CAPÍTULO II INOVAÇÃO PEDAGÓGICA EM UMA PERSPECTIVA DE MUDANÇA
3 CONTEXTUALIZANDO PARADIGMAS
3.1 Paradigma Fabril versus Paradigma Inovador
Não há dúvidas o desenvolvimento da ciência foi um grande marco para a humanidade, pois com o surgimento do que se chamaria de comunidade científica a sociedade ganharia um leque de descobertas pertinentes ao avanço socioeconômico e tecnológico, séculos
posteriores. A ciência evoluiu por diversas fases, começando a surgir diversos grupos de pesquisas. Kuhn (1998) dizia que o termo “paradigma” estava relacionado a ciência normal. Sendo assim, o estudo dos paradigmas seria basicamente uma reunião de um grupo de pessoas que aprenderiam as bases de seu campo de estudo a partir dos mesmos modelos concretos, e suas práticas raramente iriam provocar desacordo sobre os pontos fundamentais daquele estudo.
Moraes apud Behrens (2013) diz que, paradigma na visão de Kuhn, seria uma realização científica de grande envergadura, com base teórica e metodológica convincente e sedutora, e que passa a ser aceita pela maioria dos cientistas integrantes de uma comunidade. Já Cardoso apud Behrens (2013), entende que paradigma é um modelo de pensar que será capaz de engendrar determinadas teorias e linhas de pensamento dando certa homogeneidade a um modo de um homem ser no mundo, nos diversos momentos históricos.
Portanto, paradigma é um modelo de pensamento que será utilizado por um determinado tempo. Então quando ocorrerá uma quebra de paradigma? O abandono de um paradigma ocorre quando se deixa de praticar a ciência que este define. Porém, a passagem de um paradigma para um novo não é abrupta e nem radical. Trata-se de um processo que vai sendo construído e legitimado com o tempo, incorporando características daquele que ficara para trás. Os paradigmas servem desde primórdios para orientar as pesquisas, seja modelandoas diretamente, ou através de regras abstratas. Kuhn (1998) dizia que:
A ciência normal pode avançar sem regras somente enquanto a comunidade científica relevante aceitar sem questões as soluções de problemas específicas já obtidas. Por conseguinte, as regras deveriam assumir importância e a falta de interesse que as cerca deveria desvanecer-se sempre que os paradigmas ou modelos pareçam inseguros (KUHN, 1998, p.72).
Então, quanto maior for a precisão e o alcance de um paradigma, tanto mais sensível este será como indicador das anomalias e, por conseguinte, de uma ocasião para mudança de paradigma, pois as anomalias que conduzem uma mudança de paradigma afetarão profundamente os conhecimentos existentes. Aqui podemos lembrar o pensamento de Cardoso apud Behrens (2013), ele diz que a formação de um novo paradigma ocorre nas entranhas do anterior, sendo que este nunca desaparecerá por total.
Sobre o paradigma científico, o mesmo só passou a ter maior importância e ganhar força com o chamado paradigma newtoniano cartesiano, sendo ele uma trajetória necessária no processo evolutivo do pensamento humano. Behrens (2013) afirma que:
O paradigma cartesiano teve sua origem histórica em Galileu Galilei, que introduziu a descrição matemática da natureza reconhecendo a relevância das propriedades quantificáveis da matéria (forma, tamanho, número, posição e quantidade do movimento). Contaminado por esses estudos, Descartes (1596-1650) propôs o “Discurso do método” com os seguintes pressupostos: jamais acolher alguma coisa como verdade sem evidência concreta; dividir cada um dos conceitos em tantas parcelas quanto possível para resolvê-las; partir da ordem dos conceitos mais simples para os mais complexos para conduzir degrau a degrau o conhecimento e buscar em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que provocasse a certeza de nada omitir (BEHRENS, 2013, p. 18-19).
Parafraseando a autora, essa visão mecanicista em que o universo se organizava de forma linear e determinista de causa e efeito levou o surgimento da dicotomia entre o racional e o emocional (corpo e mente), pois esse pensamento newtoniano-cartesiano apresentava uma epistemologia reducionista, sendo uma visão fragmentada do homem e do mundo.
Esses pensamentos serviram como alicerce para o que, somente no século XX chamaríamos de verdade científica, porém mantendo influências ainda do método cartesiano. Sendo assim, a base da cisão radical entre sujeito e objeto continuou caracterizando o conhecimento científico proposto no século XIX.
É necessário lembrar que esse paradigma deixou o mundo em crise, por deixar lacunas e falhas, devido a várias alterações sociais e econômicas que surgiram, exigindo novas respostas. Behrens (2013) diz que essa crise atingiu em todas as dimensões, inclusive na Educação, de forma acentuada, pois o pensamento newtoniano-cartesiano afetou significativamente as pessoas que frequentavam as escolas nesses últimos dois séculos. A autora diz mais ainda:
A visão fragmentada levou os professores e os alunos a processos que se restringem à reprodução do conhecimento. As metodologias utilizadas pelos docentes têm estado assentadas na reprodução, na cópia e na imitação. A ênfase do processo pedagógico recai no produto, no resultado, na memorização do conteúdo, restringindo-se em cumprir tarefas repetitivas que, muitas vezes, não apresentam sentido ou significado para quem as realiza.
Os alunos permanecem organizados nas carteiras, divididos por filas, de preferência em silêncio, sem questionar sem expressar seus pensamentos, aceitando com passividade o autoritarismo e a impossibilidade de divergir (BEHRENS, 2013, p.23).
Os séculos se passaram e mudanças sociais também aconteceram dentro das escolas, porém o modelo cartesiano permaneceria embutido. Foi preciso os intelectuais do início do século XX criarem pensamentos inovadores, pois estavam desacreditados desse paradigma
anterior. Sendo assim, seria necessário criar um novo paradigma para responder as incongruências e isso não seria tão fácil.
É o que diz Santos apud Behrens (2013):
O novo paradigma redefine os problemas e as incongruências até então insolúveis e dá-lhes uma solução convincente; é nessa base que se vai impondo à comunidade científica. Mas a substituição do paradigma não é rápida. O período de crise revolucionária em que o velho e o novo paradigma se defrontam e entram em concordância pode ser bastante longo (SANTOS apud BEHRENS, 2013, p.36).
Em pleno século XXI a escola ainda sofre influência do paradigma fabril. Esse modelo de escola ainda priorizava a uniformidade e homogeneidade didática, a aprendizagem é embasada na memorização de conteúdos, os quais devem ser reproduzidos fielmente nas avaliações, sendo que essa deverá reproduzir as informações passadas pelo professor. Assim, o que se poderia chamar de aprendizagem, é algo mecânico. Talvez, ainda seja difícil as escolas entenderem que esse tipo de ensino em massa do paradigma fabril, era um modelo útil para aquele tempo, segundo Papert (2008):
“Entre as insatisfações, o sentimento das crianças não é uma das menores; no passado elas podiam não gostar da Escola, mas eram persuadidas a acreditar que ela era o passaporte para o sucesso na vida. Na medida em que as crianças rejeitam uma Escola que não está em sintonia com a vida contemporânea, elas tornam-se agentes ativos de pressão para a mudança. Como qualquer outra estrutura social, a Escola precisa ser aceita por seus participantes. Ela não sobreviverá muito além do tempo em que não se puder mais persuadir as crianças a conceder-lhe certo grau de legitimidade” (PAPERT, 2008, p.21).
Parafraseando o Papet, percebemos que ele, na sua época, já alertava a imersão da escola do modelo fabril que não teria como sobreviver por muito tempo, pois o mundo iria mudar, novas tecnologias iriam surgir com o paradigma científico, sendo assim , essa escola também teria que se adequar às novas mudanças.
Segundo Fino (2001), essa nova ordem precisava de um novo tipo de homem, equipado com aptidões, para satisfazer às necessidades desse mundo fabril que nem as famílias e nem a igreja eram capazes de facultar. Esse paradigma fabril precisava de pessoas disciplinadas e que soubessem se adequar a tarefas repetitivas, o que levou a escola a ser criada com normas disciplinadoras e atividades repetitivas, pois a criança iria aprender para ir às fábricas, quando estivesse adulta.
era algo presente ainda na sociedade pós-moderna. Características como: falta de individualização, sistema rígido de organização, dar notas, autoritarismo dos professores, ainda permaneciam nas escolas do seu tempo. Porém, com o tempo, outros paradigmas foram surgindo dando continuidade a influenciar a escola.
A era mecânica acabou com tudo isto, pois a industrialização exigiu um novo tipo de homem. Exigia habilidades que nem a família nem a igreja podiam por si mesmas, fornecer. Forçou uma revolução no sistema de valores. Acima de tudo, exigiu que o homem desenvolvesse um novo sentido de tempo (TOFFLER, 2001, p. 221).
Novas mudanças então precisariam acontecer na educação, pois ela não estava mais conseguindo responder aos novos anseios da sociedade contemporânea. Kuhn (1998), na sua época, já dizia que a emergência de novas teorias seria geralmente precedida por um período de insegurança profissional pronunciada, exigindo a destruição em larga de paradigmas e grandes alterações tanto nos problemas e nas técnicas da ciência normal. Portanto, sempre que um paradigma surgir entrará em choque com as ideias dos anteriores até que haja um processo de adaptação ao novo modelo.
A partir de então, passamos a vivenciar o paradigma Emergente. Que seria mais um voltado para o ensino e aprendizagem, sendo uma aliança entre abordagem sistêmica, progressista e voltado para a pesquisa. A academia agora passaria a se preocupar com projetos pedagógicos, planejamento e métodos que os professores utilizariam no processo de ensino/aprendizagem. Uma nova proposta seria iniciada, algo inovador na educação que iria quebrar os paradigmas anteriores.
Nessa nova proposta paradigmática, o professor teria mais autoridade e autonomia para mediar em sala de aula, pois ele agora poderia escolher técnicas e métodos mais criativos, para facilitar a associação da teoria com a prática. O intuito aqui é facilitar a aprendizagem. Com o tempo esse paradigma ficou conhecido como Inovação Pedagógica, que nasceria com a insistência de Papert, por acreditar que o professor podia ajudar a criança a construir seu próprio aprendizado.