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Para um debate sobre projetos de inclusão

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CAPÍTULO 4. A sociedade inclusiva

4.7. Para um debate sobre projetos de inclusão

Num país como o Brasil, onde 148 milhões de brasileiros não têm acesso à Internet, justificam-se políticas e ações de inclusão digital, as quais, além de capacitar para o uso das tecnologias, contribuam para o desenvolvimento da cidadania. Este tema ganha importância se pensarmos que governos, empresas e organizações do Terceiro Setor progressivamente oferecem serviços em meios digitais. CRUZ (2004) entende que os projetos de inclusão digital não devem restringir-se apenas ao acesso às tecnologias:

a inclusão digital não se restringe ao acesso às tecnologias e a seu uso. Ela se relaciona à motivação e à capacidade para a utilização das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) de forma crítica e empreendedora. Superar os desafios, que incluem barreiras — tais como má distribuição de renda, baixa taxa de escolaridade e limitação do próprio conhecimento — são questões apresentadas e necessitam ser discutidas. Mesmo assim, governo, empresas e sociedade civil têm muito a contribuir. Os exemplos revelam um conjunto variado de ações consistentes, que passam por doação de máquinas e equipamentos, educação, voluntariado e inclusão de pessoas com deficiência, e já se constituem como referências para projetos mais amplos dos governos. São essas experiências que devem e podem ser imitadas por todas as iniciativas de inclusão on-line cidadãs do Brasil. (CRUZ, 2004, p. 14) A experiência mostra ainda que quem investe na inclusão digital on-line tem muito a ganhar, não apenas porque a inclusão digital resulta num uso mais eficiente de recursos tecnológicos. Há ganhos em gestão de conhecimento, qualificação da mão-de-obra, aumento da auto-estima, ao mesmo tempo em que os indivíduos adquirem novos conhecimentos, consciência histórica, política e ética.

O acesso às Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) também chamado inclusão digital, está diretamente relacionado, no

174 mundo atual, aos direitos básicos à informação e à liberdade de opinião e expressão. A exclusão digital é uma das muitas formas de manifestação da exclusão social. Não é um fenômeno isolado ou que possa ser compreendido separadamente, pois se trata de mais uma conseqüência das diferenças já existentes na distribuição de poder e de renda. Num momento em que empresas e governos migram informações e serviços para os meios eletrônicos, o excluído digital passa a ter dificuldade de conhecer e de exercer seus direitos de cidadão. A inclusão digital não se resume à disponibilidade de computadores e de telefones, mas à capacitação das pessoas para o uso efetivo dos recursos tecnológicos. (CRUZ, 2004, p. 14)

Para ser incluído digitalmente, não basta ter acesso a micros conectados à Internet. Também é preciso estar preparado para usar essas máquinas, não somente com capacitação em informática, mas com uma preparação educacional que permita usufruir seus recursos de maneira plena.

As tecnologias da informação e da comunicação precisam se tornar ferramentas que contribuam para o desenvolvimento social, intelectual, econômico e político do cidadão. Do ponto de vista de uma comunidade, isto significa aplicá-las a processos que contribuam para o fortalecimento de suas atividades econômicas, de sua capacidade de organização, do nível educacional e da auto-estima de seus integrantes, de sua comunicação com outros grupos, de suas entidades e serviços locais e de sua qualidade de vida. Mas a inclusão digital não beneficia somente o indivíduo. Uma empresa com colaboradores incluídos consegue se comunicar com a equipe de forma mais eficiente e mais barata e pode tirar maior proveito de seus investimentos em tecnologia. E estas vantagens também se refletem na competitividade e na eficiência do próprio País. (CRUZ, 2004, p. 14)

Para o professor Gilson Schwartz, a exclusão digital limita a inserção global do Brasil. “A questão de fundo é técnica e metodológica, mas também política e empresarial”, escreveu Schwartz.

Enquanto não houver políticas fortes de formação de redes e indicadores socioeconômicos correspondentes, a presença de mais ou menos PCs no país pode até causar algum alarme, sem que o caminho

175 para superar o atraso seja mesmo trilhado. (SCHWARTZ apud SCHWARTZ, 2004)

Gilson Schwartz, professor, economista e jornalista, coordenador do Programa Cidade do Conhecimento, da USP, escreve a coluna “Tendências Internacionais” na Folha de S. Paulo, onde publicou este texto:

Um complexo de tecnologias determinantes do futuro das economias, dos governos e das sociedades, conhecido como “tecnologias de informação e comunicação” (TICs), está subdesenvolvido no Brasil. A questão de fundo é técnica e metodológica, mas também política e empresarial. Como em todo o mundo essas TICs estão mudando muito rapidamente, os indicadores disponíveis provavelmente deixam de captar boa parte do processo de exclusão. O desafio estratégico maior, imposto pelas tendências tecnológicas globais, é incluir as pessoas e organizações em redes. Colocar à disposição dos “sem-micro” computadores sem conexão a redes digitais interativas, por exemplo, é perda de tempo. Mas no Brasil ainda se gastam muitos recursos (públicos e privados), tempo e saliva nesse tipo de inclusão primária e potencialmente inútil. A inclusão digital não será determinada pela máquina, embora os novos modos de organizar empresas, governos e países exijam de fato a produção de novas máquinas de informar e comunicar. (SCHWARTZ apud SCHWARTZ, 2004)

Schwartz alerta sobre a necessidade de construção de redes, assim como em estabelecer indicadores correspondentes à real inclusão digital no país.

Formar redes de informação e comunicação é um desafio estratégico que exige mudanças organizacionais e culturais que vão muito além de saber digitar num teclado ou dominar um software de navegação na Internet ou datilografia digital. É também óbvio que o destino de setores inteiros pode estar em questão, pois nada garante que as redes digitais interativas da TV futura coincidam com os modelos de negócios hoje vigentes na rede de canais abertos da TV comercial. (SCHWARTZ apud SCHWARTZ, 2004)

Entre os dias 10 e 12 de dezembro de 2003, a União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência da Organização das Nações Unidas (ONU), organizou em Genebra a Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (WSIS,

176 na sigla em inglês). Durante os três dias de conferência, que reuniu mais de 10 mil pessoas de 176 países no Palácio das Exposições (Palexpo), foram discutidos, entre outros assuntos, o problema da exclusão digital, as experiências de sucesso ao redor do mundo para combatê-lo e também como as tecnologias da informação e comunicação podem contribuir para a redução da desigualdade social.

No último dia, foi divulgada uma declaração final, que, entre outros pontos, aponta o desafio de se utilizar a tecnologia para promover as metas de desenvolvimento previstas na Declaração do Milênio, da ONU: a erradicação da pobreza extrema e da fome; a conquista da educação primária universal; a promoção da igualdade entre os sexos e da valorização da mulher; a redução da mortalidade infantil; a melhora da saúde materna; o combate à Aids, à malária e a outras doenças; a garantia da sustentabilidade ambiental; e o desenvolvimento de parcerias globais para se alcançar um mundo mais pacífico, justo e próspero.

O relatório traz uma lista de princípios essenciais para uma “sociedade da informação” que beneficie a todos:

• melhora do acesso à infra-estrutura de informática e comunicação, bem como à informação e ao conhecimento;

• elevação da capacidade de acesso;

• aumento da confiança e da segurança no uso da tecnologia;

• criação, em todos os níveis, de um ambiente que incentive a adoção da tecnologia;

• desenvolvimento e ampliação das aplicações da tecnologia; • incentivo e respeito à diversidade cultural;

177 • atenção às dimensões éticas da “sociedade da informação”;

• incentivo à cooperação internacional e regional.

CRUZ (2004) acredita que “o real ponto de discussão está na criação de processos nacionais, no impulso de iniciativas de sensibilização sobre a importância e o impacto das políticas das TICs, na geração de condições e no desenvolvimento de estratégias efetivas de incidência e participação pública nos processos de políticas de TICs” (p. 41).

Cada vez mais organizações e membros da sociedade civil estão envolvendo- se em aspectos de políticas das TIC e estão transferindo sua experiência e seu conhecimento aos âmbitos locais e nacionais. Neste sentido, há oportunidade de trazer de alguma maneira as políticas das TIC do plano técnico ao social. Abriu-se também a possibilidade de impulsionar espaços de colaboração nacionais e regionais e desenvolver um potencial coletivo para influenciar os processos de políticas das TIC. Tal potencial para influir nas esferas das políticas e das regulações implica: neutralizar a tendência de converter as pessoas e as organizações em consumidores em vez de usuários criativos das TIC; impulsionar o desenvolvimento de capacidades para utilizar as ferramentas e compreender os distintos aspectos relacionados com as políticas das TIC; planejar estrategicamente o uso e a aplicação das TIC e construir e fortalecer as redes colaborativas.

A capacidade é a fibra que nos une ao desafio de usar as TICs criativamente e ao envolvimento da sociedade civil nos processos de políticas de TICs. Mas é muito, muito frágil, pois não há suficientes investimentos na aprendizagem e no desenvolvimento de capacidades dentro das instituições, no setor mais amplo e pelos doadores. (CRUZ, 2004, p. 41)

178 BETANCOURT (2004) acredita que a sensibilização é fator prioritário para o debate sobre as TIC.

É essencial que na América Latina e no Caribe se estimule o debate amplo a partir de diferentes perspectivas e em múltiplos espaços. A sensibilização sobre os temas e aspectos prioritários para a região é básica na construção e no fortalecimento de capacidades nas organizações da sociedade civil, assim como na definição coletiva dos aspectos relacionados com a SI e as TICs que beneficiem seus países. Para além da Cúpula estão as realidades concretas e a capacidade da sociedade civil de transformar condições adversas em oportunidades reais de desenvolvimento, mediante o uso de TICs. Isso levará a Sociedades da Informação centradas nas pessoas e em seus direitos fundamentais. A Sociedade da Informação está em formação. Construí- la a partir de instâncias e mecanismos participativos, democráticos e transparentes é um desafio a todos/todas. (BETANCOURT, 2004, p. 41)

4.8. Fundamentos para a constituição de uma cidadania

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