• Nenhum resultado encontrado

O paradigma sócio tecnológico: que tipo de sociedade vivemos hoje?

Analisando as mudanças paradigmáticas inscritas na história podemos refletir sobre suas implicações na formação de uma nova sociedade que exige novos posicionamentos, direcionamentos e técnicas específicas. O filósofo alemão Walter Benjamin nos adverte que: “no interior de grandes períodos históricos, a forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo que seu modo de existência” (1996, p.169).

Desta forma, é possível afirmar que as transformações provocadas pelo avanço da tecnologia e da ciência no final do século XX estabeleceram novas bases para a sociedade industrial, que transformou-se no século XXI na sociedade da informação e do conhecimento, principalmente a partir do advento da rede mundial de computadores no final do século XX.

Acompanha-se cada dia não somente o avanço da técnica e das formas de comunicação e informação, mas a própria transformação da sociedade ocidental e o surgimento de um novo paradigma. O que conduz ao seguinte questionamento: como a escola, os professores e alunos reagem diante desse quadro de transformações? Essa é a primeira indagação que este trabalho lança a partir do olhar da pesquisa para os imperativos de educar dentro de um novo paradigma sócio tecnológico.

O segundo questionamento deste trabalho diz respeito à natureza da transformação e como ela afeta o sistema escolar, obrigando a uma adaptação da realidade educacional na aplicação das novas tecnologias e mídias. Seria uma exigência para um ensino mais global e conectado com a cultura da interface ou apenas um imperativo para atender aos interesses do mercado internacional? Para procurar responder estas duas questões, no tópico seguinte é apresentado um panorama teórico sobre a formação do paradigma sócio tecnológico a partir do desenvolvimento da cibercultura.

O desenvolvimento tecnológico das últimas quatro décadas impulsionado pela revolução na informática, robótica e genética provocou profundas transformações na

sociedade ocidental, possibilitando a formação de um novo paradigma sócio técnico e mudanças tanto na política quanto na economia e principalmente no campo da cultura. Muitos pesquisadores como Baudrillard (1991), Johnson (2001), Harvey (1993) debatem o fim da modernidade e o início de uma nova fase, chamada por muitos deles de pós-modernidade. É dentro deste novo contexto que se desenvolve um novo paradigma societário com profundas implicações nas formas de apreensão dos conhecimentos, saberes e informações.

A pós-modernidade é uma transformação nas formas de pensar, agir e sentir. Segundo Harvey (1993, p.25) acompanhamos “uma notável mutação na sensibilidade, nas práticas e nas formações discursivas”. Ele apresenta os elementos que apontam para a transição entre a modernidade e a pós-modernidade localizando esta fase no final do século XX. O autor enfatiza que um aspecto importante desse período seria o seu caráter de mudança, o que impele para a sua compreensão dentro de um fluxo mais acelerado tanto no desenvolvimento das tecnologias quanto nas formas de apreensão da realidade pela sociedade.

Algumas questões são colocadas por Harvey ao longo de seu trabalho, entre elas, a emergência de uma nova sociedade ainda herdeira, dos valores e representações da modernidade. Harvey procura destacar que o novo período não pode ainda ser avaliado, mas que a sua característica mais importante é a mudança. Assim, a mudança seria perceptível em todos os domínios da vida humana, inclusive na cultura escolar. As formas de ensinar e aprender foram envolvidas por novos elementos e estruturas de pensamento, principalmente impulsionadas pelas novas tecnologias da informação e comunicação e sua incorporação cada vez mais intensa na vida cotidiana.

A pós-modernidade seria então o terreno no qual se desenvolvem novos tipos de sociabilidades e novas formas de lidar com a produção do conhecimento e sua socialização. A produção de saberes estaria estreitamente ligada a uma cultura, a cibercultura, que se movimenta em um espaço cada vez mais fluido e virtual: o ciberespaço.

Na transição para o século XXI, surgiu uma sociedade na qual o conhecimento é mediatizado pelas novas tecnologias, o que exige novos procedimentos, técnicas e saberes em articulação, sendo a educação uma esfera diretamente atingida por estas transformações. Os novos procedimentos dizem respeito às mudanças na forma de pensar e agir diante da incorporação das novas tecnologias. Diante dessas transformações, é importante pensar quais são as novas demandas que surgem para a educação diante de uma nova geração que vive dentro da cultura tecnológica.

Procurando localizar no tempo e espaço o início deste novo paradigma, Lévy (1999) indica que a revolução tecnológica que caracteriza o processo que chamamos de cibercultura começou no ano de 1945, quando surgiram os primeiros computadores com fins militares nos Estados Unidos e Inglaterra (1999, p. 31-32). A partir de 1960 teria ocorrido a disseminação do seu uso pelos centros de pesquisa e universidades e na década seguinte este processo foi acelerado com o desenvolvimento do microprocessador e a invenção do computador pessoal através de um movimento de contracultura centrado na Califórnia, Estados Unidos. Este processo avançaria bastante, revolucionando ainda mais as formas de comunicação entre as pessoas com o surgimento das mensagens interativas, desenvolvimento de novos jogos de videogames e a criação dos hiperdocumentos (hipertexto e CD-ROM).

A internet foi criada entre o final da década de 1980 e início da década de 1990, possibilitando o aparecimento das tecnologias digitais e criando um novo espaço de comunicação, sociabilidade, comércio, e um novo mercado da informação e do conhecimento. Todo este desenvolvimento provocaria uma mudança no paradigma anterior, a modernidade, provocando o surgimento de uma nova cultura. Sobre os impactos da cibercultura na educação, Lévy (1999, p.158) propõe o seguinte:

Duas grandes reformas são necessárias nos sistemas de educação e formação. Em primeiro lugar, a aclimatação dos dispositivos e do espírito do EAD (ensino aberto a distância) ao cotidiano e ao dia a dia da educação. A EAD explora certas técnicas de ensino a distância, incluindo as hipermídias, as redes de comunicação interativas e todas as tecnologias intelectuais da cibercultura. Mas o essencial se encontra em um novo estilo de pedagogia, que favorece ao mesmo tempo as aprendizagens personalizadas e a aprendizagem coletiva em rede.

A preocupação apresentada por Lévy no final do século XX aparece para a sociedade atual como uma tarefa urgente e que deve reconfigurar todas as políticas públicas de educação e principalmente sugerir novas adaptações dos sistemas de ensino em todo o mundo para a realidade proposta pela cibercultura. Nas suas palavras (1999, p.167):

Em resumo, em algumas dezenas de anos, o ciberespaço, suas comunidades virtuais, suas reservas de imagens, suas simulações interativas, sua irresistível proliferação de textos e de signos, será o mediador essencial da inteligência coletiva da humanidade. Com esse novo suporte de informação e comunicação emergem gêneros de conhecimentos inusitados, critérios de avaliação inéditos para orientar

o saber, novos atores na produção e tratamento dos conhecimentos. Qualquer política de educação deverá levar isso em conta.

O cenário delineado pelo autor já é o presente, entretanto, ainda não é possível para o sistema de educação acompanhar as alterações que vão criar tanto uma formação mais adequada para docentes e alunos quanto inserir a escola na sociedade informacional. Um esforço conhecido foi realizado por Gomez (2010) na tentativa de elaborar um guia para os professores. Em um dos trechos da obra, a autora afirma que (2010, p.16): “a internet como um artefato cultural tem gerado a cibercultura, produto de uma relação de trocas entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base microeletrônicas graças à convergência das telecomunicações com a informação”.

Compreendendo que a cibercultura é um produto das interações entre os homens e as novas tecnologias da informação e da comunicação, acredita-se que a dimensão social desse processo paradigmático é de grande importância. Neste sentido, Lévy indica mais uma orientação sobre a mudança que deve ser aplicada na educação da sociedade informacional (1999, p.169):

Será necessário, portanto, buscar encontrar soluções que utilizem técnicas capazes de ampliar o esforço pedagógico dos professores e dos formadores. Audiovisual, “multimídia” interativa, ensino assistido por computador, televisão educativa, cabo, técnicas clássicas de ensino a distância, repousando essencialmente em material escrito, tutorial por telefone, fax ou Internet...Todas essas possibilidades técnicas mais ou menos pertinentes de acordo com o conteúdo, a situação e as necessidades do “ensinado”, podem ser pensadas e já foram amplamente testadas e experimentadas.

Segundo Lévy, as palavras-chave para a educação devem ser: levantamento de informações e aprendizagem cooperativa. Para ele, é preciso que os especialistas da educação compreendam a diferença entre ‘ensino presencial’ e ‘ensino a distância’ e que saibam fazer uso adequado das redes de telecomunicações e das ferramentas multimídias, não se esquecendo de integrá-las com as formas tradicionais de ensino. Lévy afirma que (Idem):

A aprendizagem a distância foi durante muito tempo o ‘estepe’ do ensino; em breve, irá tornar-se senão a norma, ao menos a ponta de lança. De fato, as características da aprendizagem aberta a distância são semelhantes às da sociedade da informação como um todo (sociedade de rede, de velocidade, de personalização etc.).

Em consonância com o desenvolvimento dos imperativos da sociedade da informação, o Ministério da Educação criou inicialmente o Programa Nacional de Informática na Educação no ano de 1997, que foi reformulado enquanto política pública em 2007, sendo denominado Programa Nacional de Tecnologia Educacional, com o objetivo de inserir o uso das tecnologias da informação e comunicação no espaço escolar. O programa foi transformado em política pública através do Programa Nacional de Informação Continuada em Tecnologia Educacional (ProInfo Integrado), tendo como ações principais a montagem de laboratórios de informática, a produção de material e a capacitação dos professores da educação pública em consonância com o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE).

Nesse sentido, é relevante destacar que as políticas públicas têm uma importância capital no desenvolvimento de uma nova cultura, mas é necessário investigar como os atores sociais foram envolvidos no processo e quais tipos de interação e reação pode-se identificar dentro do campo escolar. Lévy indica que: “os professores aprendem ao mesmo tempo que os estudantes e atualizam continuamente tanto seus saberes ‘disciplinares’ como suas competências pedagógicas” (1999, p.170).

Após compreender como o paradigma sócio tecnológico foi estruturado e quais suas implicações para a educação, no próximo tópico é feita análise de como a EaD, as tecnologias da informação e comunicação são articuladas através do Proinfo a partir dos trabalhos de diferentes investigadores.