir a sociedade civil a democratização.
Em outro episódio, no “Manifestações”, o Frei explica como esses valores religiosos, sendo a igreja Católica a protetora deles, com uma metáfora. A Igreja seria como um grande farol dentro de uma condição de névoa e sombra em que não se vê muito bem para onde vai. A igreja tem essa luz do farol que é a luz do evangelho. Pois, segundo ele é a Igreja que porta os valores de respeito a pessoa humana e, principalmente, aqueles que estão enfrentando essa situação difícil ou são vítimas da realidade social e das injustiças.
Nesta perspectiva, para esse programa, uma nova consciência de orientação democrática é produzida por valores religiosos nos quais seu protetor é a igreja Católica. Como diz o Frei no mesmo episódio: “nós somos uma igreja que tem uma história e que tem
uma responsabilidade em transformar essa terra num lugar onde todos se sintam realmente amados, filhos e filhas de Deus”.
Assim, no âmbito deste modelo societário, a responsabilidade do cristão também tem uma conotação de cidadania. Para o Padre Hamilton, sobre a consciência política, temos que parar de pensar o homem religioso como um alienado. Pelo contrário, ele é alguém ciente de suas responsabilidades e de seus compromissos com a comunidade em prol de uma sociedade que proclame a igualdade, uma cidadania plenamente democrática.
Para concluir essa incursão na articulação entre sociedade civil e igreja Católica, ainda temos que olhar de perto o estatuto do cristão católico como cidadão na democracia.