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6. DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS

6.1. Paramixovirus

Algumas das doenças víricas mais devastadoras em animais e humanos são causadas por vírus da família Paramyxoviridae (Ahne, 1999; Murphy, 1999). O Paramixovirus ofídico (OPMV) foi inicialmente isolado em serpentes Bothrops moojeni (Jacobson, 1997) e, desde a sua descoberta, já foi isolado em todos as grandes famílias de cobras incluindo Elapídeos, Boídios, Colubrídeos e Viperídeos (Clark, 1979; Cranfield, 1996).

Os sinais clínicos associados com a infeção por Paramixovirus são variáveis, normalmente pouco específicos e muitas vezes subtis, incluindo anorexia, regurgitação, dispneia, estridores, pneumonia, emaciação, perda de massa muscular, diarreia mucoide, fezes com mau odor, sobrecrescimento de protozoários intestinais, tremores e stargazing (Sand et al., 2004). As infeções secundárias bacterianas são comuns e podem conduzir a descarga nasal, formação de material caseoso na cavidade oral e respiração forçada ( Aiello e Moses, 2011).

A suspeita de infeção surge sempre que as alterações respiratórias não são responsivas a tratamento de suporte, antibioterapia e nebulizações, no entanto, o OPMV é de difícil diagnóstico, quer antemortem quer post-mortem (Aiello e Moses, 2011). As alterações histológicas mais comuns são pneumonia proliferativa, formação de células sinciciais e desmielinização dos axónios e, no entanto, não são encontradas em todos os animais infetados. Apesar destas lesões serem sugestivas de infeção, o diagnóstico é feito maioritariamente pelo isolamento do vírus em cultura de tecidos (pulmão), demonstração do

vírus por microscopia eletrónica e títulos crescentes do anticorpo específico em animais infetados (por hemoglutinação) (Jacobson, 1992; Sand et al., 2004).

O estado dos animais infetados pode ser melhorado com tratamento de suporte, administração de antibióticos e regras de higiene. Apesar disto, não existe um tratamento específico e a vacina em desenvolvimento ainda não se mostra efetiva (Aiello e Moses, 2011).

7. TRATAMENTO

Ainda não existem vacinas ou tratamento efetivos para a doença, daí que o seu controlo deve ser baseado na prevenção (Vanncraeynest et al., 2006). No entanto, a existência de algumas vacinas para outros arenavírus (Maiztegui, 1998; Fisher-Hoch, 2004; Buchmeier et al., 2007; Ambrosio, 2011) e a utilização eficaz de ribavirina na diminuição da gravidade da febre hemorrágica em humanos (McCormick JB, 1986; Buchmeier et al., 2007; Emonet, 2011) trazem uma nova esperança para a criação de vacinas contra o arenavírus responsável pela Doença dos Corpos de Inclusão (Stenglein et al., 2012).

A condição geral dos animais afetados pode ser melhorada com alimentação forçada e fluidoterapia (Chang e Jacobson, 2010). Todos eles deverão usufruir de um correto intervalo de temperatura nas instalações, daí que seja importante conhecer as necessidades específicas de cada espécie (Rowland, 2011).

7.1. Fluidoterapia

A taxa de rehidratação de um réptil é de 20 a 30 ml/kg/dia e pode ser administrada por diversas vias: oral, subcutânea, intramuscular, intracelómica e intravenosa. Subcutaneamente é possível administrar pequenos volumes já que grandes volumes poderão ser dolorosos. A via intramuscular também permite a injeção de pequenos volumes e tem como local de eleição a musculatura obliqua adjacente à coluna vertebral; a injeção deve ocorrer por baixo de uma escama e apontada cranialmente, após assépsia do local. Para administração de grandes volumes e rápida absorção, é utilizada a via intracelómica. O local de administração deve ser no quarto caudal do corpo, na junção das escamas ventrais e laterais, no lado esquerdo. Esta via acarreta risco de trauma iatrogénico de alguns órgãos e infusão nos sacos aéreos. A veia jugular pode ser cateterizada para administração por via intravenosa. Em cobras de maiores dimensões pode ser utilizada a veia coccígea ventral, a veia palatina direita é também acessível mas frágil podendo não ser possível repetir a

administração. Em situações de emergência, pode recorrer-se a administração intracardíaca (Rowland, 2011).

8. PROFILAXIA

Na ausência de tratamento para a doença dos corpos de inclusão é importante apostar numa boa profilaxia e num bom programa de medicina preventiva para diminuir o risco de introdução da doença numa coleção e de transmissão em programas de reprodução, começando por procurar a ajuda de um veterinário especializado em medicina de répteis e por conhecer a história pregressa dos novos animais introduzidos na coleção. Com a crescente facilidade de compra e venda destes animais, sem qualquer tipo de controlo, aumenta a probabilidade de aquisição de animais provenientes de coleções infetadas não diagnosticadas. Deste modo, é recomendado que os novos animais sejam adquiridos de criadores reconhecidos que possuam programas de medicina preventiva (Chang e Jacobson, 2010).

8.1. Quarentena

No que diz respeito à diminuição do risco de doenças infeciosas é essencial fazer a quarentena de novos animais antes da sua introdução na coleção. A quarentena deve ter a duração mínima de 90 dias, devendo alguns animais permanecer mais tempo nestas condições. Raramente é realizada uma verdadeira quarentena, na qual todos os animais deveriam entrar e sair no mesmo dia, 90 dias depois, e permanecer alojados totalmente separados da coleção em que vão ser introduzidos. Após este período de tempo, apenas os animais livres de piolhos e ácaros, com apetite e boa condição corporal devem ser introduzidos na coleção existente (Chang e Jacobson, 2010).

O ideal será a existência de duas áreas de quarentena separadas, uma para os novos animais que entram na coleção e a segunda para o isolamento dos animais já pertencentes à coleção que manifestaram a doença (Stahl, 2001). Estas áreas devem ser visitadas apenas ao final do dia para assim evitar nova passagem pelas instalações da restante coleção (Mader, 1996).

No maneio dos animais em quarentena devem ser utilizadas luvas descartáveis e todos os instrumentos utilizados devem permanecer separados daqueles usados na restante coleção e, preferencialmente, esterilizados. As jaulas de quarentena devem ser fáceis de limpar, ainda assim respeitando as necessidades ambientais de cada espécie (temperatura,

luz, humidade, etc.). Igualmente, o substrato deverá ser fácil de mudar e permitir a avaliação das fezes, podendo ser utilizado jornal para o efeito (Pasmans et al., 2008).

8.2. Controlo de ectoparasitas

As carraças, ácaros e piolhos são ectoparasitas muito comuns tanto m populações de répteis selvagens como em coleções particulares. O ácaro Ophionyssus natricis é o ectoparasita mais comum nos répteis mantidos em cativeiro, afetando maioritariamente cobras. É possível que as presas vivas (roedores) utilizadas na alimentação possam introduzir o ácaro na coleção, daí que as presas rejeitadas pelos animais em quarentena nunca devem ser oferecidas a outros animais. Os ectoparasitas podem ser detetados usando o teste da fita-cola (Pasmans et al., 2008).

A desinfeção dos terrários contra os ectoparasitas pode ser efetuada por uso de fipronil (Pasmans et al., 2008). Em cobras e lagartos, o fipronil pode ser substituído por ivermectina, diluída de 1 mL em 1 L de água (Kahn, 2005).

8.2. Rastreio

Dependendo da disponibilidade financeira do detentor dos animais, para além da quarentena, pode ser feito o despiste da doença recorrendo à colheita de sangue e avaliação dos esfregaços sanguíneos, procurando corpos de inclusão nas células sanguíneas. Apesar de mais dispendiosa e menos prática do que a avaliação do esfregaço sanguíneo, a biópsia de linfonodos, rim e fígado também possui grande valor diagnóstico antemortem (Chang e Jacobson, 2010).

8.3. Gestão da coleção

Normalmente, um animal diagnosticado com doença dos corpos de inclusão não é um caso isolado sendo quase certa a existência de outros animais infetados dentro da mesma coleção. Assim, nos casos extremos em que vários animais são diagnosticados e em que muitos são suscetíveis por partilharem o mesmo espaço, o extermínio total da coleção apresenta-se como uma opção viável. Uma segunda opção passa por remover da coleção apenas os animais que apresentem sinais clínicos de doença dos corpos de inclusão, colocá-los num espaço distinto ou submetê-los a avaliação microscópica ou mesmo necropsia (Chang e Jacobson, 2010).

Se possível, deve evitar-se a mistura de diferentes espécies na mesma instalação. Isto prende-se com o facto de que, por exemplo, as Boa constrictor são vistas como

reservatórios da doença podendo transmiti-la a espécies mais suscetíveis como as pitons (Schumacher et al., 1994).

Uma das questões que se levanta relativamente a esta doença é a possibilidade de transmissão vertical, ainda por falta de informação e de meios de diagnóstico apropriados, sensíveis e específicos. Ainda assim, como medida de prevenção, a descendência de animais infetados não deve permanecer na coleção (Chang e Jacobson, 2010).

A limpeza das jaulas deve ser realizada para remoção de todo o material orgânico, seguida da desinfeção com soluções apropriadas, como hipoclorito de sódio (0.15%), que deverá permanecer em contacto com o material um mínimo de 15 minutos. As jaulas devem permanecer vazias durante, pelo menos, duas semanas antes da introdução de novos animais (Stahl, 2001).

8.3.1. Necrópsia

A necrópsia é um método de monitorização eficaz e económico uma vez que permite recolher informação importante sobre doenças infeciosas, metabólicas e mau maneio (Stahl, 2001).

Os animais em quarentena ou qualquer réptil da restante coleção que, eventualmente, morra devem ser submetidos a uma necrópsia completa, assim como uma avaliação histopatológica de todos os tecidos incluindo o cérebro. A recolha de amostras e consequente pesquisa de infeções víricas, bacterianas, parasitárias e fúngicas também deve ocorrer neste exame post-mortem (Jacobson, 1999).

9. OBJETIVOS

Este estudo pretendeu determinar a presença da Doença dos Corpos de Inclusão na colecção de répteis do Zoo da Maia, entre dezembro de 2013 e abril de 2014, sendo motivado pelo histórico de sinais clinicos compativeis com a doença em alguns dos animais no passado. Assim, teve como principais objectivos:

• A realização de uma revisão bibliográfica atualizada, visando desta forma aumentar e aprofundar o conhecimento acerca da Doença dos Corpos de Inclusão;

• Avaliar esfregaços sanguineos para identificação de corpos de inclusão em eritrócitos e leucócitos;

• Averiguar a validade do exame de esfregaços sanguíneos como meio de diagnóstico inicial.

10. MATERIAL E MÉTODOS

10.1. Animais

Foram, inicialmente, integrados neste estudo 43 ofídios de várias espécies, de diferentes idades e pesos,incluindo machos e fêmeas. Todos eles nascidos e criados em cativeiro. Os animais foram avaliados independentemente de apresentarem ou não sinais clinicos compatíveis com a doença dos corpos de inclusao, uma vez que já existia historial clinico em outros animais da coleção, num período anterior ao período do estudo, incluindo anorexia, vómito, diarreia, sinais neurológicos e morte.

Após uma primeira avaliação de esfregaços sanguíneos, apenas prosseguiram para a fase seguinte do estudo 10 animais, num dos quais foi realizada biopsia ecoguiada tendo sido os restantes 9 sujeitos a eutanásia e necropsia.

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