Historicamente, a avaliação cumpriu funções como verificação e controle dos
processos educativos com a finalidade de regular o comportamento dos sujeitos e torná-los
mais produtivos. No Brasil, o Ministério da Educação vem implementando um conjunto de
práticas de avaliação dos diferentes níveis, sobretudo, a partir da LDB 9394/96. O Estado
brasileiro vem construindo e assumindo seu papel regulador dos processos educativos
realizados formalmente no território nacional.
Curriculares Nacionais, Referencial Curricular da Educação Infantil e as Diretrizes
Curriculares para os cursos de graduação indicam o trajeto a ser buscado pelas instituições
educativas. Os livros didáticos foram reestruturados a partir do estabelecido nos PCNs. A
regulação sobre a implantação dessas diretrizes se dá pela aplicação de instrumentos de
avaliação como o Sistema de Avaliação da Educação Básica, Exame Nacional do Ensino
Médio e o alcunhado Provão. Com a implantação do Sistema de Avaliação da Educação
Superior – SINAES, busca-se avaliar as IEs tomando como parâmetros: o resultado do
Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes – ENADE, a análise do relatório de
auto-avaliação e o parecer dos avaliadores externos quando da visita in loco.
A avaliação cumpre um papel fundamental nas instituições com finalidades
educativas. Pelas práticas avaliativas, a instituição de educação superior e toda comunidade
acadêmica podem refletir e aperfeiçoar o trabalho realizado. Esse processo, conhecido
também como Avaliação Institucional, possibilita o redesenho do planejamento da
instituição.
Todo curso possui um projeto político-pedagógico que se materializa nos discursos e
nas práticas dos sujeitos envolvidos. A análise desses discursos e práticas nos permite
identificar qual é a concepção de homem, educação e sociedade que lhe dá sustentação. Essas
concepções são traduzidas no tipo de curso, nos objetivos, no perfil do profissional que se
deseja formar, nas metodologias de ensino, nos materiais pedagógicos utilizados, nos
processos avaliativos e na organização curricular.
Uma das pesquisadoras brasileiras que se dedica ao estudo do Projeto
Político-Pedagógico é Veiga (2005). Sua produção acadêmica nos indica o quanto é importante que as
instituições construam coletivamente o projeto político-pedagógico, primeiramente porque
uma instituição de ensino necessita planejar as suas atividades a partir da definição de sua
razão de existência. No projeto político-pedagógico se constrói coletivamente os caminhos
que serão assumidos pelos sujeitos de uma instituição. Nesse processo, cada sujeito a partir da
sua história de vida traz e compartilha suas experiências, dúvidas e indagações com vistas à
construção da unidade sem, contudo, anular a diversidade.
A T5 destaca em seu relato que não há espaço para discussão do projeto pedagógico,
já que os cadernos pedagógicos e o cronograma de trabalho vêm pré-estabelecidos. Contudo,
a coordenação desafia os tutores para fazerem reuniões de planejamento coletivo. Critica o
distanciamento dos diferentes sujeitos (professores, coordenadores, tutores) que constituem o
projeto pedagógico do curso de Pedagogia da UDESC, na modalidade:
Não, a gente não tem espaço até porque os cadernos já vêm prontos, são
colocados em uma seqüência, já tem um programa. Nós temos um cronograma
para seguir, articular entre nós o tipo de metodologia que vamos utilizar para
favorecer o aluno. A própria coordenação também pede para a gente sentar, fazer
reuniões. Essa é nossa função como tutores, como professores, fazer reuniões, montar
planejamento porque nós temos que fazer um planejamento para decidir que
metodologia vai ser utilizada. Isto nos foi colocado, só que uma das coisas que eu
acho complicado é realmente à distância, é à distância de tudo, da coordenação
geral, do tutor, sabe são muitas distâncias. (grifo nosso)
Anteriormente foi apontado pelos tutores entrevistados a dificuldade de realizar um
trabalho mais compartilhado pela pulverização dos horários dos tutores e pela falta de
iniciativa institucional de construir espaços de troca. Essas dificuldades podem comprometer
a construção de práticas pedagógicas compartilhadas e gerar o sentimento de que “tudo está
distante de tudo”.
Os momentos de avaliação e replanejamento das atividades desenvolvidas também
acontecem no espaço de sala de aula, conforme aponta a T7. Entretanto, se dá em nível de
grupo de estudantes e tutor e não alcança a dimensão institucional, pois os encaminhamentos
já estão definidos:
A reflexão existe dentro da sala de aula. Existem momentos de auto-avaliação, de
sentar, de parar para perceber, ver onde nossa turma precisa melhorar ou
algumas pessoas dessa turma. Em termos da modalidade do curso não, você não
consegue reestruturar um curso que já está praticamente organizado, quando chega um
caderno, chegam as orientações, enfim, já está definido como será o processo.
Algumas coisas a gente consegue alterar de um ano para outro. Alterar o cronograma,
alterar a ordem das disciplinas. (grifo nosso)
As reflexões que ocorrem dentro das salas de aulas, quando centradas apenas no
processo ensino-aprendizagem podem dificultar que tutor e estudantes possam pensar o curso
de Pedagogia da UDESC, na modalidade EAD, na totalidade.
No que se refere ao processo ensino-aprendizagem, a avaliação permite que
estudantes, tutores e professores reconstruam coletivamente a prática educativa. A qualidade
de ensino é em grande parte ampliada, quando se busca avaliar permanentemente todo o
processo com vistas ao seu aperfeiçoamento. A T1 destaca em seu relato a dificuldade de
avaliar os estudantes a partir de parâmetros que não construiu:
É um trabalho igual para todos. Aí ele diz como quer o trabalho, como deve ser feito,
mas é sempre um texto bem produzido, algo bem elaborado mesmo, é bem
complicadinho. A professora entrega o trabalho e o gabarito para o tutor onde se
indica o que deve ter o trabalho e o que deve ser avaliado. Nós não avaliamos
esse trabalho com os olhos do tutor, mas sim com os olhos do professor da
disciplina. É o que eu acho mais complicado, pois quando vais avaliar um trabalho
que tu planejaste é uma coisa, mas quando tem que avaliar um trabalho com gabarito
de outro professor, avaliar com os olhos dele, realmente complica. Como já disse a
avaliação é complicada. (grifo nosso)
No relato da T1 evidencia-se um dos indícios da fragmentação do processo avaliativo,
a separação entre quem produz o instrumento e define os critérios de avaliação e quem aplica
e corrige-os. Quanto ao tipo de instrumento de avaliação a T4 informa que as alunas se
queixam da prova, principalmente quando estudam o caderno pedagógico que trata da
avaliação. O estudo sobre avaliação fornece aos estudantes elementos para questionar as
práticas avaliativas vivenciadas no curso. Parece-nos que há uma reprodução do discurso do
tutor quando o estudante diz que “não deveria ter prova”. A prova, como qualquer
instrumento de avaliação, possui limitações e, portanto, é sempre aproximativa:
As alunas reclamavam muito, que não deveria ter prova, que deveria é uma outra
forma de avaliação. Quando nós trabalhamos o caderno da avaliação, com todas as
possibilidades de avaliar, elas criticavam a avaliação da UDESC. A gente sabe que o
trabalho do dia-a-dia nos permite conhecer o aluno e a prova não dá conta de
avaliar bem o aluno. (grifo nosso)
A discussão sobre a aprovação X reprovação aparece no depoimento da T9. Enfatiza
que as possibilidades de recuperação dos cursos na modalidade EAD são muitas. Observa que
algumas das práticas avaliativas desenvolvidas caminham mais na direção da recuperação de
notas do que de aprendizagens:
Acho que o curso deveria repensar a questão da avaliação, parece, e eu disse isso
para coordenadora, que a gente não pode reprovar, parece pecado, eu sei que isso
não é só no curso a distância. O curso a distância dá uma infinidade de
possibilidades dos alunos serem aprovados, não é nem recuperar, os alunos
buscarem a aprovação. E aí tem alunos, por exemplo, que não vêm à aula, não vêm
nas aulas de tutoria, vêm só na prova, e aí o que eu faço, eu reprovo como infreqüente,
aí esse aluno fica, aí ele tem a possibilidade de fazer, fica com disciplina pendente,
tem a possibilidade de fazer essa disciplina de novo? Só que ele não faz a disciplina
de novo nas mesmas condições, é um trabalho que ele vai fazer, na verdade nem
considero uma recuperação de estudo, porque ele não vai estudar muito, ele vai pegar
aquele texto para fazer uma síntese, um fichamento. Para mim, isso não é recuperar
conhecimento, isso é só buscar nota para ser aprovado. (grifo nosso)
A prova e todo ritual que dela decorrem, segundo a T5, pode interferir no aspecto
psicológico dos estudantes e comprometer seu desempenho. Enfatiza que os estudantes
estudam para as provas apenas a partir do caderno pedagógico. Busca desenvolver uma
prática avaliativa que permite refazer as atividades propostas para os estudantes que não
conseguiram apropriar-se do conhecimento. A dificuldade dos estudantes escreverem textos
dissertativos também emerge em seu relato:
A prova interfere muito no psicológico deles. A nossa avaliação enquanto tutora é
analisar, ver e perceber o aluno como um todo, se ele faz relação entre
conhecimentos, sei também que existem muitos que não querem buscar outras fontes,
só se baseiam no caderno pedagógico. Nós também temos alunos que não
conseguem fazer uma boa estruturação no material, mas se tu pedes para
reformularem, eles vão buscar fazer isso. Quando chegam na questão objetiva da
avaliação eles conseguem porque eles analisam, lembram do caderno, mas
quando é para dissertarem, eles sentem mais dificuldades. As pessoas que avaliam
a dissertação são diferentes, não somos nós tutoras, são os professores das disciplinas,
eles não estão todos os encontros com os alunos. Eu sei o que eles querem dizer
porque eu estou habituada com eles, mas uma outra pessoa corrigindo vai ter uma
interpretação diferente. (grifo nosso)
Sobre as questões propostas nas provas presenciais, a T6 destaca que as questões
objetivas não “medem” o conhecimento e que, num grupo de 39 estudantes, se pode facilitar a
prática da “cola”. Acrescenta que esse tipo de questão presente nas provas não condiz com a
concepção teórica adotada no projeto pedagógico da UDESC.
Nós sabemos, já estudamos, temos um caderno só sobre avaliações, questões de
verdadeiro e falso, assinalar, a gente sabe que não mede o conhecimento de
ninguém, aliás, está medindo, está tentando medir. Questões de marcar com um x ou
uma letrinha A, B, C numa sala de 39 alunos onde nós estamos sentadas uma muito
próxima da outra, é muito fácil olhar para o lado e copiar. Para mim é uma
avaliação que perde totalmente o valor dentro de um projeto como todo, dentro de
uma perspectiva teórica, de uma concepção histórico-cultural que a gente vem
estudando e que é a base filosófica dos nossos cadernos. Os próprios alunos têm
consciência disso, tanto que a maior reclamação deles é a prova, é a forma de
fazer a avaliação. (grifo nosso)
Outros critérios de avaliação também são utilizados pelos tutores para avaliar os
estudantes do curso de Pedagogia da UDESC, na modalidade EAD, como freqüência,
participação e o cumprimento de todas as atividades propostas, conforme aponta a T9:
Na minha concepção de aprendizagem, não sei se o curso consegue avaliar porque
como tutora eu não consigo avaliar o processo de aprendizagem. A minha
avaliação, as notas que atribuo a elas têm relação com a freqüência e a participação,
o cumprimento das atividades propostas. Se elas conseguem atender a essas três
questões, a minha nota é dez, mas isso para mim não é uma avaliação de
aprendizagem. Não sei se a prova consegue avaliar a aprendizagem. (grifo nosso)
A fragmentação do sistema de avaliação é reafirmada pela T10. Destaca em seu
depoimento as dificuldades de fazer uma avaliação mais adequada com tempo insuficiente
para o aprendizado e a baixa freqüência de alguns alunos. A dificuldade de corrigir os
trabalhos pela “falta de conhecimento” também é objeto de reflexão da entrevistada:
Acho que esse sistema de avaliação não é produtivo porque fica tudo muito
fragmentado. É um encontro por semana, os alunos faltam por “n” motivos, a
disciplina passa muito rápido e aí tu tens que dar uma nota. Os trabalhos são
elaborados pelos professores das disciplinas e nós corrigimos. Volto a dizer, nossa
orientação e mesmo correção é muito falha, pois não temos todo conhecimento
necessário da área. Tem reprovações, principalmente, nas provas. As questões são
um pouco tradicionais, os alunos reclamam muito e as provas são corrigidas em
Florianópolis. Na verdade, só vão os gabaritos para correção, a prova (rascunho)
fica com cada aluno. (grifo nosso)
O relato das entrevistadas aponta a falta de espaço institucionalizado para a realização
de avaliação e replanejamento do projeto pedagógico do curso, principalmente pela
dificuldade de conciliar os horários dos tutores. As práticas avaliativas realizadas no curso de
Pedagogia, na percepção dos tutores entrevistados, podem ser aperfeiçoadas. A fragmentação
dessas práticas, que se manifesta na separação entre quem produz, aplica e corrige as
avaliações, é contraditória com as discussões sobre avaliação presentes no caderno
pedagógico destinado ao estudo desta temática e dos pressupostos teóricos da abordagem
histórico-cultural. Logo se torna compreensível que os estudantes “reclamem” das provas.
No documento
acervo.paulofreire.org Este documento faz parte do acervo do Centro de Referência Paulo Freire
(páginas 168-173)