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CAPÍTULO 3 Resultados e Discussão

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

"Semana passada eu fui no POP, procurar uma acolhida. Não consegui.”

“Quando eu falei que vinha do CENAD, já mudou até a fisionomia do rosto dela. No CENAD a gente tem um tratamento diferente. Esse equipamento dá direito a essa acolhida e conversou comigo, mas eu não entendi nada. E fui embora.”

“Mandou eu voltar segunda agora, mas eu vou ir com alguém do CAPS. Por que sozinho eu já vi que não vai funcionar, ela vai me mandar embora de novo.”

“Eu pedi um atendimento pra eu entrar no „Se Acolhe‟, sabe o que a mulher falou pra mim? „O Senhor veio de São Paulo faz 6 meses.‟ Faz uns quatro anos que eu não vou pra São Paulo! Aí ela puxou no computador, „mas tá aqui, oh, você veio de São Paulo faz 6 meses.‟”

"Não, eu acho que quando se fala em droga e saúde mental, principalmente o „Se Acolhe‟ é pesado. Quando você fale que é usuário, que você vai pro CENAD, já te olham meio assim. É complicado. É mais fácil dizer que bebe uma cachacinha, que você vai entrar legal, entendeu?”

5- Papel da Intersetorialidade e a necessidade de interação entre serviços 5.2- Baixa comunicação entre os serviços

“Eu acho que não existe uma comunicação entre

os equipamentos…”

“Não existe a comunicação…”

“Aqui é assim, eu mando no meu equipamento, você manda no seu e não adianta você assinar papel e mandar…”

“Tanto é que no Poupa Tempo, que a gente vai lá pra tirar documentação, lá eles não aceitam encaminhamento de outras assistentes sociais.”

“Eles não aceitam encaminhamento de, por exemplo, encaminhamento social do CAPS, ou a assistente social de um albergue, que as vezes tem lá no albergue noturno, em outros locais, em casa de caridade que tem assistente social. Eles não aceitam.”

5.3- Fragilidade da assistência à noite

"Mas eles (CAPS) deviam interagir com os abrigos, né? Porque a partir da noite o pessoal vai pra rua e eles não tem autorização de colocar o pessoal no abrigo.”

“Porque o abrigo, a senhora vai lá, tá cheio de vaga! Aí a senhora procura, eles mandam ir lá no POP. No POP eles não ajudam ninguém: „Você não pode ir por causa disso, disso e daquilo‟.”

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

“Semana passada eu fui no POP, procurar uma acolhida. Não consegui.”

“No CENAD a gente tem um tratamento diferente. Esse equipamento dá direito a essa acolhida e conversou comigo, mas eu não entendi nada. E fui embora.”

“Respondendo o que você falou, é um direito que eu acho que tenho, que não foi cumprido. Não sei. De repente é desse jeito mesmo…”

5.4- Postura dos profissionais

“Mas aí você vê que infelizmente, algumas pessoas parece que tá no sistema de saúde, no equipamento só pra ganhar dinheiro. Elas não tão nem aí.”

“Porque o abrigo, a senhora vai lá, tá cheio de vaga! Aí a senhora procura, eles mandam ir lá no POP. No POP eles não ajudam ninguém: „Você não pode ir por causa disso, disso e daquilo‟.”

“„Ah, você não pode ir por causa disso e daquilo.‟ Uma vez eu fui no POP, eu e meu colega pedimos abrigo, que acolhe. A mulher falou que não, que não tem vaga, que isso que aquilo. Aí fomos lá no „Se Acolhe‟: „não, porque aqui não tem vaga e não sei o quê.‟ Mas tinha mais de 50 vagas!”

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

“Só funciona à base de ameaça…”

“Eu tô pra ser atendido no POP, já tive uns três agendamentos lá. A mulher ou tá no cinema, ou tá passeando no carro, ou tá tomando café... aí eles mandam ir no outro dia. Pra recadastrar o meu Bolsa Família, nesse equipamento, o tal de POP aí, eu tive que ir lá 15 vezes! Pra eles recadastrarem…”

“Por que ela mesmo fala que o Secretário Municipal de Saúde tá nem aí pra CAPSad, né? Por ele, já acabava com tudo, né? Já jogava todo mundo numa clínica, ou na CT, ou abrigo Anchieta II, né?”

“Nós temos o direito de te ajudar, não custa nada. Mas, „Ah, se vocês não forem a gente vai fechar (o CAPS) a unidade; então podem ir pra rua... se não for lá na UNIFESP conosco, também aqui não vai ter‟.”

“Aí, baixam a porta e pum, metem o pé na bunda da gente, entendeu? Aí quer dizer.”

“Acontecem umas situações que a gente fica chateado mesmo, entendeu?”

“Eu acho que tem uma coisa... um acordo entre os funcionários... acho que a mulher simplesmente chegou e disse „hoje não vai ter café, quem quiser ir embora, pode ir‟.”

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

“Eles acham que nós somos loucos. Por que usamos drogas. Louco e chapado também... Aí dá o remédio pra nós…”

“Mas existem bons funcionários lá também.”

"Sim, existem mesmo."

"Tem muitos bons funcionários lá.”

"Eu conto com uma T.O que hoje ela é chefe do POP, A M, que é muito legal, dá segunda via do documento quando preciso, ela é muito atenciosa comigo. Ela vai, corre atrás…”

“Não, é uma coisa combinada. Se eu chegar pro técnico e falar talvez ele vá me dar uma orientação que eu não vá seguir.”

“(...) quando eu cheguei pra estudar, as meninas que estavam fazendo estágio, disseram, „vai estudar, ocupa a mente‟, legal. Aí o que eu fiz, eu preciso de xerox pro meu certificado, eu preciso de duas fotografias pra mim poder fazer minha matrícula. Eu não tenho. A máquina de xerox tá quebrada. Vai no „Se Acolhe‟: „aqui não dá, vai no POP‟.”

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

“Funcionário… „Pô, você veio me acordar, eu tava tirando uma soneca‟. Eu falei, „pô, é? mas hoje quarta-feira é dia de reunir?‟ A reunião deles é essa. É ficar lá dentro dormindo, olhando pra cara um do outro e dando risada.”

“Revista sim lá… joga tuas coisas no chão. De todos os usuários do serviço, até quem… hoje em dia tá mais suave. Antes até agressão tinha.”

“Deixa eu falar. Imagina a senhorita, a senhorita se põe no lugar de um de nós aqui. Aí numa infelicidade, né, a senhora é obrigada a ter um equipamento desses. A senhora vai lá e por uma sorte do destino a mulher lhe arruma uma vaga e você acolhe. Então lá entra às 19 horas, a senhorita vai lá, vai começar a assistir a Bandeirantes, conhecer o pessoal, todo mundo assistindo a Bandeirantes… quando chega às 20 horas, a mulher vai lá e diz pá (fazendo mímica de mudar o canal num controle remoto), „agora é hora de novela‟. Aí todo mundo olha pra ela, não pediu nem „dá licença‟, diz, „é hora de novela, quem não tiver gostando pega o beco‟.”

“Ela meio que deu uma, saiu dizendo, „nosso tratamento é assim‟, uma coisa bem rígida. „Aqui você não pode entrar assim, não pode entrar assado‟. Mas a forma dela se expressar já mudou, entendeu? Tipo assim, ela já sabe, faz no automático aquelas perguntas.”

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

“Eu pedi um atendimento pra eu entrar no „Se Acolhe‟, sabe o que a mulher falou pra mim? „O Senhor veio de São Paulo faz 6 meses‟. Faz uns quatro anos que eu não vou pra São Paulo! Aí ela puxou no computador, „mas tá aqui, oh, você veio de São Paulo faz 6 meses‟. Quer dizer, usaram meu nome, meu CPF, meu número de RG, acho que venderam minha passagem, pegaram o dinheiro da passagem, sendo que nem pra São Paulo eu fui.”

“Ela falou, „Não, você veio de São Paulo faz 6 meses você não pode entrar no „Se Acolhe‟”. Sendo que eu sou de Santos. Usou isso aí como subterfúgio.”

“(...) Agora eu acho que no CAPSad é mais suave, porque o pessoal, eles estão mais preparados. Eles tratam exatamente disso, né? E o Centro POP também, pelo menos as duas pessoas que eu peguei de cara lá me trataram super bem. (...) E no CAPSad eu cheguei, e perguntaram, „que tu quer, se não quer tomar remédio‟. Eu disse, „eu preciso me ocupar‟. Aí disseram, „então vai estudar, vai fazer não sei o quê, vai fazer um curso, vai ocupar a mente, vai fazer projeto, certo? E quando tiver algum problema vem pra cá, que você não tá conseguindo, mesmo que tenha usado, venha aqui, senta aqui pra gente conversar‟.”

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

5.5- “Pop” - tem que ter justificativa para entrar; restrição do acesso, péssimas

condições de higiene

“(...) que nem tem um projeto da Prefeitura Pop, você já tá há um ano naquele trabalho lá em cima, aí colocam pessoas na sua frente. E você fica daquele jeito... „Pô, e eu?‟ Aí você começa a querer abandonar as coisas.”

“Na hora que ela ligou lá eles arrumaram vaga na hora! Se a senhora procurar o equipamento da prefeitura, eles falam que não tem vaga. Eles não ajudam ninguém. Eles pioram a situação.”

“É que tem um negócio aí que eles tem que deixar um certo número de vagas pra caso acontecer alguma coisa em alguma favela, alguma coisa em alguma cidade. Essas pessoas aí, aí não dá pra ficar. Aconteceu um incêndio, eles pegaram e trouxeram pra esse outro abrigo aqui da (inaudível), um número de camas vazio, justamente pra e se acontecer alguma coisa. Então é isso que eles alegam.”

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

“Então, eu peguei uma micose que eu me coçava com caco de vidro! (...) Por conta da gente deitar naqueles colchão que eles colocavam as pessoas deficientes, e eles não levavam, não levantavam pra fazer suas necessidades, faziam ali, só chegavam (a equipe do abrigo) passavam um pano qualquer e pum, empilhavam o colchonete lá. E a noite, quando a equipe de rua buscava a gente pra ir deitar, eu fui a primeira e a última vez que eu peguei uma vez só e mesmo assim na Iguatemi Martins…”

“(...) quando eu cheguei pra estudar, as meninas que estavam fazendo estágio, disseram, „vai estudar, ocupa a mente‟, legal. Aí o que eu fiz, eu preciso de xerox pro meu certificado, eu preciso de duas fotografias pra mim poder fazer minha matrícula. Eu não tenho. A máquina de xerox tá quebrada. Vai no „Se Acolhe‟: „aqui não dá, vai no POP‟. Aí fica difícil, como vão conseguir ajudar alguém a tentar querer, tentar querer recomeçar a vida se não tem nem por onde começar?”

“Mandou eu voltar segunda agora, mas eu vou ir com alguém do CAPS. Por que sozinho eu já vi que não vai funcionar, ela vai me mandar embora de novo.”

“Respondendo o que você falou, é um direito que eu acho que tenho, que não foi cumprido. Não sei. De repente é desse jeito mesmo…”

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

“Eu não sei se eu entendi o que a senhora falou, mas pensando na prática, na hora que a gente vai enfrentar o pessoalzinho do POP, a realidade é diferente.”

“Eu pedi um atendimento pra eu entrar no „Se Acolhe‟, sabe o que a mulher falou pra mim? „O Senhor veio de São Paulo faz 6 meses‟. Faz uns quatro anos que eu não vou pra São Paulo! Aí ela puxou no computador, „mas tá aqui, oh, você veio de São Paulo faz 6 meses‟.”

5.6- Universidade

“Uma menina de Santos me indicou esse pessoal

da universidade, que você senta, eles conversam com você, eles estão lá só pra conversar. Senta na cadeira e você conta sua vida e…”

5.7- Profissionais interessados em

ajudar

“O R. lá, um operador social maravilhoso! Que Deus mantenha aquele homem daquele jeito, tudo que você pedia a ele, inclusive foi ele, eu nem sabia que existia o Bolsa Família. Ele falou assim, „J, eu quero falar com você: tá interessada em ter uma renda? Não é muito, mas eu posso te ajudar. Tu quer?‟ Eu achava que ele ia vir...ele falou, „Tá vendo esse livro aqui? É o CAD único, o Bolsa Família, o cadastro único. Eu vou fazer pra você, daqui há três meses, mas sempre recadastrando há cada dois anos você vai ter acesso a R$ 85,00.‟ Não é muito... era R$ 75."

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

“Nessa parte eles são sensacionais, sensíveis. Eles são sensíveis. A primeira coisa que eles perguntam, „tem Bolsa Família?‟ Aí eles vão e fazem.”

“(...) Mas 70% tá ali só pra ganhar o dinheiro e bater o ponto deles e sair fora. O restante tá querendo ajudar.”

“É. Agora só entra 20 pessoas. Agora, inventaram um negócio que toda quarta é reunião, então quer dizer, ele só trabalha segunda, terça, quinta e sexta. Quarta já não tem atendimento. (...) No primeiro dia a mulher viu eu com a nenê, „Não, o senhor tem uma criança. O senhor pode ficar tranquilo, o senhor já assinou aqui, o senhor já está recadastrado.‟ Tu tem que ver a dor de cabeça que eu tive! Quinze vezes pra conseguir o Bolsa Família, depois que ela falou pra eu ficar tranquilo. Piorou minha situação. Eles até queriam cortar meu benefício. Só que eu consegui, fui lá 15 vezes. Aí um funcionário saiu ali de dentro, „pô, eu tava tirando uma soneca.‟ Em plena quarta-feira!”

5- Papel da Intersetorialidade

e a necessidade de interação entre serviços

“(...) Agora eu acho que no CAPSad é mais suave, porque o pessoal, eles estão mais preparados. Eles tratam exatamente disso, né? E o Centro POP também, pelo menos as duas pessoas que eu peguei de cara lá me trataram super bem. Eu tenho problema com álcool, com cocaína, certo, é assim, assim, eu preciso de ajuda. Tanto é que eles realmente me ajudaram. E no CAPSad eu cheguei, e perguntaram, „que tu quer, se não quer tomar remédio‟. Eu disse, „eu preciso me ocupar‟. Aí disseram, „então vai estudar, vai fazer não sei o quê, vai fazer um curso, vai ocupar a mente, vai fazer projeto, certo? E quando tiver algum problema vem pra cá, que você não tá conseguindo, mesmo que tenha usado, venha aqui, senta aqui pra gente conversar.‟ Remédio, não adianta, porque eu não vou tomar.”

Quadro 6- Participação do usuário nas decisões sobre como o CAPS deve funcionar

6- Participação do