Nos cursos organizados na modalidade EAD é fundamental que o estudante tenha uma
postura investigativa, responsável, crítica e autônoma. A própria metodologia utilizada no
curso não responde as necessidades daqueles estudantes que assumem uma posição passiva no
processo ensino-aprendizagem. No entender da T8, a falta de comprometimento dos
estudantes dificulta o desenvolvimento da sua autonomia. Quando o estudante não
compreende qual é a sua função, é provável que “fique esperando” pelo tutor para estudar e
aprender:
Se não houver o comprometimento do aluno esse módulo de educação não acontece.
Na educação a distância, como prevê o Manual do Estudante é um estudo autônomo.
Ele tem que pegar o caderno pedagógico, ler, pesquisar, fazer grupo de estudo. O
aluno não pode ficar só esperando por aquele encontro com o tutor. Nós não
somos professores da disciplina. Nós temos alunos que não cumprem o seu papel.
Eles não vêm às aulas, chegam no dia da prova e estão desesperados, pois não
participaram das discussões do caderno e aí elas querem ajuda extra. Muitas acabam
ficando em recuperação e isso gera um transtorno. No fim elas não entendem que
este é o trabalho delas, é estudar, perguntar. O estudante de EAD tem que estar
sempre perguntando. Eles teriam que ter auxílio da Internet e eles não têm. (grifo
nosso)
O comprometimento do estudante com o processo ensino-aprendizagem passa pela
compreensão de seu papel nesse processo. Para Morosini (2007, p. 100): “comprometimento
com a aprendizagem se refere ao montante, tipo e intensidade de investimento que os
estudantes fazem nas suas experiências educacionais”.
A definição do perfil da clientela a ser atendida pelos cursos na modalidade EAD é
fundamental, principalmente quando se busca implementar uma “formação em serviço”. No
caso do curso de Pedagogia, na modalidade EAD, o objetivo inicial era atender os professores
que já estavam exercendo a docência na educação básica. Logo, torna-se compreensível que
os estudantes que não tenham magistério em nível médio ou experiência como docentes
sintam-se mais inseguros na produção e apresentação de trabalhos, conforme destaca a T7.
Eles ficam mais inseguros, já que nem todos são da área do magistério. A grande
maioria dos alunos da minha turma agora já está atuando na área, pois muitas eram
donas de casa ou trabalhavam no comércio. Percebo diferença no aluno que atua e
o que não atua na área da educação. A diferença é a insegurança, o jeito de dominar o
conteúdo, de chegar aqui na frente e poder apresentar um trabalho, ser criativo. Quem
não tem essa experiência na sala de aula é muito mais inseguro. (grifo nosso)
A questão socioeconômica dos estudantes emerge como uma dificuldade para a
materialização do projeto pedagógico, uma vez que há dificuldade de acesso à Internet. A
dificuldade de domínio do uso das tecnologias também dificulta a implementação do projeto
pedagógico. A própria cultura oral e escrita tão presente no contexto escolar pode ser um dos
fatores que levam os sujeitos a não conseguir utilizar as novas tecnologias. Se o curso é na
modalidade EAD e as estratégias de inserção das tecnologias são timidamente implementadas
(às vezes numa ou outra disciplina isoladamente), a possibilidade de construir um projeto
pedagógico que explora o virtual se torna mais remota. A falta de dinheiro para o transporte
para deslocamento dos estudantes para os encontros tutoriais aparece como dificuldade para
muitas alunas:
Nós deveríamos ter laboratórios de informática com os computadores para gente
poder inclusive orientar. Elas não conseguiam fazer as disciplinas pendentes porque o
curso previa recuperação on-line, foram feitas matrículas agora no início do ano e
eles tiveram que suspender porque as alunas não conseguiam acessar ao
computador. Eu tenho alunas que não estão vindo para as aulas porque não têm
dinheiro para a passagem. Não dá para idealizar o aluno achando que ele é o “aluno
virtual”, porque nem todo mundo é. Mas se tivesse uma sala com computadores a
nossa disposição, que a gente pudesse ir lá, seria maravilhoso. (grifo nosso)
A fragilidade dos processos avaliativos pode comprometer a implementação do projeto
pedagógico, uma vez que há uma diversidade de motivações individuais. Entendemos que os
processos avaliativos devem acompanhar a metodologia adotada. Muitas vezes, os professores
utilizam em suas aulas metodologias de ensino que reproduzem o conhecimento e na hora de
avaliar requerem a construção de conhecimento. Os instrumentos de avaliação fornecem ao
professor/ tutor subsídios, ainda que aproximativos, para verificar como está o processo de
aprendizagem de seus alunos. Esses subsídios tornam-se ainda mais aproximativos
principalmente quando a entrevistada enfatiza que os alunos conseguem facilmente aprovação
seja pela linguagem acessível dos cadernos pedagógicos e dos instrumentos de avaliação, seja
pelas práticas de “cola” e de “troca de trabalho”. O relato da T12 ilustra a fragilidade dos
processos avaliativos do curso de Pedagogia:
Acho que depende muito de que o aluno a gente está falando. Acho que o aluno
que não está compromissado com o curso, ele consegue ser aprovado mesmo sem
estudar, basta dar uma lida rápida no caderno que ele consegue aprovação na prova e
nos trabalhos também. Como a metade das questões da provas é objetiva favorece
muito a cola também, então significa que nem sempre ele acertou cinco questões de
verdade. É impossível ter esse controle na hora da prova porque elas passam na
borracha, muito fácil. Da mesma forma são os trabalhos, são muitas turmas fazendo
a mesma coisa, então há muita troca de trabalho porque um tutor não tem
conhecimento do trabalho dos alunos dos outros tutores. Elas podem pegar um
trabalho de outra turma e passar para o tutor porque não se põe todos os trabalhos
juntos para verificar se estão iguais, pode ter dez trabalhos iguais que o tutor não vai
descobrir porque é o mesmo trabalho para dez turmas. (grifo nosso)
O trabalho de mediação realizado pelo tutor é importante, pois, para a T9, as alunas
“têm muita dificuldade de escrever e de fazer relação entre os conteúdos. Essa turma que
ficou comigo um ano e meio, que eu tive esse tempo para intervir, a escrita mudou bastante”.
Algumas alunas se diferenciam em termos de aprendizado, principalmente quando já
acumularam certa experiência profissional na docência, conforme enfatiza a T9:
Têm algumas alunas que fazem reflexões muito boas, tem umas que estudam, que
estão indo para a prática com outro olhar, e aquelas que já estão na prática
trazem suas experiências para cá. Quando a gente consegue estabelecer essas
relações, e acho que isso depende muito do tutor, quando a gente realmente consegue
estabelecer uma discussão e quando o tempo é suficiente saem muitas coisas
interessantes. A gente vê diferença no aluno que vem com a experiência da prática da
escola, porque isso traz o real da sala para a gente discutir, o outro fica muito no
campo como deveria ser. Essa coisa de como deveria ser é muito forte na
Pedagogia, coisa do ideal mesmo. (grifo nosso)
As relações entre os conhecimentos aprendidos no curso de Pedagogia com as práticas
escolares desenvolvidas na educação básica são apontadas pela T9 como condição de
superação de um modelo de formação de professores que reproduz nos seus discursos e
práticas representações sobre escola, estudantes e professores idealizados. Esse movimento de
construir e levar para a escola novos olhares e trazer para a universidade as experiências
vivenciadas na educação básica contribui para desconstruir aquelas práticas de formação de
professores que se assentam “no como deve ser”.
Conhecer o projeto pedagógico e participar da sua construção, bem como das práticas
de avaliação permanente, possibilita que os sujeitos se reconheçam e se comprometam com a
sua implementação. Nos relatos dos tutores entrevistados podem ser evidenciados indícios de
que os principais atores desse processo pouco conhecem o projeto pedagógico. Conhecer e
comprometer-se com o projeto pedagógico extrapola a leitura de manuais e cadernos
pedagógicos, principalmente para os estudantes que ainda não acumularam os conhecimentos
necessários para “ler nas entrelinhas”.
Em relação ao papel do estudante no projeto pedagógico, os entrevistados apontam a
necessidade de esses sujeitos terem comprometimento para que possam estudar com
autonomia. Destacam ainda que há diferenças de rendimento e participação dos estudantes
que atuam na área da educação como professores. O perfil socioeconômico pode dificultar
que os estudantes se desloquem de casa para os encontros presenciais e o acesso às
tecnologias. Outro aspecto destacado foi a fragilidade dos processos avaliativos, que se
manifesta de diferentes formas.
No documento
acervo.paulofreire.org Este documento faz parte do acervo do Centro de Referência Paulo Freire
(páginas 142-145)